http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091221/not_imp485176,0.php
Símbolo do charme de um centro paulistano que não existe mais, o Grand Hotel Ca"d"Oro, primeiro cinco estrelas de São Paulo, fechou suas portas ontem, quando as chaves dos dois últimos quartos ocupados foram entregues em um check-out definitivo. "O importante é que encerramos de cabeça erguida, atendendo aos hóspedes sem o serviço perder qualidade", afirma o recepcionista Ricardo Noçais, de 64 anos, 43 deles a serviço do hotel.
Um dos últimos hóspedes, o empresário italiano Marco Crippa saiu no sábado. Ele, que visita a capital paulista quatro vezes por ano desde 1992, só ficava no Ca"d"Oro. "Tiraram minha casa de São Paulo", lamenta. Na noite de sexta, foi servido o último jantar do restaurante. Dos 120 lugares do salão, apenas 22 estiveram ocupados.
Ao menos oficialmente, o Ca"d"Oro será reaberto nos próximos anos. "Estamos procurando investidores para uma reforma", diz o proprietário Aurélio Guzzoni. "Iremos funcionar para a Copa de 2014." O otimismo não é compartilhado pelos funcionários, que já espalham seus currículos. "É complicado ser dispensado, mas faz parte da vida", conforma-se o auxiliar de garçom Ailton Oliveira.
ILUSTRES HÓSPEDES
Em suas décadas áureas, o hotel - e o restaurante contíguo - era refinado ponto de encontro de autoridades, intelectuais e artistas. O pintor Di Cavalcanti (1987-1976) chegou a morar ali durante alguns meses. O poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) e o escritor norte-americano Gore Vidal também eram figurinhas fáceis pelos corredores.
Entre os autógrafos orgulhosamente colecionados pela administração do hotel - conseguidos quando os ilustres ocupavam uma suíte ou uma mesa do restaurante -, estão nomes como o do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), do cientista norte-americano Linus Pauling (1901-1994), dos escritores Jorge Amado (1912-2001) e Rachel de Queiroz (1910-2003), do cantor Roberto Carlos, do apresentador de televisão e empresário Silvio Santos e do ex-jogador de futebol Pelé. Além de políticos, como o estadista francês François Mitterrand (1916-1996), o ex-governador paulista Mário Covas (1930-2001), o rei espanhol Juan Carlos I e os ex-presidentes brasileiros Ernesto Geisel (1907-1996) e Jânio Quadros (1917-1992).
Quando se submeteu a tratamento médico em São Paulo, o então presidente João Batista Figueiredo (1918-1999) chegou a despachar de uma suíte no Ca"d"Oro. Em 1991, o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007) ocupou um dos luxuosos quartos - que foi totalmente reformado para recebê-lo.
A história do empreendimento começou em Bérgamo, na Itália. Em um dos hotéis da família, Fabrizio Guzzoni (1920-2005) conheceu uma brasileira, com quem viria a se casar. Já em São Paulo, inaugurou o Ca"d"Oro - primeiro como restaurante, em 1953, na Rua Barão de Itapetininga. Três anos depois, na Rua Basílio da Gama, nascia o hotel. Poucos anos mais tarde, com 300 apartamentos, Guzzoni instalava seu negócio no endereço definitivo, na Rua Augusta.
Para se ter uma ideia de como o Ca"d"Oro prezava a elegância, até 1962 era proibida, em seu restaurante, a entrada de homens sem gravata. Havia até uma placa, oficializando a norma. Depois, a regra foi abrandada - era exigido apenas o paletó, embora dificilmente algum frequentador dispensasse a gravata. A administração mantinha paletós para emprestar a algum desavisado.
Outros Que Se Foram
Crowne Plaza (Rua Frei Caneca): fechado em 2008, foi vendido para o Ministério Público Federal
Hilton (Avenida Ipiranga): desocupado em 2005, o prédio abriga gabinetes do Tribunal de Justiça
Othon Classic (Rua Líbero Badaró): fechado em 2008, está vazio desde então
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Arquivo do Estado terá novo prédio
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091127/not_imp472907,0.php
Capacidade de armazenamento será ampliada em 9 vezes
Vitor Hugo Brandalise
Arquivo Público do Estado começou, no início do mês, uma reforma em sua sede para aumentar em nove vezes a capacidade de armazenamento do acervo histórico - documentos da administração pública desde o século 17. Hoje, são guardados no complexo da Avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte de São Paulo, cerca de 10 quilômetros lineares de documentos, 1,5 milhão de fotografias e 1,2 mil títulos de jornais e revistas. Conforme admite a coordenação do órgão, já não há espaço para mais nada.
Com a construção de um novo edifício, de 11 andares e 23 mil metros quadrados dentro do complexo, a capacidade do Arquivo subirá para 90 km de documentos em um único espaço. Com 23 km de documentos guardados - além dos 10 km armazenados na zona norte, há outros 13 km em depósitos na Mooca -, o Arquivo Público do Estado é o segundo maior do País, atrás apenas do Arquivo Nacional (que guarda 55 km lineares de documentos, divididos nos complexos do Rio e de Brasília).
No novo prédio do Arquivo paulista, haverá cinco andares com pé direito duplo, onde estarão armazenados processos que mostram todos os atos do Executivo na história do Estado. As obras, avaliadas em R$ 68 milhões, começaram no início do mês e devem ser finalizadas em dezembro de 2010.
A capacidade de atendimento com as reformas será quadruplicada - hoje, há espaço para 25 pessoas realizarem pesquisas simultaneamente; na nova área, até cem pesquisadores poderão trabalhar ao mesmo tempo, em espaços para pesquisas em grupo ou individuais. "O Arquivo é procurado hoje principalmente por pesquisadores de universidades, estudantes do ensino médio e por cidadãos interessados em obter cidadania de outros países, por exemplo, ou o histórico de alguma posse adquirida", explica o coordenador do Arquivo, Carlos Bacellar. "Será o primeiro prédio projetado especificamente para um arquivo de grande porte no País", diz.
Os ambientes do novo prédio do Arquivo serão climatizados, em temperatura média que variará entre 18°C e 20°C nos depósitos destinados a papel - hoje, não há ar condicionado no prédio e a climatização é feita somente com ventiladores. "No novo edifício, os depósitos serão construídos especialmente para o tipo de documento que se destinam a abrigar, com diferentes instalações para cartografia e iconografia", conta Bacellar.
Além disso, serão construídos novos laboratórios de preservação, restauração, microfilmagem e digitalização de documentos. "Já no próximo mês, vamos colocar na internet cerca de 29 mil páginas digitais de consulta para obtenção de cidadania. Mas, com novos laboratórios, documentos serão restaurados e digitalizados em volume muito maior", diz Bacellar.
No novo complexo, também haverá biblioteca para armazenar 45 mil volumes do acervo do Arquivo, auditório, espaço para exposições, livraria e café.
Entre o material procurado por pesquisadores para consulta no acervo do Arquivo Público do Estado estão as cerca de 1,1 milhão de fichas do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops), órgão destinado a controlar e reprimir movimentos contrários ao regime militar - e que fichou até o papa João Paulo II, quando ele esteve no Brasil em 1982 (está lá, sob o nome Segundo, João Paulo, conforme grafaram agentes do Dops). "Atrai pesquisadores e curiosos", conta Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo. "Cansei de ver gente vir até aqui para procurar sua própria ficha, para saber o que o regime apontava.
"Também há livros de registro que contam a história de todas as vilas da capitania de São Paulo entre 1765 e 1850, listadas domicílio a domicílio. "É um registro único no País.
"Numa tarde da semana passada, a aposentada Maria Lucia Ney, de 71 anos, esteve no Arquivo para "se informar sobre o mundo". "Gosto daqui, mas uma reforma cairá bem, para dar mais conforto a quem pesquisa e conservar melhor os documentos", conta. "Visitar o arquivo é uma boa maneira de mostrar aos jovens a importância de conhecer sua história. Dá até uma maior noção de cidadania e respeito ao que passou."
Periódicos do passado - incluindo toda a coleção fotográfica dos jornais Última Hora e Diários Associados, adquiridos em 2007 - também estão entre os itens procurados no Arquivo Público do Estado. As revistas e os jornais foram digitalizados e estão disponíveis na internet no site www.arquivoestado.sp.gov.br. Além disso, as fichas do Dops foram divididas em temas (por nome de sindicato, de entidade estudantil, de evento), digitalizadas e também estão na internet como parte do Projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional. Também estão disponíveis no site do órgão ou em www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br.
Para cidadãos interessados em conseguir cidadania estrangeira, em dezembro, o Arquivo vai colocar na internet cerca de 40 mil páginas de documentos dos núcleos coloniais do Estado, que ajudarão a comprovar a origem das famílias de imigrantes.
Arquivo Público do Estado de São Paulo - Rua Voluntários da Pátria, 596 (Estação Tietê do Metrô); de terça a sábado, das 9 às 17 horas;tel.: (11) 2221-4785;
www.arquivoestado.sp.gov.br
Capacidade de armazenamento será ampliada em 9 vezes
Vitor Hugo Brandalise
Arquivo Público do Estado começou, no início do mês, uma reforma em sua sede para aumentar em nove vezes a capacidade de armazenamento do acervo histórico - documentos da administração pública desde o século 17. Hoje, são guardados no complexo da Avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte de São Paulo, cerca de 10 quilômetros lineares de documentos, 1,5 milhão de fotografias e 1,2 mil títulos de jornais e revistas. Conforme admite a coordenação do órgão, já não há espaço para mais nada.
Com a construção de um novo edifício, de 11 andares e 23 mil metros quadrados dentro do complexo, a capacidade do Arquivo subirá para 90 km de documentos em um único espaço. Com 23 km de documentos guardados - além dos 10 km armazenados na zona norte, há outros 13 km em depósitos na Mooca -, o Arquivo Público do Estado é o segundo maior do País, atrás apenas do Arquivo Nacional (que guarda 55 km lineares de documentos, divididos nos complexos do Rio e de Brasília).
No novo prédio do Arquivo paulista, haverá cinco andares com pé direito duplo, onde estarão armazenados processos que mostram todos os atos do Executivo na história do Estado. As obras, avaliadas em R$ 68 milhões, começaram no início do mês e devem ser finalizadas em dezembro de 2010.
A capacidade de atendimento com as reformas será quadruplicada - hoje, há espaço para 25 pessoas realizarem pesquisas simultaneamente; na nova área, até cem pesquisadores poderão trabalhar ao mesmo tempo, em espaços para pesquisas em grupo ou individuais. "O Arquivo é procurado hoje principalmente por pesquisadores de universidades, estudantes do ensino médio e por cidadãos interessados em obter cidadania de outros países, por exemplo, ou o histórico de alguma posse adquirida", explica o coordenador do Arquivo, Carlos Bacellar. "Será o primeiro prédio projetado especificamente para um arquivo de grande porte no País", diz.
Os ambientes do novo prédio do Arquivo serão climatizados, em temperatura média que variará entre 18°C e 20°C nos depósitos destinados a papel - hoje, não há ar condicionado no prédio e a climatização é feita somente com ventiladores. "No novo edifício, os depósitos serão construídos especialmente para o tipo de documento que se destinam a abrigar, com diferentes instalações para cartografia e iconografia", conta Bacellar.
Além disso, serão construídos novos laboratórios de preservação, restauração, microfilmagem e digitalização de documentos. "Já no próximo mês, vamos colocar na internet cerca de 29 mil páginas digitais de consulta para obtenção de cidadania. Mas, com novos laboratórios, documentos serão restaurados e digitalizados em volume muito maior", diz Bacellar.
No novo complexo, também haverá biblioteca para armazenar 45 mil volumes do acervo do Arquivo, auditório, espaço para exposições, livraria e café.
Entre o material procurado por pesquisadores para consulta no acervo do Arquivo Público do Estado estão as cerca de 1,1 milhão de fichas do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops), órgão destinado a controlar e reprimir movimentos contrários ao regime militar - e que fichou até o papa João Paulo II, quando ele esteve no Brasil em 1982 (está lá, sob o nome Segundo, João Paulo, conforme grafaram agentes do Dops). "Atrai pesquisadores e curiosos", conta Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo. "Cansei de ver gente vir até aqui para procurar sua própria ficha, para saber o que o regime apontava.
"Também há livros de registro que contam a história de todas as vilas da capitania de São Paulo entre 1765 e 1850, listadas domicílio a domicílio. "É um registro único no País.
"Numa tarde da semana passada, a aposentada Maria Lucia Ney, de 71 anos, esteve no Arquivo para "se informar sobre o mundo". "Gosto daqui, mas uma reforma cairá bem, para dar mais conforto a quem pesquisa e conservar melhor os documentos", conta. "Visitar o arquivo é uma boa maneira de mostrar aos jovens a importância de conhecer sua história. Dá até uma maior noção de cidadania e respeito ao que passou."
Periódicos do passado - incluindo toda a coleção fotográfica dos jornais Última Hora e Diários Associados, adquiridos em 2007 - também estão entre os itens procurados no Arquivo Público do Estado. As revistas e os jornais foram digitalizados e estão disponíveis na internet no site www.arquivoestado.sp.gov.br. Além disso, as fichas do Dops foram divididas em temas (por nome de sindicato, de entidade estudantil, de evento), digitalizadas e também estão na internet como parte do Projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional. Também estão disponíveis no site do órgão ou em www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br.
Para cidadãos interessados em conseguir cidadania estrangeira, em dezembro, o Arquivo vai colocar na internet cerca de 40 mil páginas de documentos dos núcleos coloniais do Estado, que ajudarão a comprovar a origem das famílias de imigrantes.
Arquivo Público do Estado de São Paulo - Rua Voluntários da Pátria, 596 (Estação Tietê do Metrô); de terça a sábado, das 9 às 17 horas;tel.: (11) 2221-4785;
www.arquivoestado.sp.gov.br
O fim do ''velho'' Largo da Batata
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473667,0.php
Com obras da Prefeitura e a valorização imobiliária, comerciantes que fizeram a história do bairro saem de cena
Por Rodrigo Brancatelli
São 15 horas e alguns poucos minutos de uma terça-feira nublada e a vida no Largo da Batata, que sempre andou um bocado apressada, parece marchar em câmera lenta. Ali no coração de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, o farmacêutico Leonardo Shima permanece impávido, atrás do balcão que existe desde 1955, esperando a clientela aparecer. Ele mantém o sorriso generoso no rosto, mesmo ao lembrar que uma megadrogaria abriu há poucas semanas na vizinhança - e parece que ela está cheia de gente comprando xampus, creme dental, barras de cereais, chicletes, suplementos alimentares e, pasmem, até remédios.
Seu Chico, um experiente marceneiro que já trabalhou até na França, também está sem muito serviço e mata o tempo vendo um filme do Stallone na televisão. Já Jesus Andrade, conhecido como Jesus Alfaiate, aproveita para consertar a inseparável máquina de costurar enquanto nenhuma "madame apressada" ou "empresário precisando fazer a barra da calça" aparece de repente pela porta. Ninguém surge pelos próximos 15 minutos, mas ele continua lá, esperançoso. Esse mesmo otimismo, no entanto, anda meio sumido da sorveteria Fiesta, há quase 30 anos vendendo o melhor sorvete de amora, milho-verde e de amendoim do Largo da Batata - apenas R$ 0,90 o picolé. As mesas de fórmica estão vazias, silenciosas, tristes. Parece até que a região está ficando um pouco menos doce.
As obras de revitalização e adequação do Largo da Batata, que devem transformar a área numa esplanada até o fim de 2010, ao custo de R$ 100 milhões, não estão mudando apenas as ruas do local. Estão também alterando a vida de personagens que fizeram a história do bairro, que ergueram do zero os negócios familiares há décadas, mas agora planejam ou até mesmo começam a deixar seus endereços por causa da valorização imobiliária. São sapateiros, marceneiros, vendedores de miudezas e alfaiates; comércios populares que não terão vez nesse "novo" e "rico" Largo da Batata.
"CAIU MUITO, NÉ?"
"O movimento caiu muito, né", diz Massao Miyashita, comerciante mais antigo do Largo da Batata, que começou vendendo artigos de armarinho, em 1949. Sua loja deve ganhar em breve uma placa de vende-se ou aluga-se. "Eu tentei continuar aqui porque gosto muito da área. Mas eu estou ficando velho, acho que está chegando a hora da aposentadoria."
Muitos moradores mais antigos e comerciantes já deixaram a região, e os que resistem parecem viver num misto de expectativa e receio. "Não é nada agradável ficar assim, sem saber como vai ser o futuro", diz Cleusa Polimeno, que cuida de uma tabacaria fundada pelo avô, em 1943. O largo que há tempos não tem mais batatas agora também está perdendo parte da personalidade: ao mesmo tempo em que a degradação desapareceu, estão sumindo a olhos vistos hábitos e práticas antigas. São profissões e ofícios que resistiram ao tempo, mas não à falta de clientes. "Simplesmente não sei fazer outra coisa a não ser consertar sapatos", resume Pedro Halgsik, de 75 anos, que trabalha há quase três décadas na região.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473686,0.php
Valor dos imóveis triplicou no Largo
Na Prefeitura, há pedidos de 37 novos prédios para a região
Pelas ruas do Largo da Batata já há até um clima de saudosismo no ar. Um sentimento difícil de explicar em um único parágrafo, mas que movimenta uma poderosa teia de memórias, medos, apreensões, receios e muitas, mas muitas dúvidas.
"Ainda estamos sem saber como vai ser no futuro, né, ainda mais se subirem os aluguéis. Como essa nova farmácia que abriu aqui do lado. O perfil do largo está mudando, mas não dá para imaginar se vai ser bom ou ruim se continuarmos aqui", diz Leonardo Shima, que cuida da farmácia inaugurada pelo sogro, Yoshitomi Assakaua, há 54 anos.
"Eu nasci aqui no Largo da Batata e continuo aqui", completa o engenheiro Domingos Barone, cliente cativo de seu Shima. "Lembro até de vir aqui na farmácia para tomar injeção. Injeção mesmo, daquelas de vidro. Mas hoje estou quase vendendo a minha casa. Começaram oferecendo R$ 2 mil o metro quadrado, mas já me ligaram tentando comprar por R$ 4 mil, e alguns lugares já subiram para R$ 6 mil."
"Já fecharam várias lojinhas, o Bazar 13, o Albano, a Casa das Miudezas, a tabacaria", continua Leonardo Shima. "Acho que é inevitável o que vai acontecer..."
Acreditando no ganho potencial da área - que, reformada e com uma nova estação do Metrô, estará mais integrada com o restante da cidade -, construtoras estão em busca de terrenos para incorporação e os primeiros empreendimentos começam a aparecer. Esse boom imobiliário atinge um perímetro de cerca de 4 quilômetros quadrados, delimitado pela Marginal do Pinheiros, pelas Ruas Frederico Herman Júnior, Purpurina, Aspicuelta, Cristiano Viana e pela Alameda Gabriel Monteiro da Silva - na Prefeitura, há o pedido de 37 novos prédios para a região.
"Ofertas? Nossa, teve uma semana em que todo dia alguém ligava querendo comprar meu terreno", conta Regina Almeida, médica de 42 anos que mora num charmoso sobrado que pertenceu ao avô. "O problema é que compraram todas as casas vizinhas, não tenho o que fazer. É uma venda à força, sabe." Segundo dados da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), o valor do imóvel nessa área triplicou nos últimos cinco anos e deve continuar em escalada.
A exemplo do que já ocorreu em bairros como a Vila Olímpia, Pompeia, Perdizes e Tatuapé, só para ficar nos casos mais recentes, chegam as máquinas, os incorporadores, os prédios de alto padrão, as lojas de luxo, os estacionamentos caríssimos. Tudo isso obviamente causa um grande impacto na vida dos moradores mais tradicionais do bairro. "Meu amigo, a gente não tem mais espaço aqui, não", diz Luiz Quaresma Neto, de 52 anos, que mora no bairro e tem uma lanchonete no largo. "Estamos à venda. Não vai dar mais para pagar o aluguel aqui, e o meu público já está desaparecendo. Minha família está neste mesmo endereço há pelo menos três décadas, quando aqui era um reduto japonês. Meu avô contava que o largo cheirava a shoyu e missoshiru. Já meu pai viu isso aqui florescer, viu todo o movimento que chegou com os ônibus, com a imigração nordestina. Agora, eu vejo essa história sumir. Sempre fico pensando o que contarei para o meu filho, se vai ser um final feliz ou triste."
PREJUÍZO
Para o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), a obra no Largo da Batata pode melhorar o trânsito e a fluidez, mas vai invariavelmente render prejuízo à identidade do Município. "Isso já aconteceu em diversos bairros, e ainda vai acontecer com outros", diz."A unidade da vizinhança fica extremamente prejudicada, e valores são sacrificados em nome do crescimento de São Paulo. Mesmo com a degradação posterior, a riqueza da história de Pinheiros é única. Em Santana, por exemplo, foi a mesma coisa, a ocupação jesuíta foi esquecida e os endereços históricos foram destruídos. Quando capítulos como esses somem assim, há um empobrecimento histórico da nossa cidade."
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Com obras da Prefeitura e a valorização imobiliária, comerciantes que fizeram a história do bairro saem de cena
Por Rodrigo Brancatelli
São 15 horas e alguns poucos minutos de uma terça-feira nublada e a vida no Largo da Batata, que sempre andou um bocado apressada, parece marchar em câmera lenta. Ali no coração de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, o farmacêutico Leonardo Shima permanece impávido, atrás do balcão que existe desde 1955, esperando a clientela aparecer. Ele mantém o sorriso generoso no rosto, mesmo ao lembrar que uma megadrogaria abriu há poucas semanas na vizinhança - e parece que ela está cheia de gente comprando xampus, creme dental, barras de cereais, chicletes, suplementos alimentares e, pasmem, até remédios.
Seu Chico, um experiente marceneiro que já trabalhou até na França, também está sem muito serviço e mata o tempo vendo um filme do Stallone na televisão. Já Jesus Andrade, conhecido como Jesus Alfaiate, aproveita para consertar a inseparável máquina de costurar enquanto nenhuma "madame apressada" ou "empresário precisando fazer a barra da calça" aparece de repente pela porta. Ninguém surge pelos próximos 15 minutos, mas ele continua lá, esperançoso. Esse mesmo otimismo, no entanto, anda meio sumido da sorveteria Fiesta, há quase 30 anos vendendo o melhor sorvete de amora, milho-verde e de amendoim do Largo da Batata - apenas R$ 0,90 o picolé. As mesas de fórmica estão vazias, silenciosas, tristes. Parece até que a região está ficando um pouco menos doce.
As obras de revitalização e adequação do Largo da Batata, que devem transformar a área numa esplanada até o fim de 2010, ao custo de R$ 100 milhões, não estão mudando apenas as ruas do local. Estão também alterando a vida de personagens que fizeram a história do bairro, que ergueram do zero os negócios familiares há décadas, mas agora planejam ou até mesmo começam a deixar seus endereços por causa da valorização imobiliária. São sapateiros, marceneiros, vendedores de miudezas e alfaiates; comércios populares que não terão vez nesse "novo" e "rico" Largo da Batata.
"CAIU MUITO, NÉ?"
"O movimento caiu muito, né", diz Massao Miyashita, comerciante mais antigo do Largo da Batata, que começou vendendo artigos de armarinho, em 1949. Sua loja deve ganhar em breve uma placa de vende-se ou aluga-se. "Eu tentei continuar aqui porque gosto muito da área. Mas eu estou ficando velho, acho que está chegando a hora da aposentadoria."
Muitos moradores mais antigos e comerciantes já deixaram a região, e os que resistem parecem viver num misto de expectativa e receio. "Não é nada agradável ficar assim, sem saber como vai ser o futuro", diz Cleusa Polimeno, que cuida de uma tabacaria fundada pelo avô, em 1943. O largo que há tempos não tem mais batatas agora também está perdendo parte da personalidade: ao mesmo tempo em que a degradação desapareceu, estão sumindo a olhos vistos hábitos e práticas antigas. São profissões e ofícios que resistiram ao tempo, mas não à falta de clientes. "Simplesmente não sei fazer outra coisa a não ser consertar sapatos", resume Pedro Halgsik, de 75 anos, que trabalha há quase três décadas na região.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473686,0.php
Valor dos imóveis triplicou no Largo
Na Prefeitura, há pedidos de 37 novos prédios para a região
Pelas ruas do Largo da Batata já há até um clima de saudosismo no ar. Um sentimento difícil de explicar em um único parágrafo, mas que movimenta uma poderosa teia de memórias, medos, apreensões, receios e muitas, mas muitas dúvidas.
"Ainda estamos sem saber como vai ser no futuro, né, ainda mais se subirem os aluguéis. Como essa nova farmácia que abriu aqui do lado. O perfil do largo está mudando, mas não dá para imaginar se vai ser bom ou ruim se continuarmos aqui", diz Leonardo Shima, que cuida da farmácia inaugurada pelo sogro, Yoshitomi Assakaua, há 54 anos.
"Eu nasci aqui no Largo da Batata e continuo aqui", completa o engenheiro Domingos Barone, cliente cativo de seu Shima. "Lembro até de vir aqui na farmácia para tomar injeção. Injeção mesmo, daquelas de vidro. Mas hoje estou quase vendendo a minha casa. Começaram oferecendo R$ 2 mil o metro quadrado, mas já me ligaram tentando comprar por R$ 4 mil, e alguns lugares já subiram para R$ 6 mil."
"Já fecharam várias lojinhas, o Bazar 13, o Albano, a Casa das Miudezas, a tabacaria", continua Leonardo Shima. "Acho que é inevitável o que vai acontecer..."
Acreditando no ganho potencial da área - que, reformada e com uma nova estação do Metrô, estará mais integrada com o restante da cidade -, construtoras estão em busca de terrenos para incorporação e os primeiros empreendimentos começam a aparecer. Esse boom imobiliário atinge um perímetro de cerca de 4 quilômetros quadrados, delimitado pela Marginal do Pinheiros, pelas Ruas Frederico Herman Júnior, Purpurina, Aspicuelta, Cristiano Viana e pela Alameda Gabriel Monteiro da Silva - na Prefeitura, há o pedido de 37 novos prédios para a região.
"Ofertas? Nossa, teve uma semana em que todo dia alguém ligava querendo comprar meu terreno", conta Regina Almeida, médica de 42 anos que mora num charmoso sobrado que pertenceu ao avô. "O problema é que compraram todas as casas vizinhas, não tenho o que fazer. É uma venda à força, sabe." Segundo dados da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), o valor do imóvel nessa área triplicou nos últimos cinco anos e deve continuar em escalada.
A exemplo do que já ocorreu em bairros como a Vila Olímpia, Pompeia, Perdizes e Tatuapé, só para ficar nos casos mais recentes, chegam as máquinas, os incorporadores, os prédios de alto padrão, as lojas de luxo, os estacionamentos caríssimos. Tudo isso obviamente causa um grande impacto na vida dos moradores mais tradicionais do bairro. "Meu amigo, a gente não tem mais espaço aqui, não", diz Luiz Quaresma Neto, de 52 anos, que mora no bairro e tem uma lanchonete no largo. "Estamos à venda. Não vai dar mais para pagar o aluguel aqui, e o meu público já está desaparecendo. Minha família está neste mesmo endereço há pelo menos três décadas, quando aqui era um reduto japonês. Meu avô contava que o largo cheirava a shoyu e missoshiru. Já meu pai viu isso aqui florescer, viu todo o movimento que chegou com os ônibus, com a imigração nordestina. Agora, eu vejo essa história sumir. Sempre fico pensando o que contarei para o meu filho, se vai ser um final feliz ou triste."
PREJUÍZO
Para o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), a obra no Largo da Batata pode melhorar o trânsito e a fluidez, mas vai invariavelmente render prejuízo à identidade do Município. "Isso já aconteceu em diversos bairros, e ainda vai acontecer com outros", diz."A unidade da vizinhança fica extremamente prejudicada, e valores são sacrificados em nome do crescimento de São Paulo. Mesmo com a degradação posterior, a riqueza da história de Pinheiros é única. Em Santana, por exemplo, foi a mesma coisa, a ocupação jesuíta foi esquecida e os endereços históricos foram destruídos. Quando capítulos como esses somem assim, há um empobrecimento histórico da nossa cidade."
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