segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma coleção que conta a história de São Paulo

Com 40 mil fotos e 6,5 mil livros, acervo do arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo tem destino certo: a Universidade de São Paulo


02 de outubro de 2011
 
 
EDISON VEIGA, VITOR HUGO BRANDALISE - O Estado de S.Paulo


Em 50 anos de carreira, o professor, arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo não se limitou ao escritório nem às salas de aula. Câmera em punho, foi a campo - no caso, as ruas de São Paulo. Aos 77 anos, ele e a mulher, a bibliotecária Suzana Aléssio de Toledo, de 71, tomaram a decisão: quem vai herdar a impressionante coleção de 40 mil fotos, 25 mil slides e 6,5 mil livros é a biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

"O ideal de um professor é difundir o conhecimento. Quero que esse material fique disponível para os pesquisadores das gerações futuras, porque assim continuarei contribuindo para difundir o conhecimento", anuncia o arquiteto. Entre os documentos, há preciosidades como um livro de construções portuguesas datado de 1680, registros fotográficos - feitos por ele próprio - de todos os casarões da Avenida Paulista e um exemplar da Monographia do Theatro Municipal de São Paulo, entregue a todos os que compareceram à inauguração da casa, em 1911.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Paulista de Letras e autor de 12 livros - entre eles, Anhangabahú e São Paulo: Três Cidades em Um Século -, Toledo é autoridade quando se pensa em história de São Paulo. Mas seu conhecimento não foi adquirido apenas nas leituras e salas de aula. Gastar sola de sapato sempre foi parte da rotina.

Expedições. Por cinco anos, entre 1966 e 1971, o jovem professor levou vida de arqueólogo - todo fim de semana, estacionava sua Brasília dourada no alto da Serra do Mar e, equipado de facão de mateiro e botas grossas de couro, embrenhava-se na mata. Procurava resquícios da Calçada do Lorena, primeiro caminho pavimentado a ligar São Paulo e Santos, construído em 1792 - que estava perdido, encoberto por mata fechada.

"Era uma obsessão que eu tinha. Não entendia como o caminho poderia estar perdido, já que nossa vida no planalto, historicamente, sempre esteve tão ligada à costa", explicou. Garrafa d'água, sanduíche e soro antiofídico estavam entre os apetrechos que o arquiteto carregava. "Foi um trabalho realizado com disciplina do Exército: a cada 10 minutos, eu parava para descansar. Assim, aguentava o tranco o dia inteiro. Mas, no fim, nenhuma cobra se arriscou a picar-me."

Após analisar "até gastar" antigos registros topográficos, Toledo encontrou as primeiras pedras. Foi o primeiro passo para recolocar no mapa todos os 700 metros da Calçada - utilizada, por exemplo, por d. Pedro I na subida ao planalto para proclamar a Independência. De quebra, o arquiteto fotografou e desenhou os seis monumentos existentes na Calçada, entre o topo da Serra e Cubatão. "Registrei tudo para um futuro restauro, que espero ver."

Mas havia também expedições urbanas. Como quando ele surpreendeu, nos anos 1980, um casarão sendo demolido na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. "Sumiu a casa, só restou a poeira. E as fotos que eu fiz", comenta. Destino idêntico teve uma casa bandeirista do século 18 na Vila Nova Cachoeirinha. "Fotografei antes que caísse."

Os véus da cidade em desconstrução

OESP C7A 10/12/2011

Fotógrafo que nos últimos dois anos registrou mais de 60 prédios em reforma e demolição faz cliques exclusivos a pedido do 'Estado'

Por Edison Veiga


São Paulo é beneficiária e vítima, como diria a música de Caetano Veloso, da "força da grana que ergue e destrói coisas belas". Prato cheio para o fotógrafo carioca Thales Leite, que desde 2009 não pode ver um prédio em construção sem parar para fotografá-lo. "Esses tecidos que eles colocam envolvendo a obra têm uma plástica muito interessante. Então comecei a pensar sobre o impacto disso na paisagem urbana", comenta. "É como um 'band-aid' gigante, um aviso de que o prédio está machucado mas será consertado."

Nos últimos dois anos, ele acumulou mais de 60 dessas imagens em suas andanças pelo Brasil. Cenas de obras do Rio - onde nasceu em 1979 e onde reside até hoje -, de Belo Horizonte - para onde viajou só com o intuito de produzir cenas assim -, de Belém e de São Paulo. "Quando um amigo vê um prédio em obras, já me avisa", diz ele, que já enfrentou alguns perrengues por obsessão. "Já teve porteiro que achou que eu fosse fiscal, ou algo assim. Então veio me mostrar que a documentação do prédio estava ok, essas coisas", conta, aos risos. "Por isso, ando com um catálogo na bolsa, para provar que estou fotografando por arte."

Essa arte esteve exposta até 29 de janeiro de 2012 no Centro Cultural São Paulo. A convite do Estado, o carioca Thales fez um tour por São Paulo e produziu as imagens que ilustraram, exclusivamente, a matéria do jornal.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Prédio tomou lugar da casa da irmã de Santos Dumont

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,predio-tomou-lugar-da-casa-da-irma-de-santos-dumont-,808575,0.htm

OESP 09/12/2011

Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli

O número 2.200 (de acordo com a numeração atual) da Paulista é o endereço hoje de um dos muitos edifícios comerciais da efervescente avenida - no térreo funciona uma agência bancária. Mas, em 1921, ali foi erguido o imponente casarão da foto ao lado, residência de Gabriela Dumont Villares, irmã do aviador e inventor Alberto Santos Dumont - a família era composta por oito filhos, cinco mulheres e três homens.


Casarão de Gabriela Dumont, hoje ocupado pelo número 2.200 - Reprodução
Reprodução
Casarão de Gabriela Dumont, hoje ocupado pelo número 2.200


A casa saiu das pranchetas do escritório do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Segundo registros históricos, nos anos 1920, o aviador costumava se hospedar na casa, em suas vindas a São Paulo. Naquela época, ele dividia-se entre a capital paulista, Rio, Petrópolis e Paris.

O estilo do casarão é bastante diferente dos demais projetos de Ramos de Azevedo executados na época. "Foi o Escritório Ramos de Azevedo que propôs uma casa de tijolo aparente cercada de alpendre e com longos beirais, surpreendente no conjunto de obras desse escritório, mesmo considerando-se grande o número de arquitetos que aí trabalhavam", assinala o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto acima foi reproduzida.

Amanhã, o caderno Cidades continua com a série Avenida Paulista, 120 anos - será publicada a história de mais um antigo casarão da avenida-símbolo de São Paulo.

Um legítimo exemplo do estilo de Ramos de Azevedo

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-legitimo-exemplo-do-estilo-de-ramos-de-azevedo-,809075,0.htm

OESP 08/12/2011

Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli

Erguida em 1915, a residência da família Cardoso de Almeida ficava na atual esquina da Avenida Paulista com a Rua Haddock Lobo - onde hoje funciona uma agência bancária. Trata-se de um exemplo muito característico do estilo de arquitetura do escritório de Ramos de Azevedo, como aponta o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, professor da Universidade de São Paulo (USP).

"(O casarão) utiliza um repertório de formas que pode ser visto em outras residências da região", diz Toledo, no livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987), de onde a foto ao lado foi reproduzida. "Um pormenor merece registro. É o terraço descoberto e ligeiramente elevado, colocado na esquina, na concordância dos dois alinhamentos onde, por entre os vãos da balaustrada, é visível o mobiliário de ferro. Esse terraço era local privilegiado para se apreciar o corso nos fins de semana."

Proprietário do casarão, José Cardoso de Almeida era natural de Botucatu, no interior do Estado. Mudou-se para São Paulo ainda no século 19 - bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco em 1890.

Cardoso de Almeida foi deputado estadual e federal, secretário de Estado - da Justiça e do Interior - e chefe da polícia paulista. Também integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Ele morreu em 1933.

Com a história de mais um antigo casarão da via mais simbólica de São Paulo, a série Avenida Paulista, 120 anos, será retomada na próxima segunda-feira.

Os 120 anos de transformações da Avenida Paulista

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-120-anos-de--transformacoes-da-avenida-paulista--,808119,0.htm

OESP 08/12/2011

Por Edison Veiga, Rodrigo Burgarelli


A avenida-símbolo de São Paulo completa hoje 120 anos. Em 1891, quando foi aberta por iniciativa do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, a Avenida Paulista era uma tentativa de criar na cidade uma nova área residencial, distante dos já consolidados bairros de Higienópolis e Campos Elísios e dos arredores da Praça da República. Em 12 décadas, a avenida que nasceu onde só havia mato passou por uma drástica mudança de perfil.

Os casarões que faziam dela, nas primeiras décadas do século passado, um dos endereços preferidos da alta sociedade paulistana deram lugar a edifícios que a transformaram em moderno e efervescente centro comercial e financeiro. De um lado, a cidade ganhou uma paisagem urbana única, que atrai a atenção de turistas, urbanistas e arquitetos de várias partes do mundo. De outro, defensores do patrimônio lamentam a demolição dos símbolos da São Paulo do início do século 20.

"É uma pena que a grande maioria dos casarões tenha desaparecido", diz o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e autor do livro Álbum Iconográfico da Avenida Paulista (Editora Ex Libris, 1987). Hoje, apenas cinco casarões da avenida continuam de pé. Ao longo de sua carreira, Toledo fotografou esses e os que acabaram demolidos - são de seu arquivo muitas das fotos da matéria.

Para mostrar essa transformação, o Metrópole vai publicar ao longo deste mês histórias de antigos casarões da avenida. No portal estadão.com.br, leitores e internautas poderão acompanhar as reportagens, comparar fotos antigas e atuais e ver um infográfico do antes e depois da avenida mais famosa de São Paulo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Castelinho ganha novo plano para restauro

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,castelinho-ganha-novo-plano-para--restauro-,795440,0.htm

OESP Caderno Metrópole C8 07/11/2011

Por Nataly Costa

Com fama de mal-assombrada, construção da Rua Apa foi erguida há quase cem anos

Marcio Fernandes / AE

O castelinho da Rua Apa, na esquina com a Avenida São João, ganhou um projeto de restauro que vai manter a estrutura do simbólico prédio construído em 1912 pela família Reis - e que anos depois seria palco de um crime protagonizado pela mesma família. O projeto do arquiteto Paulo Bastos precisou de duas autorizações do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio de São Paulo (Conpresp), órgão pelo qual o imóvel é tombado: a primeira para reformar o castelinho em si e a segunda, recém-conquistada, para restaurar também a edícula ao lado.

Desde janeiro, a reforma do castelinho estava emperrada por causa dessa edícula, que não é protegida pelo patrimônio e está na "área de tombamento" do castelinho. O projeto previa transformá-la em um prédio baixo, de cinco andares, separado do famoso vizinho da Rua Apa por um jardim. O problema é que o Conpresp não permitia um prédio de cinco andares ali.

Depois de muitas reuniões e conversas, o conselho entendeu que a reforma da edícula valorizaria a arquitetura do peculiar imóvel ao lado e decidiu mudar o dispositivo de tombamento.

Agora, com o imbróglio patrimonial resolvido, falta o dinheiro. A ONG Clube de Mães do Brasil - cuja sede funciona na edícula - e o arquiteto Paulo Bastos estimam a necessidade de R$ 5 milhões para bancar o projeto, recurso que pretendem captar inscrevendo-o na Lei Rouanet. "Já há muitas entidades querendo ajudar, fazer sair do papel. Vamos conseguir", diz Bastos.

A ideia é que o castelinho seja um centro de qualificação e atendimento à população voltado para o público-alvo do trabalho da ONG, que ajuda moradores de rua e dependentes químicos.

Assim que a quantia for captada, Paulo Bastos estima que o restauro da fachada dure cerca de um ano. Depois, vem a parte mais complicada, que é o interior. "Estamos fazendo um levantamento histórico para saber como era a casa naquela época, o piso, as paredes. Parece mórbido, mas na pesquisa levantamos até fichas policiais do crime."

Mal-assombrado. O crime a que Paulo se refere é o que tornou o castelinho uma lenda na cidade: em 21 de maio de 1937, dentro do imóvel, Álvaro César Guimarães Reis matou a mãe, Maria Cândida, e o irmão, Armando, e depois se suicidou.

Sem herdeiros, o terreno passou a ser propriedade da União e ficou abandonado durante anos, servindo de abrigo para "noias" da região. Com a lenda, ganhou fama de casa mal-assombrada.

A reforma também deve se basear em fotos de arquivo de jornais - principalmente de colunas sociais, onde as festas do palacete da família Reis costumavam aparecer com frequência.

"A ideia é deixar o mais fiel possível ao que era, com eventuais intervenções se não acharmos o mesmo tipo de piso ou materiais usados na época", conta Bastos.

Um "alívio" durante a elaboração do projeto é que, mesmo deteriorado e hoje com o Minhocão como vizinho, o castelinho não precisou ser demolido.

"Teremos que eliminar intervenções precárias de sustentação, pilares tortos, esse tipo de coisa. Mas no geral o prédio ainda tem boa estabilidade, paredes resistentes. Mesmo a chuva, que entrava pela cúpula e deixou muita coisa enferrujada, não acabou com a construção."

domingo, 6 de novembro de 2011

Casarão histórico é demolido em uma noite na Paulista

OESP METRÓPOLE 04/11/11

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,casarao-historico-e-demolido-em-uma-noite-na-paulista-,794375,0.htm

Por Rodrigo Brancatelli

"Agora, só restam cinco prédios da era dos barões do café na via; moradores e entidades de preservação do patrimônio reclamam"

Na virada de segunda para terça-feira, um casarão dos anos 1920, branco e de dois andares no número 91 da Avenida Paulista, foi demolido sem chamar a atenção. A rapidez da demolição foi consequência da pressão de moradores e entidades de preservação do patrimônio, que tentavam evitar a destruição. Não deu tempo. Agora, há apenas cinco mansões históricas em pé na via.



No último sábado, houve até um protesto contra a especulação imobiliária na frente do endereço, uma tentativa de forçar uma resposta imediata da Prefeitura. O local deverá agora servir de entrada para mais uma torre comercial - de 10 andares e 40 salas comerciais. "Sua empresa no principal centro financeiro do Brasil", diz o anúncio da empresa, que já tem estande de vendas na região.

"Fizeram tudo isso na calada da noite para ninguém ver, é um absurdo que nos deixa estarrecidos", diz Jorge Eduardo Rubies, presidente da ONG Preserva São Paulo. Em agosto, a entidade entrou com pedido de abertura de processo de tombamento do casarão, conhecido como residência Dina Brandi Bianchi, no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp). Até agora, o pedido não havia sido votado - ou seja, não havia restrições para a construtora demolir o imóvel. Caso o Conpresp tivesse aberto o processo, o local ficaria congelado até uma decisão em relação à importância do casarão.

Mãos atadas. "Isso mostra a inércia do Conpresp. Não se mexeram", diz Rubies. Nas últimas três décadas, a Avenida Paulista perdeu pelo menos 30 casarões, símbolos da alta burguesia cafeeira, quando a via ainda era bucólica, cruzada por bondes camarões da Light.

"As construtoras também não se importam com o patrimônio. Tem uma área livre na esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima: demoliram um casarão há 30 anos e até hoje não tem nada, tem um estacionamento. Por que não fazem um prédio lá, em vez de destruir mais um imóvel? Nós, que tentamos preservar o patrimônio, ficamos sempre de mãos atadas."

O Conpresp afirmou que foi procurado pela construtora, mas que não há impedimento para qualquer obra, pois o local "não é tombado nem está em área envoltória de bem tombado". Por meio de nota, a Even, responsável pela construção, afirmou que "tinha todas as autorizações necessárias".

Mosteiro de São Bento, em Sorocaba, festeja 350 anos em 23/04/2010



José Maria Tomazela, SOROCABA - O Estado de S.Paulo

O monge d. José Carlos Camorin Gatti, de 78 anos, é o guardião solitário de uma relíquia. Ele administra o Mosteiro de São Bento, em Sorocaba, que ontem completou 350 anos. O trabalho de restauração do edifício custará R$ 4 milhões. A obra, iniciada em 2003, revelou que grande parte da estrutura é original.

As paredes de taipa da Igreja de Sant"Anna, a primeira construção do mosteiro, são as mesmas erguidas com barro socado pelos escravos do bandeirante Baltazar Fernandes, seis anos antes da doação feita aos beneditinos, em abril de 1660. A clausura e outras instalações têm alguns anos a menos: foram construídas de taipa de pilão e de torrão, em 1667. "É tudo daquela época. O que havia de tijolo, era na verdade a taipa encamisada, protegida pelo material cerâmico", explica o monge.

O Mosteiro de Sorocaba é o único da congregação beneditina no Brasil que mantém a originalidade. "Outros mais antigos, como o de Salvador, Olinda (PE), e mesmo os de São Paulo e Rio, já não possuem os prédios originais", afirma o pesquisador Luiz Almeida Marins Filho.
O prédio atual de São Paulo é do século 20. O mosteiro de Olinda foi destruído por um incêndio durante a invasão holandesa em 1632 e a reconstrução levou décadas. "(O Mosteiro de Sorocaba) é um dos únicos no mundo que tem mais de três séculos com a presença ininterrupta dos monges", destaca Martins Filho. O mosteiro guarda preciosidades como o altar-mor esculpido com madeira, com lâminas de ouro aplicadas no retábulo, trazido de Portugal no século 18.

Homenagens.

Os Correios lançaram um selo dos 350 anos, reproduzindo quadro da artista Sonia Vubleski. E a Casa da Moeda lançou medalhas de bronze (R$250), prata (R$400) e ouro (R$20 mil), à venda no local.

Serviço
O MOSTEIRO FICA ABERTO À VISITAÇÃO DE SEGUNDA A SEXTA, DAS 6H30 ÀS 11 E DAS 13H30 ÀS 17 HORAS; AOS SÁBADOS, DAS 6H30 ÀS 11 H E DAS 17 ÀS 20 HORAS; E AOS DOMINGOS, DAS 8 ÀS 11 H. A MISSA É CELEBRADA NA HORA QUE ANTECEDE O FECHAMENTO

Na internet, a história dos imóveis derrubados

Rodrigo Brancatelli e Rodrigo Burgarelli - O Estado de S.Paulo


OESP Cidades C3 24/10/10


Casas e palacetes são fotografados antes de serem destruídos e publicados em blogs



Em São Paulo há aficionados por praticamente tudo - selos, notas, moedas, trens e composições do Metrô e até pelas 13 linhas de trólebus que ainda funcionam. Com o patrimônio da cidade não poderia ser diferente. Mesmo com todas as demolições, São Paulo ainda conserva belos sobrados, casarões e palacetes - e não falta quem gaste seu tempo livre para registrá-los enquanto ainda estão de pé.


O resultado desse trabalho voluntário pode ser encontrado nos sites e blogs sobre o patrimônio arquitetônico de São Paulo. No São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br), por exemplo, criado em janeiro de 2009, são quase mil visitas diárias, de pessoas interessadas em conhecer a história dos 300 imóveis imortalizados nas fotos tiradas por colaboradores ou enviadas pelos próprios visitantes.

O fotógrafo Douglas Nascimento, um dos criadores do site, diz que gasta três horas diárias com o hobby - que já virou até ganha-pão. "Várias revistas me convidam para fazer fotos e reportagens sobre patrimônio, e isso começou depois do site."

O Piratininga.org é outra página conhecida sobre o patrimônio paulistano na internet. Ela foi criada pelo atual presidente da Associação Preserva São Paulo, Jorge Eduardo Rubies, um advogado que passa noites e fins de semana fotografando e escrevendo sobre a história da cidade. Desde 2005, ele mantém um fórum virtual para discutir temas ligados a urbanismo e ao patrimônio da capital - hoje, mais de 400 inscritos postam mensagens diariamente.

"Patrimônio histórico significa beleza da cidade e é sinônimo de qualidade de vida. É por isso que lutamos tanto", diz. "Tenho certeza de que nunca houve uma onda de demolições tão grande quanto a que ocorre hoje nas ruas de São Paulo."

O pesquisador Ralph Giesbrecht também pensa dessa maneira. Ele é criador do maior site sobre patrimônio ferroviário do País (www.estacoesferroviarias.com.br) e está organizando um novo portal só sobre as ruas paulistanas junto com Douglas, do São Paulo Antiga. "É um absurdo toda vez que uma casa é demolida. Acho prédio muito feio, não sei como alguém pode querer colocar uma coisa dessas no lugar de casarões tão bonitos", diz ele, que tem um acervo com mais de 100 mil imagens antigas, colecionadas há mais de 40 anos.

Douglas e Ralph cederam as fotos publicadas acima, que mostram as mudanças na tradicional Rua Domingos de Morais, na Vila Mariana, zona sul da capital - um dos locais que melhor exemplificam a mudança pela qual a cidade passou em 50 anos. 


Obs. de Hélio Bertolucci Jr: Apesar de não ter sido citado na matéria mesmo sendo entrevistado, tem meu trabalho que com certeza não faz feio a história e preservação das memórias arquitetônicas da cidade. Chega de Demolir S!P, já que o próprio Estadão publicou hoje materia sobre os milhares que imóveis que são demolidos diariamente.

Todo poderoso - De salão de hotel a espaço cultural

OESP 04/04/2011 Cidades C6

Por Edison Veiga

Ali na Praça Ramos de Azevedo, pertinho do Teatro Municipal, funcionava o Esplanada, inaugurado em 1923 como o mais elegante hotel de São Paulo. Desde os anos 1960, o prédio abriga a sede da empresa Votorantim. Há quatro anos, os arquitetos do escritório Metro foram lá chamados para projetar uma área de exposições.

"Vimos um salão no térreo, provavelmente uma área de serviço do antigo hotel, que era usada como setor de arquivo morto pela Votorantim", conta o arquiteto Martin Corullon, um dos responsáveis pela obra. "Era uma área incrível (de cerca de 600 metros quadrados) e fizemos uma intervenção forte."

Em 2008, era aberto o Espaço Votorantim, que consumiu investimentos de R$ 1,5 milhão e conta, por meio de documentos textuais, fotos, vídeos e livros, um pouco da história industrial do Brasil. Com agendamento prévio, é possível visitar o endereço gratuitamente. Os telefones são(11) 2159-3297 ou (11) 3224-7070 e o e-mail é
contato@memoriavotorantim.com.br. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 10 horas às 16h30.

Qual foi a primeira rua asfaltada de São Paulo?

OESP 04/04/2011 Cidades C6


Por Edison Veiga



A Avenida Paulista. Com material importado da Alemanha, a via recebeu asfalto em 1909 - quando ainda não tinha a vocação empresarial de hoje, mas abrigava dezenas de casarões dos barões do café.

E quando ela foi inaugurada? Há quase 120 anos, em dezembro de 1891, idealizada pelo engenheiro Joaquim Eugênio de Lima (1845-1902). Na época, cogitou-se homenageá-lo, batizando a via com seu nome. Mas ele não quis a honraria, dizendo que teria de ser "Avenida Paulista em homenagem aos paulistas". Outros nomes aventados foram Avenida das Acácias e Prado de São Paulo.

Os guardiões de um patrimônio em ruínas

Por Vitor Hugo Brandalise

OESP METRÓPOLE C10 30/09/2011

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-guardioes-de-um-patrimonio-em-ruinas,779342,0.htm

"Prédios tombados de São Paulo, de notável importância histórica, só não estão no chão porque alguém toma conta enquanto os donos não decidem o futuro desses edifícios"


Vila operária em Perus (Filipe Araújo / AE)

A Fábrica de Cimentos Portland, de onde saiu o concreto que construiu Brasília, no fim dos anos 1950, está em ruínas, escondida no extremo norte da capital paulista. O antigo Santapaula Iate Clube, luxuoso projeto do arquiteto João Batista Vilanova Artigas à beira da Represa do Guarapiranga, também luta para ficar de pé. Na Mooca, zona leste, um dos prédios mais representativos do antigo polo têxtil do bairro, com maquinário desativado há décadas, está abandonado. São edifícios tombados, de notável importância histórica, que foram deixados de lado com o tempo e só não estão no chão hoje porque há alguém que tome conta.

Enquanto os proprietários não decidem o futuro dos prédios, zeladores fazem as vezes de cuidadores desse patrimônio. A Expedição Metrópole visitou algumas das ruínas urbanas da capital.

São prédios históricos abandonados, que retratam diferentes fases da história da cidade, hoje transformados em residências de poucos - e, de certa forma, privilegiados - moradores.

Vila Triângulo. Em Perus, na zona norte, a vila operária da Fábrica de Cimentos Portland vive seus últimos dias. O vilarejo - que já serviu de abrigo a 70 famílias de operários da primeira fábrica de cimento do País, inaugurada em 1926 - foi invadido, inicialmente, por usuários de drogas e agora passa por um processo de desocupação comandado pelos atuais proprietários, o Grupo J.J.Abdalla. A antiga capela de São José, que dá aparência ainda mais idílica ao arborizado local de ruas de terra, não celebra missas desde a década de 1990.

Apenas três famílias vivem atualmente nas casas - todos familiares de antigos funcionários. "A vila era o parque de diversões de Perus. Tinha festa no Clube Caramanchão, aqui dentro mesmo, e pesca nesse córrego aí", aponta o eletricista José Pedroso, de 63 anos, morador de umas das três casas que ainda mantêm portas e janelas originais da antiga vila operária.

Pedroso trabalhava na manutenção da fábrica, um complexo de moinhos de cimento, depósitos de minerais e unidades de ensacamento - ainda está tudo ali, mas em péssimas condições. "Havia filas de caminhões do Brasil inteiro, que passavam dois dias para buscar cimento aqui", conta o eletricista.

Alda Giovanini, de 73 anos, nasceu na vila operária - batizada Vila Triângulo, por causa da forma em que se dispõem as casas. "Chegava a noite e todo mundo vinha para a varanda, para conversar sobre amenidades e também sobre política", diz Alda, filha e irmã de funcionários. A família dela participou ativamente da greve de dez anos na fábrica, mais longa paralisação da história do País. "Uma pena que esteja assim, abandonado. O que aconteceu aqui foi importante para o Brasil em diversos momentos. Parece que ninguém mais lembra."

A Fábrica de Cimentos Portland - de onde também saiu o cimento que concretou o Vale do Anhangabaú - é tombada por órgãos de patrimônio do Estado e do Município desde 1992. Os donos querem construir um condomínio, mas ainda não há projeto - em casos assim, a Prefeitura costuma exigir preservação ao menos parcial das ruínas.

"Algo tem de ficar de pé, como testemunho. Vem gente querendo filmar, estudantes de arquitetura querendo aprender. Não pode simplesmente derrubar", disse Raimundo de Souza, de 67 anos, que toma conta do que restou da antiga fábrica.

Luxo e casarões. A estrutura do Santapaula Iate Clube, na beira da Represa do Guarapiranga, na zona sul, é de dar inveja a clubes de luxo. O conjunto de dois prédios unidos por túnel por baixo da Avenida Atlântica (antiga Robert Kennedy) tem piscina de 1,2 mil metros quadrados, três salões de festas, duas saunas completas (com antigas mangueiras de alta pressão para jatos d'água quente), salões de TV, churrasqueira e seis pistas de boliche. Também abriga a célebre garagem de barcos de Artigas, com vão livre e construída em concreto aparente. Há mais de 20 anos, o complexo serve como depósito e tem sinais de abandono.

Quem toma conta é Sebastião Profeta dos Santos, de 43 anos, que sempre trabalhou ali. "Entrei aos 17 anos, levantando pinos do boliche, e nunca tive outro emprego. Os maiores bailes de carnaval eram aqui, vinha gente da cidade toda", diz Sebastião, que vive com a mulher e três filhos em uma casa improvisada no antigo escritório da presidência do iate clube. "Quando faço vistoria, fico lembrando do pessoal na piscina, das festas chiques, dos barcos na represa. Dá saudade."

No ano passado, foi apresentado projeto que preserva o complexo e o transforma em hotel, mas o proprietário ainda busca recursos para a obra.

Na Rua Gabriel dos Santos, em Santa Cecília, região central da capital, há oito casarões tombados, a maioria construída na primeira metade do século 20 pelos endinheirados barões do café. Duas das mansões de época, vizinhas na altura do número 800 da via, estão abandonadas há pelo menos dez anos. "Dá trabalho porque a casa é cheia de detalhes", afirma o zelador de um dos prédios, Osmar de Brito, de 39 anos. "Uma das tarefas é limpar os vitrais e os ornamentos de ferro. A outra é tapar as goteiras. Dá medo de que um dia isso tudo caia." Os proprietários dizem não ter condições de restaurar o casarão cuidado por Brito, erguido nos anos 1920.

Outra região da cidade pródiga em construções abandonadas é a Mooca, bairro símbolo da primeira industrialização de São Paulo. Construída na década de 1910, a Fábrica de Tecidos Labor é exemplo da degradação que toma conta dos antigos galpões industriais de arquitetura inglesa.

"O casarão principal, com seus vitrais e o chão todo trabalhado em madeira, mostra a importância que os antigos proprietários das fábricas davam às sedes administrativas da empresa. Isso tem de ser restaurado", diz Douglas Nascimento, que se dedica a fotografar construções abandonadas em São Paulo. "A cidade está cheia dessas 'ruínas'. Mostra a falta de importância que a sociedade, seja proprietário ou poder público, dedica ao patrimônio histórico."

O improviso resume a história da cidade

OESP METRÓPOLE C8 23/10/2011
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-improviso-resume-a-historia-da-cidade-,789139,0.htm

"Ganhador do Jabuti de Arquitetura critica modelo 'provinciano' e diz que os planejamentos são feitos a toque de caixa"

Nataly Costa, de O Estado de S.Paulo


Reforma do Viaduto do Chá, para permitir a passagem de bondes elétricos, em 1902.


Foram 30 anos de pesquisa, 25 mil fotos e centenas de informações sobre a história de São Paulo. A ideia era compilar tudo em cinco volumes, depois "resumidos" a três, cada um com quase 200 páginas. Foi o que o arquiteto e professor da Universidade de São Paulo (USP) Nestor Goulart Reis precisou para contar e ilustrar com fotos os Dois Séculos de Projetos no Estado de São Paulo, livro que ganhou na segunda-feira o prêmio Jabuti de Arquitetura e Urbanismo.

O que, na sua opinião, resume a história da urbanização de São Paulo? Falta aos políticos um melhor entendimento?


O improviso resume essa história. Nada foi feito de forma organizada, os Planos Diretores não são respeitados. Fizeram algumas obras pontuais, mas o conjunto não tem coerência. A visão política ainda é rural, de coronéis. Os administradores não se sentem representados pelo espaço urbano. Eles tentam vender a imagem de que estamos "devagar, mas chegando lá". Não: estamos devagar, mas ladeira abaixo.

A urbanização piorou a qualidade de vida dos moradores?


Não necessariamente. Em 1955, por exemplo, já com 3 milhões de habitantes, era uma cidade que funcionava para ricos e pobres. A qualidade de vida já foi melhor - e de vida urbana mesmo. Hoje, até para a alta renda, a cidade tem pouquíssimos espaços confortáveis. Tirando Higienópolis, parte do Morumbi e muito pouco dos Jardins, existe pouca qualidade urbana. Um arquiteto americano veio aqui uma vez e me disse: "Vocês são loucos, o lugar mais bonito de São Paulo é em volta das represas! Vocês têm essa paisagem magnífica e ficam apinhados entre o Tietê e o Pinheiros!". E o entorno das represas é degradado, jogamos tudo isso fora.

O avanço da especulação imobiliária e as construções desordenadas prejudicaram a cidade?

A administração pública também participa das decisões do mercado imobiliário - se não participasse, não existiria tanta extravagância. Acontece que os empresários e as construtoras também pagam o preço de ter uma cidade desorganizada. O fato de a cidade ser como é hoje prejudica o mercado. Veja o eixo da (Avenida Engenheiro Luís Carlos) Berrini, com ruas estreitas, onde não cabe mais carro. Todo mundo quer investir no mesmo lugar. Por outro lado, não há alternativas atraentes em outras partes. Existe um jogo histórico entre o capital privado e o público: em alguns períodos, manda o capital privado; depois, ele sai, entra o Estado. E aí não há continuidade nem visão de conjunto.

Dá para dizer que a cidade é modelo de alguma coisa?

Deveria servir de modelo. A Paulista deveria ser um brinco. E olha como é caótica. Várias regiões deviam ser modelos, as áreas periféricas deveriam ser melhoradas. São Paulo é uma metrópole de alcance mundial, com estrutura provinciana. Temos tanto potencial e aproveitamos tão pouca coisa. Os habitantes de São Paul mereciam mais.

Falta planejamento?

Os planejamentos são feitos a toque de caixa. São os projetos para uma cidade que determinam custo, organização, qualidade das obras. Mas não existe planejamento para 30 anos, só para 2, 3 anos.

O que pode melhorar?

O transporte público é precário. Dizem que São Paulo é uma cidade difícil, que as pessoas levam 2h do trabalho para casa. Não é verdade. Tem gente que leva 3h, 4h em dias razoáveis. O trânsito é a segunda jornada de trabalho. O culto ao carro existe, mas será que uma pessoa humilde gastaria dinheiro para comprar e manter um carro se o transporte público funcionasse? Se você for para Londres ou Paris, o metrô é o meio de ir ao trabalho. As pessoas não pensam em outro.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O espírito das casas

Por José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo 28/03/2011 C6 Evidências de mudanças sociais e de mentalidade ocorridas na sociedade brasileira, ao longo dos séculos, são encontradas no espírito das casas. Aqui em São Paulo, de um lado, na Casa do Bandeirante, no Butantã, de modelo do século 17. Na época, o Rio Pinheiros, ainda sinuoso, passava entre a casa e o que é hoje a avenida de acesso à Cidade Universitária. Com a retificação do rio, o que era fundo virou frente. A casa tem duas metades iguais, com os respectivos alpendres. Na reconstituição de 1954, de Paulo Florençano, uma delas é a parte social e masculina, voltada para "fora", para a "frente" e para o "caminho", que era o rio. A outra, é a parte simbolicamente reclusa e feminina, voltada para "dentro" e para os fundos. Era o lugar da cozinha e do trabalho doméstico das mulheres. Era o lado dos quartos das mulheres solteiras da família. Constituía grave ofensa um estranho acessar a casa por esse lado. Ainda é assim nos ermos e lonjuras do Brasil. Na parte da frente, ficava a sala de eventual recepção dos de fora, mas convidados, os estranhos à família, mesmo hóspedes, a cuja presença as mulheres não compareciam. De um lado do alpendre da frente, a capela, aberta aos de fora e aos escravos; lateralmente aberta para o cômodo vizinho, de dentro, de onde as mulheres acompanhavam a reza. No lado oposto, o quarto liminar de hóspedes, sem comunicação com o interior da casa. A Casa do Bandeirante é um documento arquitetônico da sociedade centrada na família, voltada para dentro e oculta ao olhar perigoso dos de fora. Outra face. No outro extremo da Região Metropolitana, em Paranapiacaba, num alto, está a casa que foi do chefe dos engenheiros da São Paulo Railway, de onde se tem vista da vila e do pátio de manobras. A vila era lugar de apoio para a descida e subida da serra pelos trens da ferrovia. As casas operárias foram concebidas segundo os valores da indústria e do trabalho livre e assalariado, os trabalhadores sujeitos a controle e vigilância, não mais os da chibata, mas os do olhar. Eram casas voltadas para fora. As pessoas tinham de ser vistas para serem controladas. Segundo o arquiteto Marco Antonio Perrone Santos, a construção da vila seguiu os princípios do Panopticon, o modelo das prisões europeias a partir do século 18. A vigilância era possível pela intensa visualidade do morador. No medo de ser visto em transgressão, cada um internalizava um feitor imaginário e vigiava a si mesmo. Ser visto implicava mais em fingir do que em obedecer. Uma sociedade moderna, teatral, do fingimento público e da autenticidade privada. É nessa polarização dos tipos de habitação que se pode compreender o advento da modernidade no Brasil e a radical transformação das mentalidades, no perecimento da família patriarcal e no nascimento social do indivíduo.

O enjeitado da Rua da Freira

Por José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo 11/04/2011 C6 A Rua Senador Feijó assim se chama, desde 1865, em memória do padre Diogo Antônio Feijó, nascido em 1784, ali abandonado em casa do padre Fernando Lopes de Camargo, que com sua irmã o batizou na Igreja da Sé. Os padrinhos moravam no fim da rua, então Rua da Freira, na esquina da Rua da Casa Santa, atual Cristóvão Colombo, caminho da senzala do Convento de São Francisco. Naquele canto histórico do centro, onde estão hoje a loja Suelles e o Banco Real, Feijó foi do nascimento à morte, em 1843. Diz o historiador J. J. Ribeiro: "finou-se obscuro, pobre e desconhecido em sua modesta casa da Rua da Freira..." A geografia política de Feijó, no entanto, deu uma grande volta. Ordenado sacerdote, foi vereador em Itu, deputado às Cortes de Lisboa, em 1822, deputado geral, senador do Império, ministro da Justiça. De 1832 a 1835, morou no Sítio do Capão, no bairro da Água Rasa, onde é hoje a Unicsul. Foi regente do Império na menoridade de d. Pedro II. Eleito bispo de Mariana (MG), engavetou a nomeação e recusou a mitra. Cumpriu um curioso destino até depois de morto. Era filho natural de uma irmã do Padre Camargo. Em 1856, um contraparente escreveu que era ele "fruto de um grande crime". Provavelmente, Feijó nascera de um incesto. Por aí, teria incomodado pouco. Mas Feijó se tornara um dos grandes do Império, o guardião do Trono. Não podia, pois, ser também o mestiço que diziam. Seria exumado três vezes. Em duas ocasiões, para desmentir a mestiçagem, afinal comprovada. A mãe, no entanto, era de "nobilíssima raça", ressalvou um comentador. Um médico sobre ele escreveu, em 1882: "entendo não ser pecha ter entre os avós um pouco de sangue índio, que entendo muito melhor que o africano". Problema, mesmo, era o italiano, cuja imigração já começara, disse ele. Feijó foi liberal exaltado e defendeu o fim do celibato sacerdotal. A ilegitimidade da sua origem e suas ideias foram fatores de seu estigma. Em Itu, onde iniciou a vida política, o mandão local, Goes e Aranha, considerava-o "homem perigoso e cheio de ideias criminosas de liberdade". O arcebispo da Bahia, na polêmica sobre o celibato, definiu-o como "homem de poucos conhecimentos". Preso pelo Barão de Caxias, em Sorocaba, na Revolução Liberal de 1842, foi banido para o Espírito Santo. Caxias o desdenhou: "pelos disparates que diz, estou capacitado de que sofre desarranjo mental". Subversivo, ignorante e louco foi o perfil que do grande e ousado liberal traçaram os poderosos do Império. Mas, em 1918, o grande paulista que foi o arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva deu-lhe túmulo de honra ao lado do Cacique Tibiriçá, circundados ambos pelos bispos sepultados na cripta da Catedral de Nossa Senhora da Assunção da Cidade de São Paulo do Campo de Piratininga, cuja obra se iniciava.

Só falta o cheiro de café neste tour pelo centro de SP

Por Edison Veiga - O Estado de S.Paulo 11/04/2011 C6 Entre um golezinho e outro, muita história para ser contada. O café é protagonista de um passado não tão remoto assim e ajuda a entender por que São Paulo se tornou símbolo de pujança econômica. E é um pouco disso que conta o Roteiro do Café, passeio especial desenvolvido pelo Projeto Turismetrô, em parceria com uma marca de café. Oferecido desde 12 de fevereiro, o tour tinha previsão para se encerrar neste mês. O sucesso, porém, foi tão grande - cerca de mil pessoas já participaram da caminhada - que o roteiro teve sua programação prorrogada até 19 de junho. "Desenvolvemos o roteiro na área central, trabalhando com todas as reminiscências e influências que o café apresenta na cidade", explica o historiador Cadu de Castro, responsável pela escolha do itinerário. Saída. O ponto de partida é a Estação Sé do Metrô. Na caminhada até a Estação São Bento, o guia explica como a economia baseada na cultural cafeeira proporcionou o desenvolvimento urbano na virada do século 19 para o 20. "Ali, podemos observar a localização de algumas casas de café que marcaram a história de São Paulo", lembra o historiador. "Caso, por exemplo, de Maria Punga, uma quituteira negra que oferecia café à clientela na própria varanda de sua casa. Seus clientes, em geral, eram os estudantes do Largo São Francisco." Sua casa é considerada a primeira cafeteria da cidade. No caminho, vale dar uma atenção especial para os mais antigos arranha-céus da capital paulista, como o Edifício Guinle, projetado por Hyppolito Gustavo Pujol Júnior. Com 36 metros de altura e sete andares, ficou pronto em 1913. "É uma amostra de como a cidade se desenvolveu, sobretudo com o dinheiro do café", pontua Castro. Tanto no Guinle quanto na sede do Centro Cultural Banco do Brasil, ramos de café estão presentes como adornos decorativos na própria construção do prédio. O centro cultural, aliás, foi a sede da primeira agência paulistana do Banco do Brasil. O Largo do Café, é claro, também está no roteiro. "A partir do fim do século 19, o local abrigava uma espécie de bolsa informal do café, com pregões e muita negociação", explica o historiador. Produção cafeeira. Então é hora de tomar o metrô, na Estação São Bento, e ir até a Luz. Ali, a própria estação é a estrela: afinal, sua construção é consequência direta da produção cafeeira. "Havia um problema de escoamento da produção, boa parte sendo transportada por meio de carros de bois ou de burros ", conta Castro. "A partir de 1867, com a inauguração dessa linha de ferro, não só o produto era levado até Santos de forma mais rápida como os imigrantes que vinham para trabalhar nas fazendas chegavam a São Paulo de trem. Não à toa, se tornou a estação ferroviária mais lucrativa do Brasil." Nas redondezas da estação, outra parada do tour é a Vila dos Ingleses. O local, hoje tombado como patrimônio, foi construído em 1915 para abrigar funcionários da ferrovia. Do Jardim da Luz, os participantes são convidados a observar o prédio da Pinacoteca do Estado, aberto em 1905 como Liceu de Artes e Ofícios. "O desenvolvimento de São Paulo era grande, mas faltava mão de obra nacional para a construção civil. Por isso, o liceu foi criado", comenta o historiador. Findo o passeio, a vontade de todos é a mesma: tomar um cafezinho. Campanha O Turismetrô começou em janeiro de 2006. Já foram atendidas mais de 37 mil pessoas. Existem 5 roteiros: Sé, Luz, Teatro Municipal/Largo São Francisco, Paulista e Memorial da América Latina. SERVIÇO DATAS: 9 E 10/4; 16 E 17/4; 30/4 E 1/5. SITE: WWW.CAFEMOKA.COM.BR. PREÇO: UM BILHETE DO METRÔ (R$ 2,90)

Todo modernoso - De salão de hotel a espaço cultural

OESP 04/04/2011 Cidades C6 Por Edison Veiga Ali na Praça Ramos de Azevedo, pertinho do Teatro Municipal, funcionava o Esplanada, inaugurado em 1923 como o mais elegante hotel de São Paulo. Desde os anos 1960, o prédio abriga a sede da empresa Votorantim. Há quatro anos, os arquitetos do escritório Metro foram lá chamados para projetar uma área de exposições. "Vimos um salão no térreo, provavelmente uma área de serviço do antigo hotel, que era usada como setor de arquivo morto pela Votorantim", conta o arquiteto Martin Corullon, um dos responsáveis pela obra. "Era uma área incrível (de cerca de 600 metros quadrados) e fizemos uma intervenção forte." Em 2008, era aberto o Espaço Votorantim, que consumiu investimentos de R$ 1,5 milhão e conta, por meio de documentos textuais, fotos, vídeos e livros, um pouco da história industrial do Brasil. Com agendamento prévio, é possível visitar o endereço gratuitamente. Os telefones são(11) 2159-3297 ou (11) 3224-7070 e o e-mail é contato@memoriavotorantim.com.br. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 10 horas às 16h30.

Qual foi a primeira rua asfaltada de São Paulo?

OESP 04/04/2011 Cidades C6 Por Edison Veiga A Avenida Paulista. Com material importado da Alemanha, a via recebeu asfalto em 1909 - quando ainda não tinha a vocação empresarial de hoje, mas abrigava dezenas de casarões dos barões do café. E quando ela foi inaugurada? Há quase 120 anos, em dezembro de 1891, idealizada pelo engenheiro Joaquim Eugênio de Lima (1845-1902). Na época, cogitou-se homenageá-lo, batizando a via com seu nome. Mas ele não quis a honraria, dizendo que teria de ser "Avenida Paulista em homenagem aos paulistas". Outros nomes aventados foram Avenida das Acácias e Prado de São Paulo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um mercado persa ao lado do Tamanduateí

OESP CIDADES 30/01/2011

Bruno Tavares e Diogo Zanchetta

Primeiro registro de camelôs em São Paulo é de 1912, quando libaneses começaram a estender tapetes em botes enfileirados ao lado do rio

O primeiro camelódromo de São Paulo era uma espécie de mercado persa às margens do Rio Tamanduateí. No início do século, por volta de 1912, a Rua 25 de Março ainda tinha a alcunha de "Rua de Baixo" quando sírios e libaneses abriam suas malas com mostras de tecidos contrabandeados. Mercadorias como tapetes e ervas medicinais também eram estendidas por eles em botes que ficavam enfileirados na beira do rio.

O burburinho causado pelo comércio dos "mascates turcos", como eram chamados, atraía gente de toda a cidade. Os libaneses faziam pagamentos parcelados e davam descontos como nenhum outro lojista da época. A região era a mais movimentada de São Paulo e passagem para quem ia do centro para a Mooca, na zona leste, ou vice-versa.

"O pagamento por prestação chegou em São Paulo com os camelôs libaneses e sírios. Eles usavam até mesmo códigos para demarcar a porta dos compradores que pagavam em dia. Como não sabiam o nome das cores, eles também vendiam tapetes na base da comunicação visual, por gestos", conta o historiador e urbanista Benedito Lima de Toledo, da USP. "Eram os "turcos da prestação"", acrescenta Toledo.

As barracas dos ambulantes sírios e libaneses aos poucos viraram lojas do comércio atacadista, principalmente de tecidos. Mas o costume de abordar os clientes nas ruas permaneceu, assim como a oferta de preços sempre mais baixos que os da concorrência. Com a chegada de portugueses, italianos e chineses, a partir de 1940, a Rua 25 de Março também passou a abrigar lojas de bijuterias e de miudezas.

Com o passar dos anos, surgiram ambulantes que vendiam a preços reduzidos as mesmas mercadorias das lojas da 25. Era comum ver moradores de áreas mais afastadas da zona leste gritando no meio da rua "olha a bola de gude, olha o tecido, olha o anel!" As mercadorias dos ambulantes tinham qualidade inferior. O apresentador Silvio Santos, por exemplo, vendeu canetas como camelô no centro da capital até o início da década de 1950.

Toledo avalia que a ocupação das ruas que se deu na capital a partir do contrabando de eletrônicos, no início dos anos 1980, não tem paralelo em nenhum lugar do mundo. "O centro de São Paulo tem espaço para a venda legal dessas mercadorias escoadas pelos ambulantes. É um atraso permitir a ocupação desordenada do centro com um comércio que não tem obrigação social nenhuma. As autoridades precisam criar um ambiente no comércio propício para a entrada dos clandestinos na formalidade", avalia o historiador. Ele vê como positiva a repressão adotada pela Prefeitura em parceria com a Polícia Militar contra os informais. "Camelô também é questão de segurança pública", conclui Toledo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Seis roteiros para curtir São Paulo a pé (e sem pressa)

OESP Cidades C8 de 28/11/2010

Edison Veiga

SPTuris lança, em site, serviço para que as pessoas montem seus passeios temáticos pela cidade; mapa é criado automaticamente

A ideia é tão simples que parece uma daquelas que você se pergunta por que não tiveram antes. A SPTuris - empresa oficial de turismo da cidade de São Paulo - está usando o serviço de mapas do Google para criar roteiros temáticos para quem quer conhecer a capital. A pé.

Por enquanto, há seis deles disponíveis: Centro de São Paulo; Cultura na Avenida Paulista; Cultura Oriental na Liberdade; Prédios Históricos do Centro; Rua Oscar Freire e Arredores e Vila Madalena. Eles podem ser conferidos no link http://migre.me/2vQsw. "Nossa meta é chegar a 12", adianta o diretor de Turismo e Entretenimento da SPTuris, Luiz Sales.

Mas a graça da ferramenta não está somente nos temas dos roteiros. A partir das sugestões predefinidas pelo site - há cartões-postais conhecidos, lojas bacanas e bares e restaurantes famosos, entre outros pontos peculiares de cada região -, o turista pode selecionar os que mais lhe interessam. A ferramenta cria, então, o roteiro com os itens dispostos na melhor ordem para a pessoa fazer a pé. Aí, é só imprimir o mapa.

Claro que nem tudo é perfeito. Como o sistema é automático, pode acontecer de algum trecho ser íngreme demais ou, pior, não ter calçadas. "A gente até coloca o alerta no site, pois sabemos que alguns locais são de difícil acesso", lembra Sales. "Mas nosso propósito é mostrar que São Paulo é, sim, uma cidade que pode ser explorada a pé."

Repercussão. A iniciativa é bem-vista por pessoas do ramo. O historiador Roney Cytrynowicz, organizador de uma coleção de guias a pé publicados desde 2007 pela Editora Narrativa Um, lembra que muitos, paulistanos ou turistas de fora, sentem prazer em conhecer a cidade a pé. "O site me pareceu bem interessante. É um trabalho muito legal", comenta, com o conhecimento de causa de quem participa, mensalmente, de passeios do tipo, organizados pela sua editora em parceria com um portal de arquitetura.

Há seis anos à frente do projeto Caminhada Noturna Pelo Centro, o empresário Carlos Beutel - que contabiliza 258 passeios realizados, incluindo o da última quinta - é outro entusiasta da ideia. "Só a pé você consegue descobrir a cidade, observar a riqueza dos detalhes. Até hoje me espanto com o encantamento das pessoas nesses tours", diz.

Nos hotéis, a memória do centro

OESP Cidades C9 de 07/11/2010

Rodrigo Brancatellli

Nos hotéis, a memória do centro

Em viagem por São Paulo em 1819, o escritor e botânico francês Auguste de Saint-Hilaire classificou a única estalagem das redondezas como "imunda" e "deplorável". Era reflexo de uma cidade ainda provinciana, quase um vilarejo, com menos de 25 mil habitantes, sem ruas retificadas ou condições sanitárias adequadas. Desde então, a inauguração de hotéis em São Paulo esteve sempre intimamente ligada ao desenvolvimento paulistano, um testamento das transformações sociais e urbanísticas da metrópole em formação.

A mesma tendência ocorre atualmente, mesmo na São Paulo de 11 milhões de habitantes, 410 hotéis e 42 mil quartos. Depois de anos sem novidades, quase como nos tempos de Saint-Hilaire, o setor hoteleiro no centro voltou a ter investimentos em 2010, com a inauguração de dois hotéis e a promessa de três grandes bandeiras nos próximos anos nas imediações das Ruas São Bento e Doutor Vieira de Carvalho. Novamente, reflexo de uma cidade que quer recuperar sua memória e voltar a ocupar seu centro histórico.

A região central sempre foi o principal polo hoteleiro da capital", diz o engenheiro Caio Calfat Jacob, consultor hoteleiro e diretor do Secovi-SP. Com base em uma pesquisa de quase cinco anos, ele vai participar, no próximo dia 27, do evento 100 Anos da Hotelaria no Centro de São Paulo, que contará com palestras e um passeio pelos endereços que abrigaram os principais hotéis neste período (informações e inscrições pelo telefone 5591-1304). "O problema foi que, a partir de 1980, os setores bancário, econômico e político de São Paulo foram para outros bairros mais afastados e os hotéis também se mudaram. Mas agora há indícios que apontam que as grandes redes estão apostando novamente no centro, com a construção de empreendimentos ou a reforma de antigos."

Como os hotéis são elementos marcantes na paisagem das cidades, é possível traçar um paralelo da cronologia do setor hoteleiro no centro de São Paulo com a própria evolução arquitetônica e socioeconômica da capital - dos pioneiros Hotel Palm e Grand Hotel até os renomados Ca"d"Oro e Hilton, suas histórias ajudam a entender o crescimento da cidade. "O setor hoteleiro representa, assim, o desenvolvimento de São Paulo", diz Jacob.
OESP Cidades C4 de 25/07/2010

Diego Zanchetta


Em 1720, para combater o contrabando de carnes para a Vila de Santos, os vereadores estabeleceram que o açougue da cidade funcionaria dentro da nova sede da Câmara, construída no primeiro andar de um sobrado no Largo do Ouvidor, no cômodo ao lado da cadeia. Todo criador de gado teria de cortar suas carnes no local, sob vigilância de um mercenário contratado pelos parlamentares.

E o "envio da carne para o mar", segundo as atas da Câmara, tinha uma punição para o infrator: um ano na "Fortaleza de Bertioga".

Vereador faltou? Multa de dez cabeças de gado

OESP Cidades C4 de 25/07/2010

Diego Zanchetta

Era uma tarde chuvosa do dia 13 de março de 1621. Seria debatida na sessão da Câmara Municipal, na Rua do Carmo, a abertura de novas ruas na Vila de Piratininga. Mas o procurador do conselho, vereador e fazendeiro João Rodrigues Moura se ausentou sem justificativa e a discussão sobre o "arruamento" foi suspensa. Seus pares, então, aplicaram pela primeira vez a pena prevista para a falta parlamentar: pagamento de um tostão ou dez cabeças de gado.

Nos anos seguintes, até o início do século 19, era comum o vereador ausente da sessão ser multado. Alguns parlamentares, moradores da região onde hoje fica o distrito de Santo Amaro, tinham de percorrer três horas a cavalo para chegar ao centro e não aceitavam as justificativas de falta de quem morava na vila, perto do Paço Municipal. Foi o caso de Moura, que vivia num sobrado ao lado do Rio Anhangabaú.

Outra punição aos parlamentares foi adotada na sessão do dia 14 de março de 1665: ao presidente da Câmara que andasse a cavalo sem a vara vermelha que distinguia sua posição caberia a multa de 2 tostões.

Na SP Colonial, o maior castigo era ir para Bertioga

OESP Cidades C4 de 25/07/2010

Diego Zanchetta - O Estado de S.Paulo

No início, o Legislativo paulistano tinha apenas cinco vereadores que percorriam quilômetros a cavalo para encontros à luz de velas; 'degredo' de criminosos para o litoral só foi abolido em 1795

Antes de completar três décadas e com menos de cem habitantes, o povoado que deu origem a São Paulo já tinha uma Câmara Municipal. Em 1560, as sessões, aos sábados à noite, eram realizadas à luz de velas, em casebres cobertos por palha e com chão de madeira. Os cinco vereadores percorriam quilômetros a cavalo para chegar aos encontros.

Durante três séculos, até maio de 1828, a tarefa de fazer leis, mandar prender, julgar e criar taxas coube a um colegiado formado por um juiz, três vereadores e um procurador do conselho, todos eleitos no dia 1.º de janeiro de cada ano. Também eram nomeados um tesoureiro e um escrivão. Só podiam disputar as eleições os "homens bons", classe formada por fazendeiros e comerciantes portugueses, moradores das partes mais altas da Vila de Piratininga.

Oito endereços. Ao longo dos seus 450 anos, o Legislativo paulistano teve os poderes reduzidos, ocupou oito endereços, teve mais de 1.800 representantes, propôs 112 mil leis e caracterizou-se por ser palco dos debates sobre os problemas e anseios levados pelos cidadãos às autoridades. Da substituição do sapé pelas telhas de taipa à revisão do atual Plano Diretor, a "Casa de Leis" esteve no epicentro dos principais escândalos e polêmicas da metrópole.

Cada capítulo dessa história, com a minuciosa transcrição das falas dos vereadores em mais de 27 mil sessões, está disponível para consulta na Biblioteca do Palácio Anchieta, no número 100 do Viaduto Jacareí. Pesquisar o acervo é oportunidade rara de entender como foi a transformação da pequena vila em cidade rica com influência europeia. Na sequência, surge a capital moderna e de trânsito caótico. "Pelas atas é possível conhecer até brigas de famílias mediadas pelos vereadores", diz Benedito Lima de Toledo, historiador da USP.

Regras e "degredo". As primeiras regras do Município surgiram no início do período colonial, na casa do vereador português João Ramalho. No dia 24 de junho de 1562, após um acirrado debate de quase oito horas, Ramalho conseguiu apoio do juiz ordinário Antonio Brás Cubas, o equivalente hoje ao presidente da Câmara, para determinar a construção de um muro de taipa de 5 metros de altura ao redor da vila, que acabara de sofrer um novo ataque dos "selvagens índios carijós".

Para financiar a primeira grande obra da cidade, duas leis polêmicas foram estabelecidas: o dízimo doado aos jesuítas seria destinado agora ao novo muro e quem não ajudasse na construção seria multado em 50 cruzados e enviado para "degredo", ou deportado, por um ano em Bertioga.

Relatado em 32 sessões entre 1561 e 1752, o "degredo" para um forte do litoral sul, onde havia um núcleo português que assegurava a defesa da costa de São Vicente, ficou conhecido como a mais severa punição da vila. A norma foi aplicada a centenas de índios rebeldes e jesuítas que contestavam o poder dos vereadores. Também era uma forma que os portugueses encontraram de mandar desafetos e a escória da vila (ladrões de gado e aventureiros espanhóis em busca de minas de ouro) para uma distância só acessível após 30 dias de trilhas pela Serra do Mar.

O "degredo" foi escolhido, por exemplo, para punir o maior escândalo da vila na fase do País como colônia. Vinte "mancebos" portugueses acusados de pegar à força índias que lavavam suas roupas no Rio Anhangabaú ficaram isolados no litoral por três anos, para desespero de suas mães. O mesmo destino teve uma dezena de moradores que se recusou a trocar a cobertura de palha por telhas de taipa, o primeiro projeto de urbanização proposto pela Câmara. A pena só foi abolida em 1795.