sábado, 29 de janeiro de 2011

Seis roteiros para curtir São Paulo a pé (e sem pressa)

OESP Cidades C8 de 28/11/2010

Edison Veiga

SPTuris lança, em site, serviço para que as pessoas montem seus passeios temáticos pela cidade; mapa é criado automaticamente

A ideia é tão simples que parece uma daquelas que você se pergunta por que não tiveram antes. A SPTuris - empresa oficial de turismo da cidade de São Paulo - está usando o serviço de mapas do Google para criar roteiros temáticos para quem quer conhecer a capital. A pé.

Por enquanto, há seis deles disponíveis: Centro de São Paulo; Cultura na Avenida Paulista; Cultura Oriental na Liberdade; Prédios Históricos do Centro; Rua Oscar Freire e Arredores e Vila Madalena. Eles podem ser conferidos no link http://migre.me/2vQsw. "Nossa meta é chegar a 12", adianta o diretor de Turismo e Entretenimento da SPTuris, Luiz Sales.

Mas a graça da ferramenta não está somente nos temas dos roteiros. A partir das sugestões predefinidas pelo site - há cartões-postais conhecidos, lojas bacanas e bares e restaurantes famosos, entre outros pontos peculiares de cada região -, o turista pode selecionar os que mais lhe interessam. A ferramenta cria, então, o roteiro com os itens dispostos na melhor ordem para a pessoa fazer a pé. Aí, é só imprimir o mapa.

Claro que nem tudo é perfeito. Como o sistema é automático, pode acontecer de algum trecho ser íngreme demais ou, pior, não ter calçadas. "A gente até coloca o alerta no site, pois sabemos que alguns locais são de difícil acesso", lembra Sales. "Mas nosso propósito é mostrar que São Paulo é, sim, uma cidade que pode ser explorada a pé."

Repercussão. A iniciativa é bem-vista por pessoas do ramo. O historiador Roney Cytrynowicz, organizador de uma coleção de guias a pé publicados desde 2007 pela Editora Narrativa Um, lembra que muitos, paulistanos ou turistas de fora, sentem prazer em conhecer a cidade a pé. "O site me pareceu bem interessante. É um trabalho muito legal", comenta, com o conhecimento de causa de quem participa, mensalmente, de passeios do tipo, organizados pela sua editora em parceria com um portal de arquitetura.

Há seis anos à frente do projeto Caminhada Noturna Pelo Centro, o empresário Carlos Beutel - que contabiliza 258 passeios realizados, incluindo o da última quinta - é outro entusiasta da ideia. "Só a pé você consegue descobrir a cidade, observar a riqueza dos detalhes. Até hoje me espanto com o encantamento das pessoas nesses tours", diz.

Nos hotéis, a memória do centro

OESP Cidades C9 de 07/11/2010

Rodrigo Brancatellli

Nos hotéis, a memória do centro

Em viagem por São Paulo em 1819, o escritor e botânico francês Auguste de Saint-Hilaire classificou a única estalagem das redondezas como "imunda" e "deplorável". Era reflexo de uma cidade ainda provinciana, quase um vilarejo, com menos de 25 mil habitantes, sem ruas retificadas ou condições sanitárias adequadas. Desde então, a inauguração de hotéis em São Paulo esteve sempre intimamente ligada ao desenvolvimento paulistano, um testamento das transformações sociais e urbanísticas da metrópole em formação.

A mesma tendência ocorre atualmente, mesmo na São Paulo de 11 milhões de habitantes, 410 hotéis e 42 mil quartos. Depois de anos sem novidades, quase como nos tempos de Saint-Hilaire, o setor hoteleiro no centro voltou a ter investimentos em 2010, com a inauguração de dois hotéis e a promessa de três grandes bandeiras nos próximos anos nas imediações das Ruas São Bento e Doutor Vieira de Carvalho. Novamente, reflexo de uma cidade que quer recuperar sua memória e voltar a ocupar seu centro histórico.

A região central sempre foi o principal polo hoteleiro da capital", diz o engenheiro Caio Calfat Jacob, consultor hoteleiro e diretor do Secovi-SP. Com base em uma pesquisa de quase cinco anos, ele vai participar, no próximo dia 27, do evento 100 Anos da Hotelaria no Centro de São Paulo, que contará com palestras e um passeio pelos endereços que abrigaram os principais hotéis neste período (informações e inscrições pelo telefone 5591-1304). "O problema foi que, a partir de 1980, os setores bancário, econômico e político de São Paulo foram para outros bairros mais afastados e os hotéis também se mudaram. Mas agora há indícios que apontam que as grandes redes estão apostando novamente no centro, com a construção de empreendimentos ou a reforma de antigos."

Como os hotéis são elementos marcantes na paisagem das cidades, é possível traçar um paralelo da cronologia do setor hoteleiro no centro de São Paulo com a própria evolução arquitetônica e socioeconômica da capital - dos pioneiros Hotel Palm e Grand Hotel até os renomados Ca"d"Oro e Hilton, suas histórias ajudam a entender o crescimento da cidade. "O setor hoteleiro representa, assim, o desenvolvimento de São Paulo", diz Jacob.
OESP Cidades C4 de 25/07/2010

Diego Zanchetta


Em 1720, para combater o contrabando de carnes para a Vila de Santos, os vereadores estabeleceram que o açougue da cidade funcionaria dentro da nova sede da Câmara, construída no primeiro andar de um sobrado no Largo do Ouvidor, no cômodo ao lado da cadeia. Todo criador de gado teria de cortar suas carnes no local, sob vigilância de um mercenário contratado pelos parlamentares.

E o "envio da carne para o mar", segundo as atas da Câmara, tinha uma punição para o infrator: um ano na "Fortaleza de Bertioga".

Vereador faltou? Multa de dez cabeças de gado

OESP Cidades C4 de 25/07/2010

Diego Zanchetta

Era uma tarde chuvosa do dia 13 de março de 1621. Seria debatida na sessão da Câmara Municipal, na Rua do Carmo, a abertura de novas ruas na Vila de Piratininga. Mas o procurador do conselho, vereador e fazendeiro João Rodrigues Moura se ausentou sem justificativa e a discussão sobre o "arruamento" foi suspensa. Seus pares, então, aplicaram pela primeira vez a pena prevista para a falta parlamentar: pagamento de um tostão ou dez cabeças de gado.

Nos anos seguintes, até o início do século 19, era comum o vereador ausente da sessão ser multado. Alguns parlamentares, moradores da região onde hoje fica o distrito de Santo Amaro, tinham de percorrer três horas a cavalo para chegar ao centro e não aceitavam as justificativas de falta de quem morava na vila, perto do Paço Municipal. Foi o caso de Moura, que vivia num sobrado ao lado do Rio Anhangabaú.

Outra punição aos parlamentares foi adotada na sessão do dia 14 de março de 1665: ao presidente da Câmara que andasse a cavalo sem a vara vermelha que distinguia sua posição caberia a multa de 2 tostões.

Na SP Colonial, o maior castigo era ir para Bertioga

OESP Cidades C4 de 25/07/2010

Diego Zanchetta - O Estado de S.Paulo

No início, o Legislativo paulistano tinha apenas cinco vereadores que percorriam quilômetros a cavalo para encontros à luz de velas; 'degredo' de criminosos para o litoral só foi abolido em 1795

Antes de completar três décadas e com menos de cem habitantes, o povoado que deu origem a São Paulo já tinha uma Câmara Municipal. Em 1560, as sessões, aos sábados à noite, eram realizadas à luz de velas, em casebres cobertos por palha e com chão de madeira. Os cinco vereadores percorriam quilômetros a cavalo para chegar aos encontros.

Durante três séculos, até maio de 1828, a tarefa de fazer leis, mandar prender, julgar e criar taxas coube a um colegiado formado por um juiz, três vereadores e um procurador do conselho, todos eleitos no dia 1.º de janeiro de cada ano. Também eram nomeados um tesoureiro e um escrivão. Só podiam disputar as eleições os "homens bons", classe formada por fazendeiros e comerciantes portugueses, moradores das partes mais altas da Vila de Piratininga.

Oito endereços. Ao longo dos seus 450 anos, o Legislativo paulistano teve os poderes reduzidos, ocupou oito endereços, teve mais de 1.800 representantes, propôs 112 mil leis e caracterizou-se por ser palco dos debates sobre os problemas e anseios levados pelos cidadãos às autoridades. Da substituição do sapé pelas telhas de taipa à revisão do atual Plano Diretor, a "Casa de Leis" esteve no epicentro dos principais escândalos e polêmicas da metrópole.

Cada capítulo dessa história, com a minuciosa transcrição das falas dos vereadores em mais de 27 mil sessões, está disponível para consulta na Biblioteca do Palácio Anchieta, no número 100 do Viaduto Jacareí. Pesquisar o acervo é oportunidade rara de entender como foi a transformação da pequena vila em cidade rica com influência europeia. Na sequência, surge a capital moderna e de trânsito caótico. "Pelas atas é possível conhecer até brigas de famílias mediadas pelos vereadores", diz Benedito Lima de Toledo, historiador da USP.

Regras e "degredo". As primeiras regras do Município surgiram no início do período colonial, na casa do vereador português João Ramalho. No dia 24 de junho de 1562, após um acirrado debate de quase oito horas, Ramalho conseguiu apoio do juiz ordinário Antonio Brás Cubas, o equivalente hoje ao presidente da Câmara, para determinar a construção de um muro de taipa de 5 metros de altura ao redor da vila, que acabara de sofrer um novo ataque dos "selvagens índios carijós".

Para financiar a primeira grande obra da cidade, duas leis polêmicas foram estabelecidas: o dízimo doado aos jesuítas seria destinado agora ao novo muro e quem não ajudasse na construção seria multado em 50 cruzados e enviado para "degredo", ou deportado, por um ano em Bertioga.

Relatado em 32 sessões entre 1561 e 1752, o "degredo" para um forte do litoral sul, onde havia um núcleo português que assegurava a defesa da costa de São Vicente, ficou conhecido como a mais severa punição da vila. A norma foi aplicada a centenas de índios rebeldes e jesuítas que contestavam o poder dos vereadores. Também era uma forma que os portugueses encontraram de mandar desafetos e a escória da vila (ladrões de gado e aventureiros espanhóis em busca de minas de ouro) para uma distância só acessível após 30 dias de trilhas pela Serra do Mar.

O "degredo" foi escolhido, por exemplo, para punir o maior escândalo da vila na fase do País como colônia. Vinte "mancebos" portugueses acusados de pegar à força índias que lavavam suas roupas no Rio Anhangabaú ficaram isolados no litoral por três anos, para desespero de suas mães. O mesmo destino teve uma dezena de moradores que se recusou a trocar a cobertura de palha por telhas de taipa, o primeiro projeto de urbanização proposto pela Câmara. A pena só foi abolida em 1795.