OESP Caderno Cidades 17/09/2009
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090917/not_imp436312,0.php
Roteiro refaz andanças bandeirantes e destaca 9 municípios paulistas
José Maria Tomazela, SOROCABA
Cinco anos depois de ser criado pelo governo estadual, o Roteiro dos Bandeirantes, antiga rota usada pelos colonizadores paulistas tendo como eixo o Rio Tietê, está pronto para atrair turistas. As nove cidades que integram o roteiro definiram os atrativos e criaram a infraestrutura para receber os visitantes. "Agora é hora de colocar nosso produto no mercado", diz o secretário executivo do Consórcio do Médio Vale do Tietê para o Turismo, Pedro Macerani.
A diretoria que assumiu o consórcio na semana passada terá o desafio de convencer o turista, sobretudo o paulistano, de que vale a pena visitar todas as cidades do percurso. O roteiro refaz o caminho por onde passaram os desbravadores que partiram da Vila de São Paulo de Piratininga para andanças pelo então desconhecido território nacional, em busca de metais preciosos e riquezas. São cerca de 200 quilômetros, saindo de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, e passando pelas cidades de Pirapora do Bom Jesus, Araçariguama, São Roque, Cabreúva, Salto, Itu e Porto Feliz, até a chegada em Tietê.
De acordo com Macerani, todas as cidades criaram postos de informações turísticas e adotaram a sinalização urbana, além de designar uma comissão voltada para esse turismo. "Queremos agora que o governo do Estado faça a sinalização do roteiro nas rodovias de acesso e ajude a divulgar as atrações. Também estamos em contato com agências de turismo e vamos participar de feiras e eventos."
As cidades têm em comum o vínculo histórico-cultural com o movimento bandeirista, mas cada uma dispõe de atrativos próprios, capazes de agradar aos visitantes. São museus, fazendas históricas, trilhas e caminhos dignos de serem explorados, segundo Macerani. "A viagem é uma excelente oportunidade para o visitante se aprofundar na história do Brasil, pisando nas mesmas terras por onde passaram personagens como Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, e Fernão Dias Paes Leme, o caçador de esmeraldas." A Casa de Anhanguera é uma das atrações de Santana de Parnaíba, além da igreja e do casario colonial tombados pelo patrimônio histórico.
Exemplares da arquitetura oitocentista estão presentes também em Itu, famosa pelas igrejas e sobradões, Porto Feliz e Tietê. A cidade de São Roque, que passou a fazer parte do roteiro neste ano, tem o Sítio Santo Antonio, com a casa bandeirista, e as vinícolas. Araçariguama preserva uma mina de ouro que, no passado, despertou a cobiça dos colonizadores. Salto inaugurou o Memorial do Rio Tietê e tem parques geológicos.
EVENTOS
A região guarda uma grande diversidade gastronômica, de pratos típicos a doces caseiros e cachaça artesanal. Conta ainda com muitos eventos, como a Paixão de Cristo de Salto, o Corpus Christi de Santana de Parnaíba, a Festa do Bom Jesus de Pirapora, a de São Benedito de Tietê, a saída das Monções em Porto Feliz e as romarias. "Queremos que o roteiro não seja atração para um único dia, mas para vários fins de semana", afirma o prefeito de Tietê, José Carlos Melaré (PTB), novo presidente do consórcio.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Em busca da São Paulo esquecida
OESP 13/09/2009 Caderno Cidades
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090913/not_imp433960,0.php
A lente de câmera digital bem pequenininha que Douglas Nascimento sempre carrega no bolso já está treinada para traduzir o descaso em beleza. Todo santo sábado de madrugada, quando a cidade ainda acorda, o fotógrafo paulistano de 34 anos percorre os mais escondidos cantos de São Paulo em busca de ruínas, sujeira, abandono, degradação. São tijolos desgastados, reboco caindo, janelas quebradas. Esqueletos de concreto. Imóveis com janelas eternamente fechadas. Memórias simplesmente esquecidas. Ainda assim, Douglas e sua diminuta Lumix FV28 registram tudo, fotografam todos os detalhes, anotam os mais discretos contornos. E, no final das contas, dão sentido para algo em que ninguém mais repara.
Douglas é editor de um site chamado São Paulo Abandonada (www.saopauloabandonada.com.br), espécie de canal virtual de fiscalização que ele criou em janeiro para inventariar e preservar o que restou do patrimônio paulistano. São fotos de casas, fábricas e galpões abandonados, muitos dos quais correm o risco iminente de desabar ou de serem demolidos para dar lugar a mais um daqueles espigões residenciais com detalhes neocoloniais. Até agora, ele já visitou e fotografou 120 endereços - são capítulos importantes da história de São Paulo, casos flagrantes de patrimônio invisível, bens tombados imperceptíveis, que estão ali mas ninguém se dá conta.
"Sempre gostei de fotografar fachadas, casas, então comecei a montar um arquivo pessoal com essas imagens", conta ele. "Certo dia percebi que vários imóveis que havia registrado já não existiam mais. Um amigo meu me indicou um site de Portugal, o "Lisboa Abandonada" [www.lisboa-abandonada.com], e achei que era hora de fazer um aqui, até para evitar que outras casas desaparecessem. Agora tiro a foto do local, peço ajuda de uma amiga historiadora para levantar a memória do endereço, e ainda localizo num mapa para que qualquer pessoa encontre. Principalmente, para que a Prefeitura encontre e faça alguma coisa.
"No site é possível conhecer palacetes entregues à própria sorte na região central, antigos cinemas que viraram estacionamento, teatros fechados, hospitais esquecidos, edifícios que se transformaram em cortiços, casarões que já sumiram do mapa, vilas operárias centenárias que parecem cidades fantasmas. Há um óbvio fio condutor - mudam-se os endereços, os bairros e as zonas, mas fica evidente que a falta de uma política eficiente de preservação se repete por toda a cidade.
"Já vi de tudo por aí, na semana passada mesmo descobri uma casa bandeirista que já era dada como demolida", diz. "Tenho uma câmera profissional, mas prefiro usar uma digital bem pequena que carrego no bolso para onde for, e aí dá para fazer todos os flagras. Além disso, também sempre tenho um gravador à mão, porque vejo vários exemplos de patrimônio abandonado quando estou dirigindo, mas não tenho tempo de parar. Junto tudo isso, faço uns roteiros prévios, e vou no sábado às 5 horas percorrer e fotografar os lugares. É bom ser sábado de manhã, porque alguns endereços são na periferia, são perigosos, mas descobri que vagabundo e criminoso não acordam cedo.
"Nos últimos meses, com o sucesso do site e com a inclusão de um canal para denúncias anônimas, o trabalho de Douglas aumentou exponencialmente. "São quase mil visitas diárias, e às vezes tenho de desligar o celular porque não paro de receber novas denúncias", conta. "Acho que hoje está aumentando o interesse pelo patrimônio. O meu interesse por esse assunto surgiu por causa do fotógrafo Augusto de Azevedo, que foi um dos únicos a retratar a transformação da cidade no fim do século 19. Se não fossem as fotos dele, não saberíamos como era São Paulo. Até o túmulo dele no Cemitério da Consolação estava abandonado. Quero agora fazer o mesmo trabalho, quero que no futuro peguem minhas fotos e vejam um registro da São Paulo que acabou sendo demolida."
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090913/not_imp433960,0.php
A lente de câmera digital bem pequenininha que Douglas Nascimento sempre carrega no bolso já está treinada para traduzir o descaso em beleza. Todo santo sábado de madrugada, quando a cidade ainda acorda, o fotógrafo paulistano de 34 anos percorre os mais escondidos cantos de São Paulo em busca de ruínas, sujeira, abandono, degradação. São tijolos desgastados, reboco caindo, janelas quebradas. Esqueletos de concreto. Imóveis com janelas eternamente fechadas. Memórias simplesmente esquecidas. Ainda assim, Douglas e sua diminuta Lumix FV28 registram tudo, fotografam todos os detalhes, anotam os mais discretos contornos. E, no final das contas, dão sentido para algo em que ninguém mais repara.
Douglas é editor de um site chamado São Paulo Abandonada (www.saopauloabandonada.com.br), espécie de canal virtual de fiscalização que ele criou em janeiro para inventariar e preservar o que restou do patrimônio paulistano. São fotos de casas, fábricas e galpões abandonados, muitos dos quais correm o risco iminente de desabar ou de serem demolidos para dar lugar a mais um daqueles espigões residenciais com detalhes neocoloniais. Até agora, ele já visitou e fotografou 120 endereços - são capítulos importantes da história de São Paulo, casos flagrantes de patrimônio invisível, bens tombados imperceptíveis, que estão ali mas ninguém se dá conta.
"Sempre gostei de fotografar fachadas, casas, então comecei a montar um arquivo pessoal com essas imagens", conta ele. "Certo dia percebi que vários imóveis que havia registrado já não existiam mais. Um amigo meu me indicou um site de Portugal, o "Lisboa Abandonada" [www.lisboa-abandonada.com], e achei que era hora de fazer um aqui, até para evitar que outras casas desaparecessem. Agora tiro a foto do local, peço ajuda de uma amiga historiadora para levantar a memória do endereço, e ainda localizo num mapa para que qualquer pessoa encontre. Principalmente, para que a Prefeitura encontre e faça alguma coisa.
"No site é possível conhecer palacetes entregues à própria sorte na região central, antigos cinemas que viraram estacionamento, teatros fechados, hospitais esquecidos, edifícios que se transformaram em cortiços, casarões que já sumiram do mapa, vilas operárias centenárias que parecem cidades fantasmas. Há um óbvio fio condutor - mudam-se os endereços, os bairros e as zonas, mas fica evidente que a falta de uma política eficiente de preservação se repete por toda a cidade.
"Já vi de tudo por aí, na semana passada mesmo descobri uma casa bandeirista que já era dada como demolida", diz. "Tenho uma câmera profissional, mas prefiro usar uma digital bem pequena que carrego no bolso para onde for, e aí dá para fazer todos os flagras. Além disso, também sempre tenho um gravador à mão, porque vejo vários exemplos de patrimônio abandonado quando estou dirigindo, mas não tenho tempo de parar. Junto tudo isso, faço uns roteiros prévios, e vou no sábado às 5 horas percorrer e fotografar os lugares. É bom ser sábado de manhã, porque alguns endereços são na periferia, são perigosos, mas descobri que vagabundo e criminoso não acordam cedo.
"Nos últimos meses, com o sucesso do site e com a inclusão de um canal para denúncias anônimas, o trabalho de Douglas aumentou exponencialmente. "São quase mil visitas diárias, e às vezes tenho de desligar o celular porque não paro de receber novas denúncias", conta. "Acho que hoje está aumentando o interesse pelo patrimônio. O meu interesse por esse assunto surgiu por causa do fotógrafo Augusto de Azevedo, que foi um dos únicos a retratar a transformação da cidade no fim do século 19. Se não fossem as fotos dele, não saberíamos como era São Paulo. Até o túmulo dele no Cemitério da Consolação estava abandonado. Quero agora fazer o mesmo trabalho, quero que no futuro peguem minhas fotos e vejam um registro da São Paulo que acabou sendo demolida."
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