OESP Metrópole C8 1311/202
Por Rodrigo Burgarelli
Um casarão de quase um século de idade, que ocupava o número 141 da Rua
Haddock Lobo, na região da Avenida Paulista, foi demolido há cerca de duas
semanas por uma construtora. Famoso por abrigar por 12 anos o restaurante Pão
com Manteiga, ele data do início do século 20 e era um dos "xodós" dos amantes
do patrimônio histórico paulistano. Outras duas casas no mesmo quarteirão também
foram demolidas e vão dar lugar a um empreendimento imobiliário da construtora
Even.
A demolição causou revolta entre ONGs e aficionados pelo patrimônio. "Não era
um casarão qualquer. Era um casarão estilo neocolonial, altamente representativo
da época em que foi construído" afirmou Jorge Eduardo Rubies, presidente da ONG
Preserva São Paulo. A entidade entrou com pedido de tombamento no início do ano
para o conjunto de casarões, um dos poucos que restaram na região das Ruas
Haddock Lobo e Bela Cintra, do lado do centro.
O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp),
porém, negou o pedido e mandou arquivar o processo. "O casarão estava
preservado, era relevante e tinha todos os pré-requisitos para ser tombado. Não
adianta mais pedir o tombamento de nada no Conpresp. São os que deveriam cuidar
do nosso patrimônio, mas nunca atendem aos nossos pedidos", reclamou Rubies.
A Secretaria Municipal de Cultura afirmou apenas que o assunto foi examinado
pelo Conpresp em junho deste ano e a deliberação contrária ao tombamento foi
unânime.
O imóvel ainda estava nas mãos da mesma família que o ergueu e foi vendido
diretamente de uma das herdeiras à incorporadora. O dono do Pão com Manteiga,
Arnaldo Príncipe, já mudou o endereço do restaurante, que agora funciona em um
sobrado na Alameda Campinas. Ele também se revoltou com a demolição. "Estão
deixando a cidade mais feia", disse.
O restaurante ocupou o casarão no ano 2000, após mais de duas décadas de
abandono. "Não tínhamos condições de comprar e a incorporadora joga pesado. É
bravo. O que a gente faz com um País que não preserva sua história?"Nem ele nem
sua esposa - que também é sócia do restaurante - quiseram ver a demolição.
"Aquela região já está completamente saturada. Agora vai ficar ainda mais."
Histórico. A construtora Even virou alvo dos defensores do patrimônio
histórico em junho de 2011, quando demoliu um dos seis únicos casarões que
restavam na Avenida Paulista. Procurada, a empresa disse que "obteve as
autorizações necessárias à execução do empreendimento comercial, aí incluída a
demolição dos imóveis no local".
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Capela de São Miguel Arcanjo completa 390 anos
OESP Metrópole C8 18/07/2012
Por EDISON VEIGA
Igreja mais antiga de São Paulo, a Capela de São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista, na zona leste, completa nesta quarta-feira 390 anos. E tem muito para comemorar: depois das obras iniciadas em 2006, a construção de 1622 foi totalmente restaurada, ganhou museu e ainda viu a redescoberta de duas pinturas murais que estavam escondidas atrás de altares havia pelo menos 250 anos.
Para entender a história do local, é preciso voltar aos primeiros anos da cidade. Em 1560, índios guaianás se desentenderam com os colonos da então Vila de São Paulo de Piratininga. Comandados por Piquerobi, irmão do conhecido cacique Tibiriçá - aliado dos padres jesuítas -, eles caminharam 20 km ao leste e criaram uma nova aldeia, batizada de Ururaí.
Receosa de perder esses índios, a Companhia de Jesus delegou ao padre José de Anchieta a missão de reencontrá-los. Um percurso difícil à época, parte por terra, parte pelo Rio Tietê. Quando chegou ao local, o religioso tratou de renomear o povoado como São Miguel de Ururaí. Ali ergueu uma pequena capela, de bambu e sapé. Nascia o bairro de São Miguel Paulista.
A rudimentar construção religiosa deu lugar, décadas mais tarde, a uma nova igrejinha de taipa de pilão. É esta, de 1622, que vence o tempo e resiste até hoje - tombada por Iphan, Condephaat e Conpresp, respectivamente os órgãos federal, estadual e municipal de proteção ao patrimônio.
Restauro
A histórica capela passou por um longo processo de restauração, dividido em duas etapas. Na primeira fase, que durou de 2006 a 2009, a meta foi recuperar o edifício estruturalmente. "Havia problemas elétricos, hidráulicos e de infiltração de água", lembra o gestor do local, Alexandre Galvão. Foram investidos R$ 3 milhões, bancados pela iniciativa privada.
Paralelamente a esse trabalho, uma equipe de arqueólogos e historiadores se debruçou sobre fatos, documentos e registros para que, pela primeira vez, a história da capela fosse recuperada de forma oficial. "No Vaticano, descobrimos cartas de Anchieta a outros jesuítas que nos ajudaram a entender como o povoado nasceu e como a primeira igrejinha foi feita", conta Galvão. A carta mais antiga encontrada foi escrita em 12 de outubro de 1561.
Todo esse material fez com que os administradores do templo vislumbrassem a instalação de um museu. Nascia então a segunda fase do projeto, orçada em R$ 2,8 milhões e iniciada em 2009. "Passamos a recuperar as imagens esculturais", diz Galvão. "Quando restaurávamos os altares, descobrimos, escondidas atrás de dois deles, pinturas murais que estavam ocultas e ao mesmo tempo protegidas", relata o restaurador Julio Moraes. "Foi uma importante surpresa."
Essas pinturas estão sendo cuidadosamente restauradas. "O trabalho deve ser concluído em novembro", estima Moraes. Acredita-se que esses murais tenham sido pintados no século 17. E estavam cobertos pelos altares desde cerca de 1760.
Quem quiser conferir essas obras, entretanto, precisa se apressar. Concluído o processo de restauro, elas deverão ser novamente "escondidas" pelos altares, por determinação dos órgãos de proteção do patrimônio. Mas haverá reprodução fotográfica delas no museu, que está aberto desde 2010 e atrai cerca de 400 pessoas por mês. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.
Serviço: http://capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.br
Por EDISON VEIGA
Igreja mais antiga de São Paulo, a Capela de São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista, na zona leste, completa nesta quarta-feira 390 anos. E tem muito para comemorar: depois das obras iniciadas em 2006, a construção de 1622 foi totalmente restaurada, ganhou museu e ainda viu a redescoberta de duas pinturas murais que estavam escondidas atrás de altares havia pelo menos 250 anos.
Para entender a história do local, é preciso voltar aos primeiros anos da cidade. Em 1560, índios guaianás se desentenderam com os colonos da então Vila de São Paulo de Piratininga. Comandados por Piquerobi, irmão do conhecido cacique Tibiriçá - aliado dos padres jesuítas -, eles caminharam 20 km ao leste e criaram uma nova aldeia, batizada de Ururaí.
Receosa de perder esses índios, a Companhia de Jesus delegou ao padre José de Anchieta a missão de reencontrá-los. Um percurso difícil à época, parte por terra, parte pelo Rio Tietê. Quando chegou ao local, o religioso tratou de renomear o povoado como São Miguel de Ururaí. Ali ergueu uma pequena capela, de bambu e sapé. Nascia o bairro de São Miguel Paulista.
A rudimentar construção religiosa deu lugar, décadas mais tarde, a uma nova igrejinha de taipa de pilão. É esta, de 1622, que vence o tempo e resiste até hoje - tombada por Iphan, Condephaat e Conpresp, respectivamente os órgãos federal, estadual e municipal de proteção ao patrimônio.
Restauro
A histórica capela passou por um longo processo de restauração, dividido em duas etapas. Na primeira fase, que durou de 2006 a 2009, a meta foi recuperar o edifício estruturalmente. "Havia problemas elétricos, hidráulicos e de infiltração de água", lembra o gestor do local, Alexandre Galvão. Foram investidos R$ 3 milhões, bancados pela iniciativa privada.
Paralelamente a esse trabalho, uma equipe de arqueólogos e historiadores se debruçou sobre fatos, documentos e registros para que, pela primeira vez, a história da capela fosse recuperada de forma oficial. "No Vaticano, descobrimos cartas de Anchieta a outros jesuítas que nos ajudaram a entender como o povoado nasceu e como a primeira igrejinha foi feita", conta Galvão. A carta mais antiga encontrada foi escrita em 12 de outubro de 1561.
Todo esse material fez com que os administradores do templo vislumbrassem a instalação de um museu. Nascia então a segunda fase do projeto, orçada em R$ 2,8 milhões e iniciada em 2009. "Passamos a recuperar as imagens esculturais", diz Galvão. "Quando restaurávamos os altares, descobrimos, escondidas atrás de dois deles, pinturas murais que estavam ocultas e ao mesmo tempo protegidas", relata o restaurador Julio Moraes. "Foi uma importante surpresa."
Essas pinturas estão sendo cuidadosamente restauradas. "O trabalho deve ser concluído em novembro", estima Moraes. Acredita-se que esses murais tenham sido pintados no século 17. E estavam cobertos pelos altares desde cerca de 1760.
Quem quiser conferir essas obras, entretanto, precisa se apressar. Concluído o processo de restauro, elas deverão ser novamente "escondidas" pelos altares, por determinação dos órgãos de proteção do patrimônio. Mas haverá reprodução fotográfica delas no museu, que está aberto desde 2010 e atrai cerca de 400 pessoas por mês. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.
Serviço: http://capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.br
domingo, 22 de abril de 2012
As paredes caem, uma a uma, em Pinheiros
Ignácio de Loyola Brandão - O Estado de
S.Paulo Caderno2 D10 20/4/2012
Quando cheguei a esta rua, João Moura, havia em frente do meu prédio uma
vilazinha e nela uma fonte de água cristalina. Dizia-me seu Chico, com seus 80
anos, que a fonte existia desde que ele chegara, na altura dos anos 1930. E que
muita gente ia buscar água fresca para encher talhas, potes e moringas.
Chico, meu vizinho, tinha um quintal que ia até quase a Rua Cristiano Viana. Nele coexistiam jabuticabeiras, bananeiras, pássaros, patos, galinhas. As jabuticabas, imensas, eram docíssimas.
Cada vez que o pé carregava e os galhos pretejavam de frutos, Chico me trazia uma vasilha cheia. Havia um tanto de interior, um tanto de bucolismo, outro de quietude, comunidade.
Chico se foi, mas sua casa, seu terreno ainda estão ali e cada um de nós prende a respiração, no temor de que vendam algum dia e tudo vá para o chão.
O galo garnizé que a vizinhança ouve habita esse terreno. Vez ou outra, acontece uma baladinha noturna, com violão e danças, há pessoas guardando a casa. Um citadino dia desses começou a espicaçar a galinha que tinha acabado de ter pintinhos.
Provocava e provocava a pobre ave que tentava proteger os filhotes e investia com o bico. Então, um dos convidados gritou:
- Pare com isso, por favor! Não perturbe! Não vê que a galinha ainda está amamentando?
Quando cheguei à rua, anos 90, do meu apartamento no 13.º andar minha vista alcançava o horizonte e eu podia ver as luzes do Morumbi, em noites de jogo. Ao fazer uma panorâmica, contemplava o verde por toda a parte.
Abaixo de mim podia contemplar os sobrados tão característicos de Pinheiros e Vila Madalena, cada um com seu quintal, suas árvores. Podia ver laranjeiras. Mangueiras e jabuticabeiras, flores.
Assim vinha sendo nossa vidinha com jeito provinciano, aqui em Pinheiros, dentro de São Paulo. Basta atravessar uma rua e estamos nos Jardins. Mas em geral ficamos no que chamamos o outro lado da Rebouças, o nosso.
Tão bom que as casas de decoração estão ocupando espaços, são várias e dá gosto olhar as vitrines. Uma delas, a do Teo, inclusive, reformou uma área imensa em frente da nova churrascaria Bovinu's, que, após quase um ano, abriu suas portas.
Nessa onda, na Rua Artur de Azevedo, a filha do Viana mudou o rumo dos negócios que eram do pai (materiais de construção) e agora o espaço se chama Vianarte, com objetos coloridos.
Jovens saem do cursinho e da faculdade (tudo aqui na rua) e lotam o bar do Pinguim e o novo boteco Leyseca na esquina da Artur de Azevedo. Há um tom alegre nos fins de tarde, ruidoso, agitado. Na CPL motoqueiros fazem point aos sábados.
Aqui temos nossos bares, nossos restaurantinhos, o Genova, o Buttina, o bistrô Vianna, o Wolf, nossos self-services, a padaria, o sapateiro, a quitanda, a farmácia, o supermercadinho, a acupuntura.
Os prédios existentes conviviam em harmonia com os sobrados, as lojas, com tudo, todos se ajeitando, se acomodando, amigavelmente. Uns prédios maiores, outros pequenos, de quatro, cinco andares.
Então, começaram a chegar. Ah, começaram! Em frente de casa subiram duas torres enormes, minha vista se foi, a fontezinha desapareceu no concreto. Sim, um dia reapareceu dentro da garagem de nosso prédio. Quem segura água?
A vilinha que havia desapareceu. Foi o primeiro aviso. O segundo foi na Rua Artur de Azevedo, quando um grupo de casinhas foi abaixo, entre elas a original videolocadora S'Different, um barzinho de happy hour e duas ou três residências.
As "bombas" caíam cada vez mais perto. Então, a notícia se espalhou: tudo viria abaixo na esquina da João Moura com a Teodoro Sampaio. Até a belíssima casa branca que ficava no alto de uma colina.
Histórica? Não sabíamos. Mas era linda, de uma São Paulo senhorial, elegante. Todos tremeram quando a proprietária, velhinha, morreu. Dali saiu seu funeral por determinação expressa. Ficamos todos na corda bamba.
Súbito, na calada da noite, porque eles não têm coragem, fazem na calada da noite, a casa desapareceu. Foi ao chão, como se tivesse passado um tsunami. A arte de demolir num instante tem seu auge em São Paulo.
A morte da casa branca da colina verde doeu em todos nós. Ali, dizem, vai ser um shopping. Na Artur, um grande complexo. A culpa é de quem, gente? Das construtoras? Não, elas querem construir. A culpa é de leis que cedem ante o poder do dinheiro sem medir consequências para a comunidade, o trânsito, a rede de águas e esgotos, e tudo que está implicado.
E as árvores do jardim? Vão para o chão? (Aliás, ali na esquina da Brasil com a Colômbia, a Kia não derrubou a imensa árvore, frondosa, para construir uma concessionária?) E como fazer, se ao lado da ex-casa branca da João Moura há um posto de gasolina? Terreno contaminado. Não existe um prazo de alguns anos para limpar tudo? Vão cumprir? Vão nada.
Junto da escola, outro edifício está subindo. Sobem, sobem, vão subir, e o bairro vai sendo desfigurado. Aliás, toda esta cidade foi, está sendo e será. Não existem planos diretores, nem políticos que se interessem por esta pobre São Paulo.
Assinei, vou participar, estou com o Movimento Contra a Verticalização. Não somos contra o progresso, somos contra as injúrias, a agressão à qualidade de nossas vidas, a entrega de tudo à especulação.
Vivi quase 20 anos nesta comunidade, faço parte dela, nos conhecemos todos, temos nossos hábitos e idiossincrasias, alegrias. Agora, temos medo, muito medo de que talvez tenhamos de procurar outro lugar para viver.
Eros Grau, que foi ministro do Supremo, é poeta, romancista, com expressiva bibliografia jurídica e membro da Academia Paulista de Letras, em seu mais recente livro, Paris, Quartier Saint-Germain, ao testemunhar a ação do "modernismo" que vem devastando edifícios, livrarias, pontos tradicionais em Paris, indaga:
"...E os seres humanos que davam vida a todas essas coisas? Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo? Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Eles não percebem - os sujeitos da transformação econômica - que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o quartier e o mundo?"
Chico, meu vizinho, tinha um quintal que ia até quase a Rua Cristiano Viana. Nele coexistiam jabuticabeiras, bananeiras, pássaros, patos, galinhas. As jabuticabas, imensas, eram docíssimas.
Cada vez que o pé carregava e os galhos pretejavam de frutos, Chico me trazia uma vasilha cheia. Havia um tanto de interior, um tanto de bucolismo, outro de quietude, comunidade.
Chico se foi, mas sua casa, seu terreno ainda estão ali e cada um de nós prende a respiração, no temor de que vendam algum dia e tudo vá para o chão.
O galo garnizé que a vizinhança ouve habita esse terreno. Vez ou outra, acontece uma baladinha noturna, com violão e danças, há pessoas guardando a casa. Um citadino dia desses começou a espicaçar a galinha que tinha acabado de ter pintinhos.
Provocava e provocava a pobre ave que tentava proteger os filhotes e investia com o bico. Então, um dos convidados gritou:
- Pare com isso, por favor! Não perturbe! Não vê que a galinha ainda está amamentando?
Quando cheguei à rua, anos 90, do meu apartamento no 13.º andar minha vista alcançava o horizonte e eu podia ver as luzes do Morumbi, em noites de jogo. Ao fazer uma panorâmica, contemplava o verde por toda a parte.
Abaixo de mim podia contemplar os sobrados tão característicos de Pinheiros e Vila Madalena, cada um com seu quintal, suas árvores. Podia ver laranjeiras. Mangueiras e jabuticabeiras, flores.
Assim vinha sendo nossa vidinha com jeito provinciano, aqui em Pinheiros, dentro de São Paulo. Basta atravessar uma rua e estamos nos Jardins. Mas em geral ficamos no que chamamos o outro lado da Rebouças, o nosso.
Tão bom que as casas de decoração estão ocupando espaços, são várias e dá gosto olhar as vitrines. Uma delas, a do Teo, inclusive, reformou uma área imensa em frente da nova churrascaria Bovinu's, que, após quase um ano, abriu suas portas.
Nessa onda, na Rua Artur de Azevedo, a filha do Viana mudou o rumo dos negócios que eram do pai (materiais de construção) e agora o espaço se chama Vianarte, com objetos coloridos.
Jovens saem do cursinho e da faculdade (tudo aqui na rua) e lotam o bar do Pinguim e o novo boteco Leyseca na esquina da Artur de Azevedo. Há um tom alegre nos fins de tarde, ruidoso, agitado. Na CPL motoqueiros fazem point aos sábados.
Aqui temos nossos bares, nossos restaurantinhos, o Genova, o Buttina, o bistrô Vianna, o Wolf, nossos self-services, a padaria, o sapateiro, a quitanda, a farmácia, o supermercadinho, a acupuntura.
Os prédios existentes conviviam em harmonia com os sobrados, as lojas, com tudo, todos se ajeitando, se acomodando, amigavelmente. Uns prédios maiores, outros pequenos, de quatro, cinco andares.
Então, começaram a chegar. Ah, começaram! Em frente de casa subiram duas torres enormes, minha vista se foi, a fontezinha desapareceu no concreto. Sim, um dia reapareceu dentro da garagem de nosso prédio. Quem segura água?
A vilinha que havia desapareceu. Foi o primeiro aviso. O segundo foi na Rua Artur de Azevedo, quando um grupo de casinhas foi abaixo, entre elas a original videolocadora S'Different, um barzinho de happy hour e duas ou três residências.
As "bombas" caíam cada vez mais perto. Então, a notícia se espalhou: tudo viria abaixo na esquina da João Moura com a Teodoro Sampaio. Até a belíssima casa branca que ficava no alto de uma colina.
Histórica? Não sabíamos. Mas era linda, de uma São Paulo senhorial, elegante. Todos tremeram quando a proprietária, velhinha, morreu. Dali saiu seu funeral por determinação expressa. Ficamos todos na corda bamba.
Súbito, na calada da noite, porque eles não têm coragem, fazem na calada da noite, a casa desapareceu. Foi ao chão, como se tivesse passado um tsunami. A arte de demolir num instante tem seu auge em São Paulo.
A morte da casa branca da colina verde doeu em todos nós. Ali, dizem, vai ser um shopping. Na Artur, um grande complexo. A culpa é de quem, gente? Das construtoras? Não, elas querem construir. A culpa é de leis que cedem ante o poder do dinheiro sem medir consequências para a comunidade, o trânsito, a rede de águas e esgotos, e tudo que está implicado.
E as árvores do jardim? Vão para o chão? (Aliás, ali na esquina da Brasil com a Colômbia, a Kia não derrubou a imensa árvore, frondosa, para construir uma concessionária?) E como fazer, se ao lado da ex-casa branca da João Moura há um posto de gasolina? Terreno contaminado. Não existe um prazo de alguns anos para limpar tudo? Vão cumprir? Vão nada.
Junto da escola, outro edifício está subindo. Sobem, sobem, vão subir, e o bairro vai sendo desfigurado. Aliás, toda esta cidade foi, está sendo e será. Não existem planos diretores, nem políticos que se interessem por esta pobre São Paulo.
Assinei, vou participar, estou com o Movimento Contra a Verticalização. Não somos contra o progresso, somos contra as injúrias, a agressão à qualidade de nossas vidas, a entrega de tudo à especulação.
Vivi quase 20 anos nesta comunidade, faço parte dela, nos conhecemos todos, temos nossos hábitos e idiossincrasias, alegrias. Agora, temos medo, muito medo de que talvez tenhamos de procurar outro lugar para viver.
Eros Grau, que foi ministro do Supremo, é poeta, romancista, com expressiva bibliografia jurídica e membro da Academia Paulista de Letras, em seu mais recente livro, Paris, Quartier Saint-Germain, ao testemunhar a ação do "modernismo" que vem devastando edifícios, livrarias, pontos tradicionais em Paris, indaga:
"...E os seres humanos que davam vida a todas essas coisas? Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo? Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Eles não percebem - os sujeitos da transformação econômica - que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o quartier e o mundo?"
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Uma coleção que conta a história de São Paulo
Com 40 mil fotos e 6,5 mil livros, acervo do arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo tem destino certo: a Universidade de São Paulo
02 de outubro de 2011
EDISON VEIGA, VITOR HUGO BRANDALISE - O Estado de
S.Paulo
Em 50 anos de carreira, o professor, arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo não se limitou ao escritório nem às salas de aula. Câmera em punho, foi a campo - no caso, as ruas de São Paulo. Aos 77 anos, ele e a mulher, a bibliotecária Suzana Aléssio de Toledo, de 71, tomaram a decisão: quem vai herdar a impressionante coleção de 40 mil fotos, 25 mil slides e 6,5 mil livros é a biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
"O ideal de um professor é difundir o conhecimento. Quero que esse material fique disponível para os pesquisadores das gerações futuras, porque assim continuarei contribuindo para difundir o conhecimento", anuncia o arquiteto. Entre os documentos, há preciosidades como um livro de construções portuguesas datado de 1680, registros fotográficos - feitos por ele próprio - de todos os casarões da Avenida Paulista e um exemplar da Monographia do Theatro Municipal de São Paulo, entregue a todos os que compareceram à inauguração da casa, em 1911.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Paulista de Letras e autor de 12 livros - entre eles, Anhangabahú e São Paulo: Três Cidades em Um Século -, Toledo é autoridade quando se pensa em história de São Paulo. Mas seu conhecimento não foi adquirido apenas nas leituras e salas de aula. Gastar sola de sapato sempre foi parte da rotina.
Expedições. Por cinco anos, entre 1966 e 1971, o jovem professor levou vida de arqueólogo - todo fim de semana, estacionava sua Brasília dourada no alto da Serra do Mar e, equipado de facão de mateiro e botas grossas de couro, embrenhava-se na mata. Procurava resquícios da Calçada do Lorena, primeiro caminho pavimentado a ligar São Paulo e Santos, construído em 1792 - que estava perdido, encoberto por mata fechada.
"Era uma obsessão que eu tinha. Não entendia como o caminho poderia estar perdido, já que nossa vida no planalto, historicamente, sempre esteve tão ligada à costa", explicou. Garrafa d'água, sanduíche e soro antiofídico estavam entre os apetrechos que o arquiteto carregava. "Foi um trabalho realizado com disciplina do Exército: a cada 10 minutos, eu parava para descansar. Assim, aguentava o tranco o dia inteiro. Mas, no fim, nenhuma cobra se arriscou a picar-me."
Após analisar "até gastar" antigos registros topográficos, Toledo encontrou as primeiras pedras. Foi o primeiro passo para recolocar no mapa todos os 700 metros da Calçada - utilizada, por exemplo, por d. Pedro I na subida ao planalto para proclamar a Independência. De quebra, o arquiteto fotografou e desenhou os seis monumentos existentes na Calçada, entre o topo da Serra e Cubatão. "Registrei tudo para um futuro restauro, que espero ver."
Mas havia também expedições urbanas. Como quando ele surpreendeu, nos anos 1980, um casarão sendo demolido na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. "Sumiu a casa, só restou a poeira. E as fotos que eu fiz", comenta. Destino idêntico teve uma casa bandeirista do século 18 na Vila Nova Cachoeirinha. "Fotografei antes que caísse."
Os véus da cidade em desconstrução
OESP C7A 10/12/2011
Fotógrafo que nos últimos dois anos registrou mais de 60 prédios em reforma e demolição faz cliques exclusivos a pedido do 'Estado'
Por Edison Veiga
São Paulo é beneficiária e vítima, como diria a música de Caetano Veloso, da "força da grana que ergue e destrói coisas belas". Prato cheio para o fotógrafo carioca Thales Leite, que desde 2009 não pode ver um prédio em construção sem parar para fotografá-lo. "Esses tecidos que eles colocam envolvendo a obra têm uma plástica muito interessante. Então comecei a pensar sobre o impacto disso na paisagem urbana", comenta. "É como um 'band-aid' gigante, um aviso de que o prédio está machucado mas será consertado."
Nos últimos dois anos, ele acumulou mais de 60 dessas imagens em suas andanças pelo Brasil. Cenas de obras do Rio - onde nasceu em 1979 e onde reside até hoje -, de Belo Horizonte - para onde viajou só com o intuito de produzir cenas assim -, de Belém e de São Paulo. "Quando um amigo vê um prédio em obras, já me avisa", diz ele, que já enfrentou alguns perrengues por obsessão. "Já teve porteiro que achou que eu fosse fiscal, ou algo assim. Então veio me mostrar que a documentação do prédio estava ok, essas coisas", conta, aos risos. "Por isso, ando com um catálogo na bolsa, para provar que estou fotografando por arte."
Essa arte esteve exposta até 29 de janeiro de 2012 no Centro Cultural São Paulo. A convite do Estado, o carioca Thales fez um tour por São Paulo e produziu as imagens que ilustraram, exclusivamente, a matéria do jornal.
Fotógrafo que nos últimos dois anos registrou mais de 60 prédios em reforma e demolição faz cliques exclusivos a pedido do 'Estado'
Por Edison Veiga
São Paulo é beneficiária e vítima, como diria a música de Caetano Veloso, da "força da grana que ergue e destrói coisas belas". Prato cheio para o fotógrafo carioca Thales Leite, que desde 2009 não pode ver um prédio em construção sem parar para fotografá-lo. "Esses tecidos que eles colocam envolvendo a obra têm uma plástica muito interessante. Então comecei a pensar sobre o impacto disso na paisagem urbana", comenta. "É como um 'band-aid' gigante, um aviso de que o prédio está machucado mas será consertado."
Nos últimos dois anos, ele acumulou mais de 60 dessas imagens em suas andanças pelo Brasil. Cenas de obras do Rio - onde nasceu em 1979 e onde reside até hoje -, de Belo Horizonte - para onde viajou só com o intuito de produzir cenas assim -, de Belém e de São Paulo. "Quando um amigo vê um prédio em obras, já me avisa", diz ele, que já enfrentou alguns perrengues por obsessão. "Já teve porteiro que achou que eu fosse fiscal, ou algo assim. Então veio me mostrar que a documentação do prédio estava ok, essas coisas", conta, aos risos. "Por isso, ando com um catálogo na bolsa, para provar que estou fotografando por arte."
Essa arte esteve exposta até 29 de janeiro de 2012 no Centro Cultural São Paulo. A convite do Estado, o carioca Thales fez um tour por São Paulo e produziu as imagens que ilustraram, exclusivamente, a matéria do jornal.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Prédio tomou lugar da casa da irmã de Santos Dumont
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,predio-tomou-lugar-da-casa-da-irma-de-santos-dumont-,808575,0.htm
OESP 09/12/2011
Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli
O número 2.200 (de acordo com a numeração atual) da Paulista é o endereço hoje de um dos muitos edifícios comerciais da efervescente avenida - no térreo funciona uma agência bancária. Mas, em 1921, ali foi erguido o imponente casarão da foto ao lado, residência de Gabriela Dumont Villares, irmã do aviador e inventor Alberto Santos Dumont - a família era composta por oito filhos, cinco mulheres e três homens.
A casa saiu das pranchetas do escritório do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Segundo registros históricos, nos anos 1920, o aviador costumava se hospedar na casa, em suas vindas a São Paulo. Naquela época, ele dividia-se entre a capital paulista, Rio, Petrópolis e Paris.
O estilo do casarão é bastante diferente dos demais projetos de Ramos de Azevedo executados na época. "Foi o Escritório Ramos de Azevedo que propôs uma casa de tijolo aparente cercada de alpendre e com longos beirais, surpreendente no conjunto de obras desse escritório, mesmo considerando-se grande o número de arquitetos que aí trabalhavam", assinala o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto acima foi reproduzida.
Amanhã, o caderno Cidades continua com a série Avenida Paulista, 120 anos - será publicada a história de mais um antigo casarão da avenida-símbolo de São Paulo.
OESP 09/12/2011
Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli
O número 2.200 (de acordo com a numeração atual) da Paulista é o endereço hoje de um dos muitos edifícios comerciais da efervescente avenida - no térreo funciona uma agência bancária. Mas, em 1921, ali foi erguido o imponente casarão da foto ao lado, residência de Gabriela Dumont Villares, irmã do aviador e inventor Alberto Santos Dumont - a família era composta por oito filhos, cinco mulheres e três homens.
Veja
também:
120
anos de transformações: Os casarões e os prédios da Paulista
FOTOS:
A Avenida Paulista pelo olhar dos leitores
Reprodução
Casarão de Gabriela Dumont, hoje ocupado
pelo número 2.200
A casa saiu das pranchetas do escritório do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Segundo registros históricos, nos anos 1920, o aviador costumava se hospedar na casa, em suas vindas a São Paulo. Naquela época, ele dividia-se entre a capital paulista, Rio, Petrópolis e Paris.
O estilo do casarão é bastante diferente dos demais projetos de Ramos de Azevedo executados na época. "Foi o Escritório Ramos de Azevedo que propôs uma casa de tijolo aparente cercada de alpendre e com longos beirais, surpreendente no conjunto de obras desse escritório, mesmo considerando-se grande o número de arquitetos que aí trabalhavam", assinala o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto acima foi reproduzida.
Amanhã, o caderno Cidades continua com a série Avenida Paulista, 120 anos - será publicada a história de mais um antigo casarão da avenida-símbolo de São Paulo.
Um legítimo exemplo do estilo de Ramos de Azevedo
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-legitimo-exemplo-do-estilo-de-ramos-de-azevedo-,809075,0.htm
OESP 08/12/2011
Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli
Erguida em 1915, a residência da família Cardoso de Almeida ficava na atual esquina da Avenida Paulista com a Rua Haddock Lobo - onde hoje funciona uma agência bancária. Trata-se de um exemplo muito característico do estilo de arquitetura do escritório de Ramos de Azevedo, como aponta o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, professor da Universidade de São Paulo (USP).
"(O casarão) utiliza um repertório de formas que pode ser visto em outras residências da região", diz Toledo, no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto ao lado foi reproduzida. "Um pormenor merece registro. É o terraço descoberto e ligeiramente elevado, colocado na esquina, na concordância dos dois alinhamentos onde, por entre os vãos da balaustrada, é visível o mobiliário de ferro. Esse terraço era local privilegiado para se apreciar o corso nos fins de semana."
Proprietário do casarão, José Cardoso de Almeida era natural de Botucatu, no interior do Estado. Mudou-se para São Paulo ainda no século 19 - bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco em 1890.
Cardoso de Almeida foi deputado estadual e federal, secretário de Estado - da Justiça e do Interior - e chefe da polícia paulista. Também integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Ele morreu em 1933.
Com a história de mais um antigo casarão da via mais simbólica de São Paulo, a série Avenida Paulista, 120 anos, será retomada na próxima segunda-feira.
OESP 08/12/2011
Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli
Erguida em 1915, a residência da família Cardoso de Almeida ficava na atual esquina da Avenida Paulista com a Rua Haddock Lobo - onde hoje funciona uma agência bancária. Trata-se de um exemplo muito característico do estilo de arquitetura do escritório de Ramos de Azevedo, como aponta o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, professor da Universidade de São Paulo (USP).
"(O casarão) utiliza um repertório de formas que pode ser visto em outras residências da região", diz Toledo, no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto ao lado foi reproduzida. "Um pormenor merece registro. É o terraço descoberto e ligeiramente elevado, colocado na esquina, na concordância dos dois alinhamentos onde, por entre os vãos da balaustrada, é visível o mobiliário de ferro. Esse terraço era local privilegiado para se apreciar o corso nos fins de semana."
Proprietário do casarão, José Cardoso de Almeida era natural de Botucatu, no interior do Estado. Mudou-se para São Paulo ainda no século 19 - bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco em 1890.
Cardoso de Almeida foi deputado estadual e federal, secretário de Estado - da Justiça e do Interior - e chefe da polícia paulista. Também integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Ele morreu em 1933.
Com a história de mais um antigo casarão da via mais simbólica de São Paulo, a série Avenida Paulista, 120 anos, será retomada na próxima segunda-feira.
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