Vila operária em Perus (Filipe Araújo / AE)
A Fábrica de Cimentos Portland, de onde saiu o concreto que construiu
Brasília, no fim dos anos 1950, está em ruínas, escondida no extremo norte da
capital paulista. O antigo Santapaula Iate Clube, luxuoso projeto do arquiteto
João Batista Vilanova Artigas à beira da Represa do Guarapiranga, também luta
para ficar de pé. Na Mooca, zona leste, um dos prédios mais representativos do
antigo polo têxtil do bairro, com maquinário desativado há décadas, está
abandonado. São edifícios tombados, de notável importância histórica, que foram
deixados de lado com o tempo e só não estão no chão hoje porque há alguém que
tome conta.
Enquanto os proprietários não decidem o futuro dos prédios, zeladores fazem
as vezes de cuidadores desse patrimônio. A Expedição Metrópole visitou algumas
das ruínas urbanas da capital.
São prédios históricos abandonados, que retratam diferentes fases da história
da cidade, hoje transformados em residências de poucos - e, de certa forma,
privilegiados - moradores.
Vila Triângulo. Em Perus, na zona norte, a vila operária da
Fábrica de Cimentos Portland vive seus últimos dias. O vilarejo - que já serviu
de abrigo a 70 famílias de operários da primeira fábrica de cimento do País,
inaugurada em 1926 - foi invadido, inicialmente, por usuários de drogas e agora
passa por um processo de desocupação comandado pelos atuais proprietários, o
Grupo J.J.Abdalla. A antiga capela de São José, que dá aparência ainda mais
idílica ao arborizado local de ruas de terra, não celebra missas desde a década
de 1990.
Apenas três famílias vivem atualmente nas casas - todos familiares de antigos
funcionários. "A vila era o parque de diversões de Perus. Tinha festa no Clube
Caramanchão, aqui dentro mesmo, e pesca nesse córrego aí", aponta o eletricista
José Pedroso, de 63 anos, morador de umas das três casas que ainda mantêm portas
e janelas originais da antiga vila operária.
Pedroso trabalhava na manutenção da fábrica, um complexo de moinhos de
cimento, depósitos de minerais e unidades de ensacamento - ainda está tudo ali,
mas em péssimas condições. "Havia filas de caminhões do Brasil inteiro, que
passavam dois dias para buscar cimento aqui", conta o eletricista.
Alda Giovanini, de 73 anos, nasceu na vila operária - batizada Vila
Triângulo, por causa da forma em que se dispõem as casas. "Chegava a noite e
todo mundo vinha para a varanda, para conversar sobre amenidades e também sobre
política", diz Alda, filha e irmã de funcionários. A família dela participou
ativamente da greve de dez anos na fábrica, mais longa paralisação da história
do País. "Uma pena que esteja assim, abandonado. O que aconteceu aqui foi
importante para o Brasil em diversos momentos. Parece que ninguém mais
lembra."
A Fábrica de Cimentos Portland - de onde também saiu o cimento que concretou
o Vale do Anhangabaú - é tombada por órgãos de patrimônio do Estado e do
Município desde 1992. Os donos querem construir um condomínio, mas ainda não há
projeto - em casos assim, a Prefeitura costuma exigir preservação ao menos
parcial das ruínas.
"Algo tem de ficar de pé, como testemunho. Vem gente querendo filmar,
estudantes de arquitetura querendo aprender. Não pode simplesmente derrubar",
disse Raimundo de Souza, de 67 anos, que toma conta do que restou da antiga
fábrica.
Luxo e casarões. A estrutura do Santapaula Iate Clube, na
beira da Represa do Guarapiranga, na zona sul, é de dar inveja a clubes de luxo.
O conjunto de dois prédios unidos por túnel por baixo da Avenida Atlântica
(antiga Robert Kennedy) tem piscina de 1,2 mil metros quadrados, três salões de
festas, duas saunas completas (com antigas mangueiras de alta pressão para jatos
d'água quente), salões de TV, churrasqueira e seis pistas de boliche. Também
abriga a célebre garagem de barcos de Artigas, com vão livre e construída em
concreto aparente. Há mais de 20 anos, o complexo serve como depósito e tem
sinais de abandono.
Quem toma conta é Sebastião Profeta dos Santos, de 43 anos, que sempre
trabalhou ali. "Entrei aos 17 anos, levantando pinos do boliche, e nunca tive
outro emprego. Os maiores bailes de carnaval eram aqui, vinha gente da cidade
toda", diz Sebastião, que vive com a mulher e três filhos em uma casa
improvisada no antigo escritório da presidência do iate clube. "Quando faço
vistoria, fico lembrando do pessoal na piscina, das festas chiques, dos barcos
na represa. Dá saudade."
No ano passado, foi apresentado projeto que preserva o complexo e o
transforma em hotel, mas o proprietário ainda busca recursos para a obra.
Na Rua Gabriel dos Santos, em Santa Cecília, região central da capital, há
oito casarões tombados, a maioria construída na primeira metade do século 20
pelos endinheirados barões do café. Duas das mansões de época, vizinhas na
altura do número 800 da via, estão abandonadas há pelo menos dez anos. "Dá
trabalho porque a casa é cheia de detalhes", afirma o zelador de um dos prédios,
Osmar de Brito, de 39 anos. "Uma das tarefas é limpar os vitrais e os ornamentos
de ferro. A outra é tapar as goteiras. Dá medo de que um dia isso tudo caia." Os
proprietários dizem não ter condições de restaurar o casarão cuidado por Brito,
erguido nos anos 1920.
Outra região da cidade pródiga em construções abandonadas é a Mooca, bairro
símbolo da primeira industrialização de São Paulo. Construída na década de 1910,
a Fábrica de Tecidos Labor é exemplo da degradação que toma conta dos antigos
galpões industriais de arquitetura inglesa.
"O casarão principal, com seus vitrais e o chão todo trabalhado em madeira,
mostra a importância que os antigos proprietários das fábricas davam às sedes
administrativas da empresa. Isso tem de ser restaurado", diz Douglas Nascimento,
que se dedica a fotografar construções abandonadas em São Paulo. "A cidade está
cheia dessas 'ruínas'. Mostra a falta de importância que a sociedade, seja
proprietário ou poder público, dedica ao patrimônio histórico."