segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma coleção que conta a história de São Paulo

Com 40 mil fotos e 6,5 mil livros, acervo do arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo tem destino certo: a Universidade de São Paulo


02 de outubro de 2011
 
 
EDISON VEIGA, VITOR HUGO BRANDALISE - O Estado de S.Paulo


Em 50 anos de carreira, o professor, arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo não se limitou ao escritório nem às salas de aula. Câmera em punho, foi a campo - no caso, as ruas de São Paulo. Aos 77 anos, ele e a mulher, a bibliotecária Suzana Aléssio de Toledo, de 71, tomaram a decisão: quem vai herdar a impressionante coleção de 40 mil fotos, 25 mil slides e 6,5 mil livros é a biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

"O ideal de um professor é difundir o conhecimento. Quero que esse material fique disponível para os pesquisadores das gerações futuras, porque assim continuarei contribuindo para difundir o conhecimento", anuncia o arquiteto. Entre os documentos, há preciosidades como um livro de construções portuguesas datado de 1680, registros fotográficos - feitos por ele próprio - de todos os casarões da Avenida Paulista e um exemplar da Monographia do Theatro Municipal de São Paulo, entregue a todos os que compareceram à inauguração da casa, em 1911.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Paulista de Letras e autor de 12 livros - entre eles, Anhangabahú e São Paulo: Três Cidades em Um Século -, Toledo é autoridade quando se pensa em história de São Paulo. Mas seu conhecimento não foi adquirido apenas nas leituras e salas de aula. Gastar sola de sapato sempre foi parte da rotina.

Expedições. Por cinco anos, entre 1966 e 1971, o jovem professor levou vida de arqueólogo - todo fim de semana, estacionava sua Brasília dourada no alto da Serra do Mar e, equipado de facão de mateiro e botas grossas de couro, embrenhava-se na mata. Procurava resquícios da Calçada do Lorena, primeiro caminho pavimentado a ligar São Paulo e Santos, construído em 1792 - que estava perdido, encoberto por mata fechada.

"Era uma obsessão que eu tinha. Não entendia como o caminho poderia estar perdido, já que nossa vida no planalto, historicamente, sempre esteve tão ligada à costa", explicou. Garrafa d'água, sanduíche e soro antiofídico estavam entre os apetrechos que o arquiteto carregava. "Foi um trabalho realizado com disciplina do Exército: a cada 10 minutos, eu parava para descansar. Assim, aguentava o tranco o dia inteiro. Mas, no fim, nenhuma cobra se arriscou a picar-me."

Após analisar "até gastar" antigos registros topográficos, Toledo encontrou as primeiras pedras. Foi o primeiro passo para recolocar no mapa todos os 700 metros da Calçada - utilizada, por exemplo, por d. Pedro I na subida ao planalto para proclamar a Independência. De quebra, o arquiteto fotografou e desenhou os seis monumentos existentes na Calçada, entre o topo da Serra e Cubatão. "Registrei tudo para um futuro restauro, que espero ver."

Mas havia também expedições urbanas. Como quando ele surpreendeu, nos anos 1980, um casarão sendo demolido na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. "Sumiu a casa, só restou a poeira. E as fotos que eu fiz", comenta. Destino idêntico teve uma casa bandeirista do século 18 na Vila Nova Cachoeirinha. "Fotografei antes que caísse."

Os véus da cidade em desconstrução

OESP C7A 10/12/2011

Fotógrafo que nos últimos dois anos registrou mais de 60 prédios em reforma e demolição faz cliques exclusivos a pedido do 'Estado'

Por Edison Veiga


São Paulo é beneficiária e vítima, como diria a música de Caetano Veloso, da "força da grana que ergue e destrói coisas belas". Prato cheio para o fotógrafo carioca Thales Leite, que desde 2009 não pode ver um prédio em construção sem parar para fotografá-lo. "Esses tecidos que eles colocam envolvendo a obra têm uma plástica muito interessante. Então comecei a pensar sobre o impacto disso na paisagem urbana", comenta. "É como um 'band-aid' gigante, um aviso de que o prédio está machucado mas será consertado."

Nos últimos dois anos, ele acumulou mais de 60 dessas imagens em suas andanças pelo Brasil. Cenas de obras do Rio - onde nasceu em 1979 e onde reside até hoje -, de Belo Horizonte - para onde viajou só com o intuito de produzir cenas assim -, de Belém e de São Paulo. "Quando um amigo vê um prédio em obras, já me avisa", diz ele, que já enfrentou alguns perrengues por obsessão. "Já teve porteiro que achou que eu fosse fiscal, ou algo assim. Então veio me mostrar que a documentação do prédio estava ok, essas coisas", conta, aos risos. "Por isso, ando com um catálogo na bolsa, para provar que estou fotografando por arte."

Essa arte esteve exposta até 29 de janeiro de 2012 no Centro Cultural São Paulo. A convite do Estado, o carioca Thales fez um tour por São Paulo e produziu as imagens que ilustraram, exclusivamente, a matéria do jornal.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Prédio tomou lugar da casa da irmã de Santos Dumont

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,predio-tomou-lugar-da-casa-da-irma-de-santos-dumont-,808575,0.htm

OESP 09/12/2011

Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli

O número 2.200 (de acordo com a numeração atual) da Paulista é o endereço hoje de um dos muitos edifícios comerciais da efervescente avenida - no térreo funciona uma agência bancária. Mas, em 1921, ali foi erguido o imponente casarão da foto ao lado, residência de Gabriela Dumont Villares, irmã do aviador e inventor Alberto Santos Dumont - a família era composta por oito filhos, cinco mulheres e três homens.


Casarão de Gabriela Dumont, hoje ocupado pelo número 2.200 - Reprodução
Reprodução
Casarão de Gabriela Dumont, hoje ocupado pelo número 2.200


A casa saiu das pranchetas do escritório do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Segundo registros históricos, nos anos 1920, o aviador costumava se hospedar na casa, em suas vindas a São Paulo. Naquela época, ele dividia-se entre a capital paulista, Rio, Petrópolis e Paris.

O estilo do casarão é bastante diferente dos demais projetos de Ramos de Azevedo executados na época. "Foi o Escritório Ramos de Azevedo que propôs uma casa de tijolo aparente cercada de alpendre e com longos beirais, surpreendente no conjunto de obras desse escritório, mesmo considerando-se grande o número de arquitetos que aí trabalhavam", assinala o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto acima foi reproduzida.

Amanhã, o caderno Cidades continua com a série Avenida Paulista, 120 anos - será publicada a história de mais um antigo casarão da avenida-símbolo de São Paulo.

Um legítimo exemplo do estilo de Ramos de Azevedo

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-legitimo-exemplo-do-estilo-de-ramos-de-azevedo-,809075,0.htm

OESP 08/12/2011

Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli

Erguida em 1915, a residência da família Cardoso de Almeida ficava na atual esquina da Avenida Paulista com a Rua Haddock Lobo - onde hoje funciona uma agência bancária. Trata-se de um exemplo muito característico do estilo de arquitetura do escritório de Ramos de Azevedo, como aponta o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, professor da Universidade de São Paulo (USP).

"(O casarão) utiliza um repertório de formas que pode ser visto em outras residências da região", diz Toledo, no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto ao lado foi reproduzida. "Um pormenor merece registro. É o terraço descoberto e ligeiramente elevado, colocado na esquina, na concordância dos dois alinhamentos onde, por entre os vãos da balaustrada, é visível o mobiliário de ferro. Esse terraço era local privilegiado para se apreciar o corso nos fins de semana."

Proprietário do casarão, José Cardoso de Almeida era natural de Botucatu, no interior do Estado. Mudou-se para São Paulo ainda no século 19 - bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco em 1890.

Cardoso de Almeida foi deputado estadual e federal, secretário de Estado - da Justiça e do Interior - e chefe da polícia paulista. Também integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Ele morreu em 1933.

Com a história de mais um antigo casarão da via mais simbólica de São Paulo, a série Avenida Paulista, 120 anos, será retomada na próxima segunda-feira.

Os 120 anos de transformações da Avenida Paulista

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-120-anos-de--transformacoes-da-avenida-paulista--,808119,0.htm

OESP 08/12/2011

Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli


A avenida-símbolo de São Paulo completa hoje 120 anos. Em 1891, quando foi aberta por iniciativa do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, a Avenida Paulista era uma tentativa de criar na cidade uma nova área residencial, distante dos já consolidados bairros de Higienópolis e Campos Elísios e dos arredores da Praça da República. Em 12 décadas, a avenida que nasceu onde só havia mato passou por uma drástica mudança de perfil.

Os casarões que faziam dela, nas primeiras décadas do século passado, um dos endereços preferidos da alta sociedade paulistana deram lugar a edifícios que a transformaram em moderno e efervescente centro comercial e financeiro. De um lado, a cidade ganhou uma paisagem urbana única, que atrai a atenção de turistas, urbanistas e arquitetos de várias partes do mundo. De outro, defensores do patrimônio lamentam a demolição dos símbolos da São Paulo do início do século 20.

"É uma pena que a grande maioria dos casarões tenha desaparecido", diz o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e autor do livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987). Hoje, apenas cinco casarões da avenida continuam de pé. Ao longo de sua carreira, Toledo fotografou esses e os que acabaram demolidos - são de seu arquivo muitas das fotos da matéria.

Para mostrar essa transformação, o Metrópole vai publicar ao longo deste mês histórias de antigos casarões da avenida. No portal estadão.com.br, leitores e internautas poderão acompanhar as reportagens, comparar fotos antigas e atuais e ver um infográfico do antes e depois da avenida mais famosa de São Paulo.