http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473667,0.php
Com obras da Prefeitura e a valorização imobiliária, comerciantes que fizeram a história do bairro saem de cena
Por Rodrigo Brancatelli
São 15 horas e alguns poucos minutos de uma terça-feira nublada e a vida no Largo da Batata, que sempre andou um bocado apressada, parece marchar em câmera lenta. Ali no coração de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, o farmacêutico Leonardo Shima permanece impávido, atrás do balcão que existe desde 1955, esperando a clientela aparecer. Ele mantém o sorriso generoso no rosto, mesmo ao lembrar que uma megadrogaria abriu há poucas semanas na vizinhança - e parece que ela está cheia de gente comprando xampus, creme dental, barras de cereais, chicletes, suplementos alimentares e, pasmem, até remédios.
Seu Chico, um experiente marceneiro que já trabalhou até na França, também está sem muito serviço e mata o tempo vendo um filme do Stallone na televisão. Já Jesus Andrade, conhecido como Jesus Alfaiate, aproveita para consertar a inseparável máquina de costurar enquanto nenhuma "madame apressada" ou "empresário precisando fazer a barra da calça" aparece de repente pela porta. Ninguém surge pelos próximos 15 minutos, mas ele continua lá, esperançoso. Esse mesmo otimismo, no entanto, anda meio sumido da sorveteria Fiesta, há quase 30 anos vendendo o melhor sorvete de amora, milho-verde e de amendoim do Largo da Batata - apenas R$ 0,90 o picolé. As mesas de fórmica estão vazias, silenciosas, tristes. Parece até que a região está ficando um pouco menos doce.
As obras de revitalização e adequação do Largo da Batata, que devem transformar a área numa esplanada até o fim de 2010, ao custo de R$ 100 milhões, não estão mudando apenas as ruas do local. Estão também alterando a vida de personagens que fizeram a história do bairro, que ergueram do zero os negócios familiares há décadas, mas agora planejam ou até mesmo começam a deixar seus endereços por causa da valorização imobiliária. São sapateiros, marceneiros, vendedores de miudezas e alfaiates; comércios populares que não terão vez nesse "novo" e "rico" Largo da Batata.
"CAIU MUITO, NÉ?"
"O movimento caiu muito, né", diz Massao Miyashita, comerciante mais antigo do Largo da Batata, que começou vendendo artigos de armarinho, em 1949. Sua loja deve ganhar em breve uma placa de vende-se ou aluga-se. "Eu tentei continuar aqui porque gosto muito da área. Mas eu estou ficando velho, acho que está chegando a hora da aposentadoria."
Muitos moradores mais antigos e comerciantes já deixaram a região, e os que resistem parecem viver num misto de expectativa e receio. "Não é nada agradável ficar assim, sem saber como vai ser o futuro", diz Cleusa Polimeno, que cuida de uma tabacaria fundada pelo avô, em 1943. O largo que há tempos não tem mais batatas agora também está perdendo parte da personalidade: ao mesmo tempo em que a degradação desapareceu, estão sumindo a olhos vistos hábitos e práticas antigas. São profissões e ofícios que resistiram ao tempo, mas não à falta de clientes. "Simplesmente não sei fazer outra coisa a não ser consertar sapatos", resume Pedro Halgsik, de 75 anos, que trabalha há quase três décadas na região.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473686,0.php
Valor dos imóveis triplicou no Largo
Na Prefeitura, há pedidos de 37 novos prédios para a região
Pelas ruas do Largo da Batata já há até um clima de saudosismo no ar. Um sentimento difícil de explicar em um único parágrafo, mas que movimenta uma poderosa teia de memórias, medos, apreensões, receios e muitas, mas muitas dúvidas.
"Ainda estamos sem saber como vai ser no futuro, né, ainda mais se subirem os aluguéis. Como essa nova farmácia que abriu aqui do lado. O perfil do largo está mudando, mas não dá para imaginar se vai ser bom ou ruim se continuarmos aqui", diz Leonardo Shima, que cuida da farmácia inaugurada pelo sogro, Yoshitomi Assakaua, há 54 anos.
"Eu nasci aqui no Largo da Batata e continuo aqui", completa o engenheiro Domingos Barone, cliente cativo de seu Shima. "Lembro até de vir aqui na farmácia para tomar injeção. Injeção mesmo, daquelas de vidro. Mas hoje estou quase vendendo a minha casa. Começaram oferecendo R$ 2 mil o metro quadrado, mas já me ligaram tentando comprar por R$ 4 mil, e alguns lugares já subiram para R$ 6 mil."
"Já fecharam várias lojinhas, o Bazar 13, o Albano, a Casa das Miudezas, a tabacaria", continua Leonardo Shima. "Acho que é inevitável o que vai acontecer..."
Acreditando no ganho potencial da área - que, reformada e com uma nova estação do Metrô, estará mais integrada com o restante da cidade -, construtoras estão em busca de terrenos para incorporação e os primeiros empreendimentos começam a aparecer. Esse boom imobiliário atinge um perímetro de cerca de 4 quilômetros quadrados, delimitado pela Marginal do Pinheiros, pelas Ruas Frederico Herman Júnior, Purpurina, Aspicuelta, Cristiano Viana e pela Alameda Gabriel Monteiro da Silva - na Prefeitura, há o pedido de 37 novos prédios para a região.
"Ofertas? Nossa, teve uma semana em que todo dia alguém ligava querendo comprar meu terreno", conta Regina Almeida, médica de 42 anos que mora num charmoso sobrado que pertenceu ao avô. "O problema é que compraram todas as casas vizinhas, não tenho o que fazer. É uma venda à força, sabe." Segundo dados da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), o valor do imóvel nessa área triplicou nos últimos cinco anos e deve continuar em escalada.
A exemplo do que já ocorreu em bairros como a Vila Olímpia, Pompeia, Perdizes e Tatuapé, só para ficar nos casos mais recentes, chegam as máquinas, os incorporadores, os prédios de alto padrão, as lojas de luxo, os estacionamentos caríssimos. Tudo isso obviamente causa um grande impacto na vida dos moradores mais tradicionais do bairro. "Meu amigo, a gente não tem mais espaço aqui, não", diz Luiz Quaresma Neto, de 52 anos, que mora no bairro e tem uma lanchonete no largo. "Estamos à venda. Não vai dar mais para pagar o aluguel aqui, e o meu público já está desaparecendo. Minha família está neste mesmo endereço há pelo menos três décadas, quando aqui era um reduto japonês. Meu avô contava que o largo cheirava a shoyu e missoshiru. Já meu pai viu isso aqui florescer, viu todo o movimento que chegou com os ônibus, com a imigração nordestina. Agora, eu vejo essa história sumir. Sempre fico pensando o que contarei para o meu filho, se vai ser um final feliz ou triste."
PREJUÍZO
Para o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), a obra no Largo da Batata pode melhorar o trânsito e a fluidez, mas vai invariavelmente render prejuízo à identidade do Município. "Isso já aconteceu em diversos bairros, e ainda vai acontecer com outros", diz."A unidade da vizinhança fica extremamente prejudicada, e valores são sacrificados em nome do crescimento de São Paulo. Mesmo com a degradação posterior, a riqueza da história de Pinheiros é única. Em Santana, por exemplo, foi a mesma coisa, a ocupação jesuíta foi esquecida e os endereços históricos foram destruídos. Quando capítulos como esses somem assim, há um empobrecimento histórico da nossa cidade."
var keywords = "";
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário