quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Surpresas do casarão que parou no tempo



Rodrigo Brancatelli - O Estado de S.Paulo




OESP Cidade C4 24/10/2010




Restauração de palacete construído na década de 1930 em Higienópolis, e que vai virar centro cultural, revela memória da cidade



A história se desnuda a cada pincelada, a cada martelada, a cada raspagem. Pelos corredores do casarão no número 758 da Avenida Higienópolis, na região central de São Paulo, a memória da cidade ainda com feições do século passado está sendo revelada diariamente por operários, pintores e restauradores.

(foto de Eduardo Nicolau / AE)

Há sempre uma surpresa a ser encontrada, um detalhe, um vitral, uma pintura escondida, um cofre disfarçado, uma passagem secreta. Ali, durante os trabalhos de reforma do antigo palacete do barão do café Carlos Leôncio de Magalhães, percebe-se também que a preservação do patrimônio histórico da capital está intimamente ligada à manutenção da identidade paulistana. Um testamento de que progresso e desenvolvimento não significam apenas demolições.


O casarão de cinco pavimentos, 2.463 metros quadrados e pé-direito nas alturas está sendo restaurado pelo grupo que administra o Shopping Pátio Higienópolis, que comprou o imóvel em um leilão do governo estadual. A intenção é transformar o local em um centro cultural, possivelmente com café e uma pequena livraria - o trabalho dos restauradores, no entanto, ainda vai longe, com pelo menos mais dois anos de pinceladas, marteladas e raspagens. "Não dá para precisar quanto tempo ainda vai levar, e para falar a verdade não preciso correr. Vir aqui trabalhar é um imenso prazer, todo dia tem uma surpresa", diz o conservador e restaurador Toninho Sarasá, responsável pela reforma do casarão.


Curiosidades. Parece até que o tempo parou ali no endereço - passear por aqueles corredores e cômodos, mais do que uma simples visita a uma obra, é quase como entrar em uma fotografia antiga. O imóvel foi erguido de 1930 a 1937 pela empresa Siciliano & Silva, com o estilo eclético que fazia sucesso na Europa. O nível de detalhes é impressionante - o palacete ostenta piso de marchetaria, lustres de ferro fundido, lambris de jacarandá entalhados pelo artista italiano Dinucci, vitrais belgas, mosaicos com vidro Murano e teto em madeira de lei ornamentado em gesso pintado em dourado.


Surpresas e curiosidades realmente não faltam. Cada quarto tem uma pintura totalmente diferente, sempre imitando tecido, com padronagens típicas de castelos franceses. No primeiro andar há uma pequena capela inspirada no Mosteiro dos Jerônimos, de Lisboa, e os entalhamentos na madeira da escada principal exibem inúmeros símbolos religiosos. No subsolo, há um anfiteatro com capacidade para quase 50 pessoas sentadas; já na sala, um balcão todo em jacarandá mostra o apreço que os donos tinham por saraus e apresentações musicais.


A história conta que Leôncio de Magalhães, no entanto, não conseguiu desfrutar da mansão. Morreu um ano antes da conclusão. A mulher, Ernestina, e os cinco filhos, solteiros, mudaram-se para a nova casa, onde moraram por 11 anos. A partir de 1974, o local virou sede da Secretaria da Segurança e da Delegacia Anti-Sequestro. "Tudo foi muito bem preservado, pouca coisa foi modificada", diz Toninho Sarasá. "Já restauramos a fachada, e agora precisamos trabalhar no interior. Acho importante mostrar que demolir não é a única resposta, a cidade vai sentir falta de seu patrimônio lá na frente. Por meio dessas casas antigas, o paulistano pode conhecer sua história."

Um imóvel é demolido a cada 10 horas em São Paulo

Rodrigo Brancatelli e Rodrigo Burgarelli - O Estado de S.Paulo

OESP Cidade C1 24/10/2010

A cada dia, 2,5 imóveis são demolidos, em média, na cidade de São Paulo. É a ponta mais visível - e, para muitos urbanistas, perversa - do boom do mercado imobiliário, que lança quase 600 prédios por ano na capital paulista. Com a escassez de espaços urbanos, principalmente terrenos vagos em áreas nobres, a solução é destruir - segundo levantamento exclusivo feito pelo jornal O Estado de S. Paulo, a cidade perdeu em três anos exatas 2.692 casas.

A pesquisa foi feita com base em todos os deferimentos de alvarás de execução de demolição publicados no Diário Oficial da Cidade de São Paulo de 1.º de janeiro de 2008 até quarta-feira passada. Neste ano, já foram demolidos 664 imóveis. No ano passado, foram 933, e em 2008, 1.095. Traduzindo os números, isso significa que uma casa acabou sendo derrubada a cada dez horas para dar lugar a prédios, espigões ou condomínios residenciais e comerciais.

Exemplos desse cenário não faltam, principalmente em bairros que até a década passada eram predominantemente ocupados por casas - como Vila Mariana, Ipiranga e Vila Olímpia, na zona sul; Pinheiros e Pompeia, na zona oeste; Tucuruvi, na zona norte; e Mooca e Vila Prudente, na zona leste. Para as empresas especializadas em demolições, trata-se de um mercado exemplar, que cresce quase 80% ao ano. Mas para urbanistas, a transformação faz os endereços perderem um pedaço importante da própria memória.

"Há um empobrecimento histórico de São Paulo, a unidade da vizinhança fica extremamente prejudicada", diz o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Alternativas. Da taipa de pilão ao concreto, São Paulo foi construída e destruída inúmeras vezes - uma dinâmica que também ajudou a capital a ter um perfil eclético, diversificado e multifacetado. A dúvida fica em saber: haverá o momento em que será impossível prover infraestrutura? "Creio que é inevitável, principalmente numa cidade com tantos contrastes, tão densa e com números gigantescos", diz o diretor de estudos da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio, Luiz Paulo Pompéia.

"Em tese, deveria haver um momento em que a cidade estagnasse. Mas a grande metrópole, mesmo crescendo pouco, cerca de 0,6% ao ano, não pode deixar de buscar alternativas. Deveria-se pensar a cidade, independentemente das questões político-partidárias, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do cidadão."

Livro mostra o espírito paulista

Pablo Pereira - O Estado de S.Paulo

OESP Cidade C12 de 24/10/2010


Saiu da oficina um livro que joga luz no perfil dos paulistas. Obra nasceu em reunião na casa do professor Nilo Odalia (já morto) na qual estavam pesquisadores como Emilia Viotti da Costa. Leia abaixo a entrevista com o historiador João Ricardo de Castro Caldeira, um dos formuladores de História do Estado de São Paulo: A Formação da Unidade Paulista (Unesp, Imprensa Oficial e Arquivo Público do Estado, 2010):

O que diferencia São Paulo dos demais Estados brasileiros?
Entre as singularidades de São Paulo, pode-se destacar: razoável autonomia frente ao governo central; ponderável dispersão espacial da sua riqueza, presente tanto na capital como em cidades do interior; existência de elites que em diversos momentos da História tomaram importantes medidas de interesse público, e não apenas privado; apreciável projeção internacional, que a torna o principal elo do Brasil com o mundo.

Qual o impacto da explosão populacional da capital nesse processo?
Creio que a questão, nesse caso, está invertida: São Paulo é um forte polo de atração populacional desde que se tornou o mais importante centro do capitalismo no Brasil - uma de suas singularidades -, processo iniciado sobretudo a partir de 1850, e que não teve interrupção até o presente, quando o Estado continua recebendo importantes levas migratórias, que se dirigem tanto para a capital como para o interior.

A "locomotiva" paulista continua no ritmo da década de 1950?
A "locomotiva" está num ritmo mais acelerado. Em termos econômicos, São Paulo ainda concentra a parte mais expressiva da produção da riqueza nacional, mas o Estado se tornou também, ao longo do tempo, um centro cultural de relevância internacional, no qual as mais diversas "tribos" se encontram representadas, em festivais, bienais, museus, espaços culturais diversos, etc. São Paulo impulsiona tanto a produção econômica quanto a produção intelectual e cultural do País.

São Paulo bebeu em fonte europeia por muito tempo. Quando isso deixa de ocorrer?
Em São Paulo, desde o período colonial, começou a conformar-se uma sociedade de caráter específico, inicialmente por causa da combinação de elementos das culturas europeia e indígena. A maior presença do escravo africano a partir do século 19 e a imigração estrangeira, vinda não apenas da Europa, para a região, a partir da segunda metade daquele século, acentuaram esse processo de mistura cultural, que prosseguiu ao longo do século 20 e continua atualmente, com as migrações internas e a imigração latino-americana, contribuindo para configurar aquela que é uma das principais singularidades paulistas frente às demais unidades da federação brasileira: o seu caráter cosmopolita.

Quem melhor traduz o espírito paulista no século 20?
Não gostaria de cometer injustiças, mas se puder citar nomes, gostaria de destacar Antonio Ermírio de Moraes, Alfredo de Mesquita, Assis Chateaubriand, Carlos Alberto de Carvalho Pinto, Fernando Gasparian, José Mindlin e Mário de Andrade. Não esquecendo que houve e ainda há em São Paulo intelectuais, artistas e uma massa anônima imbuídos desse mesmo espírito.