quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Castelinho ganha novo plano para restauro

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,castelinho-ganha-novo-plano-para--restauro-,795440,0.htm

OESP Caderno Metrópole C8 07/11/2011

Por Nataly Costa

Com fama de mal-assombrada, construção da Rua Apa foi erguida há quase cem anos

Marcio Fernandes / AE

O castelinho da Rua Apa, na esquina com a Avenida São João, ganhou um projeto de restauro que vai manter a estrutura do simbólico prédio construído em 1912 pela família Reis - e que anos depois seria palco de um crime protagonizado pela mesma família. O projeto do arquiteto Paulo Bastos precisou de duas autorizações do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio de São Paulo (Conpresp), órgão pelo qual o imóvel é tombado: a primeira para reformar o castelinho em si e a segunda, recém-conquistada, para restaurar também a edícula ao lado.

Desde janeiro, a reforma do castelinho estava emperrada por causa dessa edícula, que não é protegida pelo patrimônio e está na "área de tombamento" do castelinho. O projeto previa transformá-la em um prédio baixo, de cinco andares, separado do famoso vizinho da Rua Apa por um jardim. O problema é que o Conpresp não permitia um prédio de cinco andares ali.

Depois de muitas reuniões e conversas, o conselho entendeu que a reforma da edícula valorizaria a arquitetura do peculiar imóvel ao lado e decidiu mudar o dispositivo de tombamento.

Agora, com o imbróglio patrimonial resolvido, falta o dinheiro. A ONG Clube de Mães do Brasil - cuja sede funciona na edícula - e o arquiteto Paulo Bastos estimam a necessidade de R$ 5 milhões para bancar o projeto, recurso que pretendem captar inscrevendo-o na Lei Rouanet. "Já há muitas entidades querendo ajudar, fazer sair do papel. Vamos conseguir", diz Bastos.

A ideia é que o castelinho seja um centro de qualificação e atendimento à população voltado para o público-alvo do trabalho da ONG, que ajuda moradores de rua e dependentes químicos.

Assim que a quantia for captada, Paulo Bastos estima que o restauro da fachada dure cerca de um ano. Depois, vem a parte mais complicada, que é o interior. "Estamos fazendo um levantamento histórico para saber como era a casa naquela época, o piso, as paredes. Parece mórbido, mas na pesquisa levantamos até fichas policiais do crime."

Mal-assombrado. O crime a que Paulo se refere é o que tornou o castelinho uma lenda na cidade: em 21 de maio de 1937, dentro do imóvel, Álvaro César Guimarães Reis matou a mãe, Maria Cândida, e o irmão, Armando, e depois se suicidou.

Sem herdeiros, o terreno passou a ser propriedade da União e ficou abandonado durante anos, servindo de abrigo para "noias" da região. Com a lenda, ganhou fama de casa mal-assombrada.

A reforma também deve se basear em fotos de arquivo de jornais - principalmente de colunas sociais, onde as festas do palacete da família Reis costumavam aparecer com frequência.

"A ideia é deixar o mais fiel possível ao que era, com eventuais intervenções se não acharmos o mesmo tipo de piso ou materiais usados na época", conta Bastos.

Um "alívio" durante a elaboração do projeto é que, mesmo deteriorado e hoje com o Minhocão como vizinho, o castelinho não precisou ser demolido.

"Teremos que eliminar intervenções precárias de sustentação, pilares tortos, esse tipo de coisa. Mas no geral o prédio ainda tem boa estabilidade, paredes resistentes. Mesmo a chuva, que entrava pela cúpula e deixou muita coisa enferrujada, não acabou com a construção."

domingo, 6 de novembro de 2011

Casarão histórico é demolido em uma noite na Paulista

OESP METRÓPOLE 04/11/11

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,casarao-historico-e-demolido-em-uma-noite-na-paulista-,794375,0.htm

Por Rodrigo Brancatelli

"Agora, só restam cinco prédios da era dos barões do café na via; moradores e entidades de preservação do patrimônio reclamam"

Na virada de segunda para terça-feira, um casarão dos anos 1920, branco e de dois andares no número 91 da Avenida Paulista, foi demolido sem chamar a atenção. A rapidez da demolição foi consequência da pressão de moradores e entidades de preservação do patrimônio, que tentavam evitar a destruição. Não deu tempo. Agora, há apenas cinco mansões históricas em pé na via.



No último sábado, houve até um protesto contra a especulação imobiliária na frente do endereço, uma tentativa de forçar uma resposta imediata da Prefeitura. O local deverá agora servir de entrada para mais uma torre comercial - de 10 andares e 40 salas comerciais. "Sua empresa no principal centro financeiro do Brasil", diz o anúncio da empresa, que já tem estande de vendas na região.

"Fizeram tudo isso na calada da noite para ninguém ver, é um absurdo que nos deixa estarrecidos", diz Jorge Eduardo Rubies, presidente da ONG Preserva São Paulo. Em agosto, a entidade entrou com pedido de abertura de processo de tombamento do casarão, conhecido como residência Dina Brandi Bianchi, no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp). Até agora, o pedido não havia sido votado - ou seja, não havia restrições para a construtora demolir o imóvel. Caso o Conpresp tivesse aberto o processo, o local ficaria congelado até uma decisão em relação à importância do casarão.

Mãos atadas. "Isso mostra a inércia do Conpresp. Não se mexeram", diz Rubies. Nas últimas três décadas, a Avenida Paulista perdeu pelo menos 30 casarões, símbolos da alta burguesia cafeeira, quando a via ainda era bucólica, cruzada por bondes camarões da Light.

"As construtoras também não se importam com o patrimônio. Tem uma área livre na esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima: demoliram um casarão há 30 anos e até hoje não tem nada, tem um estacionamento. Por que não fazem um prédio lá, em vez de destruir mais um imóvel? Nós, que tentamos preservar o patrimônio, ficamos sempre de mãos atadas."

O Conpresp afirmou que foi procurado pela construtora, mas que não há impedimento para qualquer obra, pois o local "não é tombado nem está em área envoltória de bem tombado". Por meio de nota, a Even, responsável pela construção, afirmou que "tinha todas as autorizações necessárias".

Mosteiro de São Bento, em Sorocaba, festeja 350 anos em 23/04/2010



José Maria Tomazela, SOROCABA - O Estado de S.Paulo

O monge d. José Carlos Camorin Gatti, de 78 anos, é o guardião solitário de uma relíquia. Ele administra o Mosteiro de São Bento, em Sorocaba, que ontem completou 350 anos. O trabalho de restauração do edifício custará R$ 4 milhões. A obra, iniciada em 2003, revelou que grande parte da estrutura é original.

As paredes de taipa da Igreja de Sant"Anna, a primeira construção do mosteiro, são as mesmas erguidas com barro socado pelos escravos do bandeirante Baltazar Fernandes, seis anos antes da doação feita aos beneditinos, em abril de 1660. A clausura e outras instalações têm alguns anos a menos: foram construídas de taipa de pilão e de torrão, em 1667. "É tudo daquela época. O que havia de tijolo, era na verdade a taipa encamisada, protegida pelo material cerâmico", explica o monge.

O Mosteiro de Sorocaba é o único da congregação beneditina no Brasil que mantém a originalidade. "Outros mais antigos, como o de Salvador, Olinda (PE), e mesmo os de São Paulo e Rio, já não possuem os prédios originais", afirma o pesquisador Luiz Almeida Marins Filho.
O prédio atual de São Paulo é do século 20. O mosteiro de Olinda foi destruído por um incêndio durante a invasão holandesa em 1632 e a reconstrução levou décadas. "(O Mosteiro de Sorocaba) é um dos únicos no mundo que tem mais de três séculos com a presença ininterrupta dos monges", destaca Martins Filho. O mosteiro guarda preciosidades como o altar-mor esculpido com madeira, com lâminas de ouro aplicadas no retábulo, trazido de Portugal no século 18.

Homenagens.

Os Correios lançaram um selo dos 350 anos, reproduzindo quadro da artista Sonia Vubleski. E a Casa da Moeda lançou medalhas de bronze (R$250), prata (R$400) e ouro (R$20 mil), à venda no local.

Serviço
O MOSTEIRO FICA ABERTO À VISITAÇÃO DE SEGUNDA A SEXTA, DAS 6H30 ÀS 11 E DAS 13H30 ÀS 17 HORAS; AOS SÁBADOS, DAS 6H30 ÀS 11 H E DAS 17 ÀS 20 HORAS; E AOS DOMINGOS, DAS 8 ÀS 11 H. A MISSA É CELEBRADA NA HORA QUE ANTECEDE O FECHAMENTO

Na internet, a história dos imóveis derrubados

Rodrigo Brancatelli e Rodrigo Burgarelli - O Estado de S.Paulo


OESP Cidades C3 24/10/10


Casas e palacetes são fotografados antes de serem destruídos e publicados em blogs



Em São Paulo há aficionados por praticamente tudo - selos, notas, moedas, trens e composições do Metrô e até pelas 13 linhas de trólebus que ainda funcionam. Com o patrimônio da cidade não poderia ser diferente. Mesmo com todas as demolições, São Paulo ainda conserva belos sobrados, casarões e palacetes - e não falta quem gaste seu tempo livre para registrá-los enquanto ainda estão de pé.


O resultado desse trabalho voluntário pode ser encontrado nos sites e blogs sobre o patrimônio arquitetônico de São Paulo. No São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br), por exemplo, criado em janeiro de 2009, são quase mil visitas diárias, de pessoas interessadas em conhecer a história dos 300 imóveis imortalizados nas fotos tiradas por colaboradores ou enviadas pelos próprios visitantes.

O fotógrafo Douglas Nascimento, um dos criadores do site, diz que gasta três horas diárias com o hobby - que já virou até ganha-pão. "Várias revistas me convidam para fazer fotos e reportagens sobre patrimônio, e isso começou depois do site."

O Piratininga.org é outra página conhecida sobre o patrimônio paulistano na internet. Ela foi criada pelo atual presidente da Associação Preserva São Paulo, Jorge Eduardo Rubies, um advogado que passa noites e fins de semana fotografando e escrevendo sobre a história da cidade. Desde 2005, ele mantém um fórum virtual para discutir temas ligados a urbanismo e ao patrimônio da capital - hoje, mais de 400 inscritos postam mensagens diariamente.

"Patrimônio histórico significa beleza da cidade e é sinônimo de qualidade de vida. É por isso que lutamos tanto", diz. "Tenho certeza de que nunca houve uma onda de demolições tão grande quanto a que ocorre hoje nas ruas de São Paulo."

O pesquisador Ralph Giesbrecht também pensa dessa maneira. Ele é criador do maior site sobre patrimônio ferroviário do País (www.estacoesferroviarias.com.br) e está organizando um novo portal só sobre as ruas paulistanas junto com Douglas, do São Paulo Antiga. "É um absurdo toda vez que uma casa é demolida. Acho prédio muito feio, não sei como alguém pode querer colocar uma coisa dessas no lugar de casarões tão bonitos", diz ele, que tem um acervo com mais de 100 mil imagens antigas, colecionadas há mais de 40 anos.

Douglas e Ralph cederam as fotos publicadas acima, que mostram as mudanças na tradicional Rua Domingos de Morais, na Vila Mariana, zona sul da capital - um dos locais que melhor exemplificam a mudança pela qual a cidade passou em 50 anos. 


Obs. de Hélio Bertolucci Jr: Apesar de não ter sido citado na matéria mesmo sendo entrevistado, tem meu trabalho que com certeza não faz feio a história e preservação das memórias arquitetônicas da cidade. Chega de Demolir S!P, já que o próprio Estadão publicou hoje materia sobre os milhares que imóveis que são demolidos diariamente.

Todo poderoso - De salão de hotel a espaço cultural

OESP 04/04/2011 Cidades C6

Por Edison Veiga

Ali na Praça Ramos de Azevedo, pertinho do Teatro Municipal, funcionava o Esplanada, inaugurado em 1923 como o mais elegante hotel de São Paulo. Desde os anos 1960, o prédio abriga a sede da empresa Votorantim. Há quatro anos, os arquitetos do escritório Metro foram lá chamados para projetar uma área de exposições.

"Vimos um salão no térreo, provavelmente uma área de serviço do antigo hotel, que era usada como setor de arquivo morto pela Votorantim", conta o arquiteto Martin Corullon, um dos responsáveis pela obra. "Era uma área incrível (de cerca de 600 metros quadrados) e fizemos uma intervenção forte."

Em 2008, era aberto o Espaço Votorantim, que consumiu investimentos de R$ 1,5 milhão e conta, por meio de documentos textuais, fotos, vídeos e livros, um pouco da história industrial do Brasil. Com agendamento prévio, é possível visitar o endereço gratuitamente. Os telefones são(11) 2159-3297 ou (11) 3224-7070 e o e-mail é
contato@memoriavotorantim.com.br. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 10 horas às 16h30.

Qual foi a primeira rua asfaltada de São Paulo?

OESP 04/04/2011 Cidades C6


Por Edison Veiga



A Avenida Paulista. Com material importado da Alemanha, a via recebeu asfalto em 1909 - quando ainda não tinha a vocação empresarial de hoje, mas abrigava dezenas de casarões dos barões do café.

E quando ela foi inaugurada? Há quase 120 anos, em dezembro de 1891, idealizada pelo engenheiro Joaquim Eugênio de Lima (1845-1902). Na época, cogitou-se homenageá-lo, batizando a via com seu nome. Mas ele não quis a honraria, dizendo que teria de ser "Avenida Paulista em homenagem aos paulistas". Outros nomes aventados foram Avenida das Acácias e Prado de São Paulo.

Os guardiões de um patrimônio em ruínas

Por Vitor Hugo Brandalise

OESP METRÓPOLE C10 30/09/2011

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-guardioes-de-um-patrimonio-em-ruinas,779342,0.htm

"Prédios tombados de São Paulo, de notável importância histórica, só não estão no chão porque alguém toma conta enquanto os donos não decidem o futuro desses edifícios"


Vila operária em Perus (Filipe Araújo / AE)

A Fábrica de Cimentos Portland, de onde saiu o concreto que construiu Brasília, no fim dos anos 1950, está em ruínas, escondida no extremo norte da capital paulista. O antigo Santapaula Iate Clube, luxuoso projeto do arquiteto João Batista Vilanova Artigas à beira da Represa do Guarapiranga, também luta para ficar de pé. Na Mooca, zona leste, um dos prédios mais representativos do antigo polo têxtil do bairro, com maquinário desativado há décadas, está abandonado. São edifícios tombados, de notável importância histórica, que foram deixados de lado com o tempo e só não estão no chão hoje porque há alguém que tome conta.

Enquanto os proprietários não decidem o futuro dos prédios, zeladores fazem as vezes de cuidadores desse patrimônio. A Expedição Metrópole visitou algumas das ruínas urbanas da capital.

São prédios históricos abandonados, que retratam diferentes fases da história da cidade, hoje transformados em residências de poucos - e, de certa forma, privilegiados - moradores.

Vila Triângulo. Em Perus, na zona norte, a vila operária da Fábrica de Cimentos Portland vive seus últimos dias. O vilarejo - que já serviu de abrigo a 70 famílias de operários da primeira fábrica de cimento do País, inaugurada em 1926 - foi invadido, inicialmente, por usuários de drogas e agora passa por um processo de desocupação comandado pelos atuais proprietários, o Grupo J.J.Abdalla. A antiga capela de São José, que dá aparência ainda mais idílica ao arborizado local de ruas de terra, não celebra missas desde a década de 1990.

Apenas três famílias vivem atualmente nas casas - todos familiares de antigos funcionários. "A vila era o parque de diversões de Perus. Tinha festa no Clube Caramanchão, aqui dentro mesmo, e pesca nesse córrego aí", aponta o eletricista José Pedroso, de 63 anos, morador de umas das três casas que ainda mantêm portas e janelas originais da antiga vila operária.

Pedroso trabalhava na manutenção da fábrica, um complexo de moinhos de cimento, depósitos de minerais e unidades de ensacamento - ainda está tudo ali, mas em péssimas condições. "Havia filas de caminhões do Brasil inteiro, que passavam dois dias para buscar cimento aqui", conta o eletricista.

Alda Giovanini, de 73 anos, nasceu na vila operária - batizada Vila Triângulo, por causa da forma em que se dispõem as casas. "Chegava a noite e todo mundo vinha para a varanda, para conversar sobre amenidades e também sobre política", diz Alda, filha e irmã de funcionários. A família dela participou ativamente da greve de dez anos na fábrica, mais longa paralisação da história do País. "Uma pena que esteja assim, abandonado. O que aconteceu aqui foi importante para o Brasil em diversos momentos. Parece que ninguém mais lembra."

A Fábrica de Cimentos Portland - de onde também saiu o cimento que concretou o Vale do Anhangabaú - é tombada por órgãos de patrimônio do Estado e do Município desde 1992. Os donos querem construir um condomínio, mas ainda não há projeto - em casos assim, a Prefeitura costuma exigir preservação ao menos parcial das ruínas.

"Algo tem de ficar de pé, como testemunho. Vem gente querendo filmar, estudantes de arquitetura querendo aprender. Não pode simplesmente derrubar", disse Raimundo de Souza, de 67 anos, que toma conta do que restou da antiga fábrica.

Luxo e casarões. A estrutura do Santapaula Iate Clube, na beira da Represa do Guarapiranga, na zona sul, é de dar inveja a clubes de luxo. O conjunto de dois prédios unidos por túnel por baixo da Avenida Atlântica (antiga Robert Kennedy) tem piscina de 1,2 mil metros quadrados, três salões de festas, duas saunas completas (com antigas mangueiras de alta pressão para jatos d'água quente), salões de TV, churrasqueira e seis pistas de boliche. Também abriga a célebre garagem de barcos de Artigas, com vão livre e construída em concreto aparente. Há mais de 20 anos, o complexo serve como depósito e tem sinais de abandono.

Quem toma conta é Sebastião Profeta dos Santos, de 43 anos, que sempre trabalhou ali. "Entrei aos 17 anos, levantando pinos do boliche, e nunca tive outro emprego. Os maiores bailes de carnaval eram aqui, vinha gente da cidade toda", diz Sebastião, que vive com a mulher e três filhos em uma casa improvisada no antigo escritório da presidência do iate clube. "Quando faço vistoria, fico lembrando do pessoal na piscina, das festas chiques, dos barcos na represa. Dá saudade."

No ano passado, foi apresentado projeto que preserva o complexo e o transforma em hotel, mas o proprietário ainda busca recursos para a obra.

Na Rua Gabriel dos Santos, em Santa Cecília, região central da capital, há oito casarões tombados, a maioria construída na primeira metade do século 20 pelos endinheirados barões do café. Duas das mansões de época, vizinhas na altura do número 800 da via, estão abandonadas há pelo menos dez anos. "Dá trabalho porque a casa é cheia de detalhes", afirma o zelador de um dos prédios, Osmar de Brito, de 39 anos. "Uma das tarefas é limpar os vitrais e os ornamentos de ferro. A outra é tapar as goteiras. Dá medo de que um dia isso tudo caia." Os proprietários dizem não ter condições de restaurar o casarão cuidado por Brito, erguido nos anos 1920.

Outra região da cidade pródiga em construções abandonadas é a Mooca, bairro símbolo da primeira industrialização de São Paulo. Construída na década de 1910, a Fábrica de Tecidos Labor é exemplo da degradação que toma conta dos antigos galpões industriais de arquitetura inglesa.

"O casarão principal, com seus vitrais e o chão todo trabalhado em madeira, mostra a importância que os antigos proprietários das fábricas davam às sedes administrativas da empresa. Isso tem de ser restaurado", diz Douglas Nascimento, que se dedica a fotografar construções abandonadas em São Paulo. "A cidade está cheia dessas 'ruínas'. Mostra a falta de importância que a sociedade, seja proprietário ou poder público, dedica ao patrimônio histórico."

O improviso resume a história da cidade

OESP METRÓPOLE C8 23/10/2011
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-improviso-resume-a-historia-da-cidade-,789139,0.htm

"Ganhador do Jabuti de Arquitetura critica modelo 'provinciano' e diz que os planejamentos são feitos a toque de caixa"

Nataly Costa, de O Estado de S.Paulo


Reforma do Viaduto do Chá, para permitir a passagem de bondes elétricos, em 1902.


Foram 30 anos de pesquisa, 25 mil fotos e centenas de informações sobre a história de São Paulo. A ideia era compilar tudo em cinco volumes, depois "resumidos" a três, cada um com quase 200 páginas. Foi o que o arquiteto e professor da Universidade de São Paulo (USP) Nestor Goulart Reis precisou para contar e ilustrar com fotos os Dois Séculos de Projetos no Estado de São Paulo, livro que ganhou na segunda-feira o prêmio Jabuti de Arquitetura e Urbanismo.

O que, na sua opinião, resume a história da urbanização de São Paulo? Falta aos políticos um melhor entendimento?


O improviso resume essa história. Nada foi feito de forma organizada, os Planos Diretores não são respeitados. Fizeram algumas obras pontuais, mas o conjunto não tem coerência. A visão política ainda é rural, de coronéis. Os administradores não se sentem representados pelo espaço urbano. Eles tentam vender a imagem de que estamos "devagar, mas chegando lá". Não: estamos devagar, mas ladeira abaixo.

A urbanização piorou a qualidade de vida dos moradores?


Não necessariamente. Em 1955, por exemplo, já com 3 milhões de habitantes, era uma cidade que funcionava para ricos e pobres. A qualidade de vida já foi melhor - e de vida urbana mesmo. Hoje, até para a alta renda, a cidade tem pouquíssimos espaços confortáveis. Tirando Higienópolis, parte do Morumbi e muito pouco dos Jardins, existe pouca qualidade urbana. Um arquiteto americano veio aqui uma vez e me disse: "Vocês são loucos, o lugar mais bonito de São Paulo é em volta das represas! Vocês têm essa paisagem magnífica e ficam apinhados entre o Tietê e o Pinheiros!". E o entorno das represas é degradado, jogamos tudo isso fora.

O avanço da especulação imobiliária e as construções desordenadas prejudicaram a cidade?

A administração pública também participa das decisões do mercado imobiliário - se não participasse, não existiria tanta extravagância. Acontece que os empresários e as construtoras também pagam o preço de ter uma cidade desorganizada. O fato de a cidade ser como é hoje prejudica o mercado. Veja o eixo da (Avenida Engenheiro Luís Carlos) Berrini, com ruas estreitas, onde não cabe mais carro. Todo mundo quer investir no mesmo lugar. Por outro lado, não há alternativas atraentes em outras partes. Existe um jogo histórico entre o capital privado e o público: em alguns períodos, manda o capital privado; depois, ele sai, entra o Estado. E aí não há continuidade nem visão de conjunto.

Dá para dizer que a cidade é modelo de alguma coisa?

Deveria servir de modelo. A Paulista deveria ser um brinco. E olha como é caótica. Várias regiões deviam ser modelos, as áreas periféricas deveriam ser melhoradas. São Paulo é uma metrópole de alcance mundial, com estrutura provinciana. Temos tanto potencial e aproveitamos tão pouca coisa. Os habitantes de São Paul mereciam mais.

Falta planejamento?

Os planejamentos são feitos a toque de caixa. São os projetos para uma cidade que determinam custo, organização, qualidade das obras. Mas não existe planejamento para 30 anos, só para 2, 3 anos.

O que pode melhorar?

O transporte público é precário. Dizem que São Paulo é uma cidade difícil, que as pessoas levam 2h do trabalho para casa. Não é verdade. Tem gente que leva 3h, 4h em dias razoáveis. O trânsito é a segunda jornada de trabalho. O culto ao carro existe, mas será que uma pessoa humilde gastaria dinheiro para comprar e manter um carro se o transporte público funcionasse? Se você for para Londres ou Paris, o metrô é o meio de ir ao trabalho. As pessoas não pensam em outro.