quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Prédio atual é uma réplica do original

15/07/2012

ADRIANA FERRAZ / OESP



Sob o comando do artista plástico Claudio Castro, a Capela do Pátio do Colégio, no centro de São Paulo, sofreu uma repaginação completa há cerca de dois anos.

O altar do templo dedicado ao beato José de Anchieta - originalmente feito de madeira com toques de olho folheado - recebeu um painel de azulejos dourados, com o símbolo jesuíta no centro, um crucifixo de madeira do século 17 suspenso por cabos de aço e piso de granito na cor vermelha.

A revolução na estética interna da capela se estendeu ainda à pia batismal, que ganhou mais profundidade e fonte com água morna para a realização das cerimônias. Segundo Castro informou na época, o projeto teve o objetivo de fazer uma "releitura do estilo barroco", que, na capela, recebeu aspecto mais "clean e moderno".

As polêmicas intervenções foram possíveis porque a construção, de 1979, não era tombada pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico e cultural. O prédio é apenas uma réplica do original, construído no século 16 e depois demolido.

Hoje, o espaço é aberto para celebrações festivas, como casamentos e batismos, concertos, apresentações de coral e missas - de terça à sexta, elas ocorrem sempre ao meio-dia; aos domingos, às 10h. Os visitantes da capela podem ainda conferir, ao lado, o acervo do Museu Anchieta.

No que deu...

Tradições estão na fila para registro


18 de outubro de 2012 | OESP
 
ARTUR RODRIGUES
 
Desde outubro, bens imateriais podem ser reconhecidos pelo Estado. A análise deve ser feita sempre pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat).

A ideia é registrar danças, músicas, pratos, costumes, rituais, livros, brincadeiras, lugares ou outros tipos de manifestações artísticas ligadas à história.

Até agora, porém, não foi finalizado nenhum dos processos de registro. O primeiro em estudos está relacionado aos Reinados de Congos de São Paulo, a tradicional congada, uma dança trazida pelos povos bantos africanos, vindos das regiões de Moçambique, Congo e Angola.

Outro pedido de registro que está sendo analisado pelo Condephaat é o do grupo religioso Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, criado para abrigar a religiosidade do povo negro impedido de frequentar as mesmas igrejas dos brancos.

A primeira capela foi erguida em 1711 na Praça Antonio Prado, antigo Largo do Rosário. O local foi demolido e passou a funcionar no Largo do Paiçandu, onde está até hoje.

O conceito de patrimônio imaterial existe desde 1930. Os primeiros estudos relacionados ao tema foram do escritor Mario de Andrade, que realizava pesquisas sobre o folclore nacional.

Fogo destrói parte de seminário do século 19 em São Paulo

Ninguém se feriu no incêndio que atingiu oito lojas da popular ‘rua das noivas’, na Luz; comerciantes locavam área que pertence à Arquidiocese


10 de novembro de 2012 | OESP
 
Bruno Paes Manso
 
 
SÃO PAULO - Um incêndio destruiu na tarde deste sábado parte do Seminário Episcopal da Luz, o mais importante de São Paulo no século 19.

Tombado em 1982 pelo Condephaat, o prédio na Rua São Caetano - a popular “rua das noivas” - hoje abriga lojas de vestido e artigos de casamento. O fogo começou no estoque de uma delas e se alastrou. Oito foram danificadas.

Às 16h20, comerciantes escutaram uma explosão. “Achei que fossem tiros”, disse Vladimir Ribeiro, vendedor que trabalha há 27 anos na região. “Fiquei assustado e saí na rua. Quando olhei para cima, vi fogo no 1.º andar, onde há estoques e oficinas.”

O incêndio teria começado entre as lojas Via Sposa e Arte Noivas. Como havia muito tecido e material inflamável, as chamas se alastraram rapidamente, levando vendedores e lojistas ao desespero. A fumaça podia ser vista de várias partes da cidade. Bombeiros mandaram 27 viaturas e 70 homens ao local. Enquanto eles tentavam conter as chamas, muitas pessoas choravam na calçada. “Ninguém se feriu, mas atendi pelo menos oito mulheres em crise nervosa”, disse Betzaba da Costa, do Samu.

O fogo durou duas horas. “Havia dificuldade de entrar no prédio. Como o teto era comum e tinha muito tecido, o fogo se espalhou rápido”, disse o coronel Milton Viana, do Corpo de Bombeiros. A maior preocupação era que o fogo atingisse a Igreja de São Cristóvão, anexa às lojas.

Mesmo com ação efetiva dos bombeiros, os prejuízos foram grandes. “Só em rendas, pedrarias e tecidos, perdi mais de R$ 1 milhão”, avaliou Mara Lúcia Valente, cuja a mãe é dona de seis lojas atingidas pelo fogo.

Restauração
O antigo Seminário Episcopal da Luz, atrás da Igreja de São Cristóvão, tinha acabado de passar pela primeira fase de um projeto de restauro. Convênio de R$ 2,2 milhões entre a Arquidiocese de São Paulo e a Casa Civil havia possibilitado recentemente o fim da recuperação da fachada e da estrutura interna do imóvel.

Aguardava-se agora a liberação de verba do Programa Monumenta, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para o início da segunda fase do projeto - destinada à fachada externa e ao telhado do local.

Por meio de sua assessoria, o arcebispo metropolitano de São Paulo, cardeal d. Odilo Pedro Scherer, lamentou o “infortúnio” justo neste momento em que a primeira fase de recuperação havia sido concluída. D. Odilo celebrava uma missa na zona norte da capital quando foi informado do incêndio.

Segundo a Arquidiocese, todos os contratos com locatários estavam regulares - por anos, “puxadinhos” irregulares ocuparam o pátio interno do imóvel. A partir de hoje, os comerciantes devem acionar o seguro contra incêndio, previsto no contrato, o que ajudará a avaliar o que foi perdido do restauro. Segundo reportagem do Estado de março de 2011, a obra toda estava orçada em R$ 7,9 milhões e tinha previsão de término para setembro passado.

Imóvel foi construído em 1856
Construído em 1856, o Seminário Episcopal era formado por três alas: capela, colégio e prédio que abrigava aposentos de alunos internos e padres. Segundo Benedito Lima de Toledo, professor de História de Arquitetura a USP, o que sobrou do complexo é apenas a metade da construção original. Ainda está lá a antiga capela - hoje a Igreja de São Cristóvão - , feita de paredes de taipa e sem retábulos (imagens). “Ela deve ser uma das mais humildes igrejas de São Paulo.”

O local onde funcionava o colégio foi ocupado por lojas de noivas. Era um prédio austero, sem arquitetura muito elaborada, mas com grande importância histórica por representar parte do que foi o seminário mais importante de São Paulo no século 19.

Para se ter uma ideia, quando o renomado astrônomo francês Frei Germano Aneci chegou no Brasil, foi convidado por D. Pedro II para assumir a direção do Observatório Astronômico do Rio. Ele recusou, veio para São Paulo e passou a dar aulas do seminário. “Aneci trouxe na época um telescópio muito moderno, de 7,38 metros”, conta Toledo. “Na época, foi uma grande novidade para a cidade.”

O local onde ficavam alunos que seguiriam vida religiosa, o seminário de fato, foi demolido para abertura da Rua São Caetano. Mas o prédio sempre esteve envolvido em reformas, lembra o professor. /COLABORARAM DENIZE GUEDES E VALÉRIA FRANÇA

A ponte bandeirante

Viaduto do Chá ampliou o horizonte do paulistano, pondo fim a um confinamento espacial de 350 anos


11 de novembro de 2012 | OESP Metrópole
 
JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE UMA ARQUEOLOGIA DA MEMÓRIA , SOCIAL (ATELIÊ EDITORIAL)
 
Os 120 anos do Viaduto do Chá, completados no dia 6, merecem registro e análise pela importância que ele teve na transformação do povoado paulistano na cidade que São Paulo é. Por ele, São Paulo atravessou do passado em direção a um novo presente e ao futuro. Tanto no real quanto no imaginário. Ele foi a Lei Áurea da cidade, libertando-a do confinamento espacial a que esteve condenada por 350 anos. O Viaduto do Chá, inaugurado em 1892, demolido em 1938 e substituído pelo que hoje conhecemos, mudou a economia da cidade, mas principalmente alterou a mentalidade dos paulistanos.

Num painel de bronze do século 19, no Cemitério da Consolação, no túmulo antigo dos operários da Fábrica de Chapéus de Adolfo Schritzmeyer, há em relevo uma vista panorâmica do vale do Ribeirão Anhangabaú. A fábrica aparece na roça, ladeada de canteiros de verduras espalhados por toda sua extensão, a poucos metros do centro da cidade. Anhangabaú tido como maldito, é bom que se diga: desde antes da fundação da vila de Piratininga, era crença dos índios, e continuou crença dos moradores, que aquele era o lugar de Anhangá, versão indígena do demoníaco, um ente dos limites e confins. No folclore paulistano, ficou a cantiga infantil que celebra a ponte antiga e rústica que precedeu o viaduto imponente, em outro ponto: "Eu fui passar na ponte, a ponte estremeceu. A água tem veneno, morena, quem bebeu, morreu". Análises antigas da água do Anhangabaú revelaram que ela continha arsênico.

É só se afastar poucas centenas de metros do centro que o paulistano descobre as encostas do outeiro transformadas em ladeiras: a Ladeira de São João, a Ladeira Porto Geral, a Ladeira General Carneiro, o Beco do Pinto, que desce para a Rua Frederico Alvarenga, onde ficava o necrotério. Resquícios da encosta que, com o muro de taipa, teve funções de muralha protetiva contra os ataques dos índios, como o ataque maciço de 1562, com seus inúmeros mortos e moradoras e moradores capturados e levados. Várias gerações de paulistanos foram educadas na cultura do confinamento, refugiadas quase ao redor do Pátio do Colégio.

A poderosa cultura do confinamento dos moradores, que atingiu sobretudo as mulheres, atingiu também os homens por meio do disseminado costume endogâmico de casarem-se com as primas, sempre alguém "de dentro" da própria família, numa enorme resistência aos "de fora". Desdobramento do lugar da casa de família nessa cultura como lugar de refúgio e verdadeiro esconderijo em relação a uma exterioridade tida como espaço do estranho e do inimigo. A antiga vila e, depois, cidade ajustou-se espacialmente aos requisitos e ameaças desses temores de origem e restringiu-se ao espaço do chamado Triângulo, nos confins do estreito terreno entre o Tamanduateí e o Anhangabaú. Não por acaso, os aldeamentos de confinamento dos índios descidos do sertão e reduzidos à condição servil foram localizados no exterior dos limites representados pelo Rio Tietê e pelo Pinheiros, limites de um cenário da guerra contra o gentio. As pessoas passam e os vindouros se esquecem, mas as determinações espaciais continuam ditando suas regras de convivência, de proximidades e distâncias muito depois de passado o tempo de suas razões de ser.

Os paulistanos urbanos atravessaram os séculos confinados no centro. Sobreviveu desse costume, até hoje, a expressão "vou à cidade", "estive na cidade", para os moradores se referirem ao verdadeiro centro, que é o antigo. O Viaduto do Chá estendeu esse centro até o outro lado do ribeirão. Abriu e modernizou um território novo para a expansão urbana. De fato, para ir do Largo da Sé até o Largo dos Curros, atual Praça da República, antes era necessário passar pelo Largo de São Francisco, descer a atual Rua Riachuelo em direção ao Vale do Anhangabaú, atravessar o ribeirão pela Ponte do Lorena, ladear o Chafariz do Piques e o obelisco que ainda existe pela Ladeira da Memória, usurpada pelas escadas rolantes do metrô, e entrar pela Rua da Palha ou Sete de Abril. O viaduto encurtou o caminho e até diminuiu cansaços, com o bonde puxado a burro. Isso para quem quisesse pagar os tostões do pedágio. Na entrada do viaduto havia cancela e guarita com cobrador. Passava quem pagava. Quem não quisesse, que fosse pelo brejo ou desse a volta imensa.

Pode-se falar no viaduto como marco de nossa revolução urbana justamente porque foi um das mais poderosas obras de demolição da mentalidade de confinamento dos paulistanos e dos paulistas de então. Ao alargar a cidade, ao expulsar as grandes moradias do centro, os novos espaços expressavam uma nova divisão do trabalho e uma nova espacialização da cidade. O Viaduto do Chá contribuiu para difundir o que é próprio do urbano e da modernidade: a fragmentação do modo de vida, a moradia num lugar, o trabalho em outro, a religião em outro, a festa em outro, o transitar como nova e decisiva atividade do estar em lugar nenhum para poder estar, em seu devido tempo, nos diversos lugares do novo modo de viver.

Justiça barra demolição de casarão histórico em SP

Rodrigo Brancatelli - O Estadao de S.Paulo - Metrópole 14/02/2009


Um casarão outrora luxuoso, amarelo e imponente no número 633 da Rua Haddock Lobo acabou se transformando nas últimas semanas em símbolo da disputa entre o mercado imobiliário e os defensores do patrimônio histórico de São Paulo. Para dar lugar a um empreendimento, o imóvel estava sendo demolido às pressas - anteontem à noite, diversos operários arrancavam o telhado e quebravam paredes. Ontem de manhã, no entanto, depois de a Sociedade dos Amigos e Moradores de Cerqueira César (Samorcc) e de a Associação Preserva São Paulo entrarem com ação civil pública para proteger o local, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar suspendendo por 30 dias a demolição do casarão.

Construído em 1918 para Horácio Sabino, loteador do bairro de Vila América (hoje chamado de Jardins), o imóvel era um dos últimos neocoloniais ainda de pé em toda a região da Avenida Paulista. A decisão de impedir temporariamente a demolição não só abre uma disputa judicial entre moradores do entorno e a construtora, como também pode colocar em xeque a atuação do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp), órgão ligado à Secretaria de Cultura que decide sobre os tombamentos na capital.

VOTAÇÃO ESTRANHA

O tombamento do casarão, que havia sido solicitado pelo Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura (DPH), contou com o parecer favorável dos técnicos da Prefeitura e do conselheiro relator do processo, arquiteto Dácio Ottoni. Presidente do Conpresp, o arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre destacou na reunião do órgão que "a excepcionalidade do imóvel se dá pelo fato de ter sobrevivido ao processo de urbanização e transformações da cidade, bem como por representar uma fase de transição da arquitetura paulistana, de mudanças de parâmetros construtivos".

Mesmo assim, contrariando os pareceres técnicos, o tombamento foi rejeitado no começo de fevereiro pelo Conpresp por 5 votos a 4 - com os votos contrários dos representantes da Secretaria de Habitação, Elton Santa Fé Zacarias; da Secretaria de Planejamento, Miguel Luiz Bucalem; da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção São Paulo, Marcelo Manhães; da Câmara Municipal, Toninho Paiva; e do Instituto de Arquitetos do Brasil-Departamento de São Paulo (IAB-SP), Vasco de Mello. O Conpresp terá agora de prestar esclarecimentos à 1ª Vara da Fazenda Pública da Justiça Estadual.

Mesmo que a demolição seja barrada definitivamente, muito pouco restou do casarão. "Só tem umas paredes em pé, até o teto já foi tirado", diz a presidente da Samorcc, Célia Marcondes. "Mas muita coisa ainda precisa ser explicada. Por exemplo, por que o pedido do tombamento foi estranhamente derrotado e como os proprietários conseguiram um alvará para a demolição apenas dois dias depois da votação no Conpresp? Os moradores do bairro às vezes esperam dois ou três meses para conseguir autorização da Prefeitura para demolir."

Casarão na Haddock Lobo é demolido

OESP Metrópole C8 1311/202

Por Rodrigo Burgarelli

Um casarão de quase um século de idade, que ocupava o número 141 da Rua Haddock Lobo, na região da Avenida Paulista, foi demolido há cerca de duas semanas por uma construtora. Famoso por abrigar por 12 anos o restaurante Pão com Manteiga, ele data do início do século 20 e era um dos "xodós" dos amantes do patrimônio histórico paulistano. Outras duas casas no mesmo quarteirão também foram demolidas e vão dar lugar a um empreendimento imobiliário da construtora Even.

A demolição causou revolta entre ONGs e aficionados pelo patrimônio. "Não era um casarão qualquer. Era um casarão estilo neocolonial, altamente representativo da época em que foi construído" afirmou Jorge Eduardo Rubies, presidente da ONG Preserva São Paulo. A entidade entrou com pedido de tombamento no início do ano para o conjunto de casarões, um dos poucos que restaram na região das Ruas Haddock Lobo e Bela Cintra, do lado do centro.

O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp), porém, negou o pedido e mandou arquivar o processo. "O casarão estava preservado, era relevante e tinha todos os pré-requisitos para ser tombado. Não adianta mais pedir o tombamento de nada no Conpresp. São os que deveriam cuidar do nosso patrimônio, mas nunca atendem aos nossos pedidos", reclamou Rubies.

A Secretaria Municipal de Cultura afirmou apenas que o assunto foi examinado pelo Conpresp em junho deste ano e a deliberação contrária ao tombamento foi unânime.

O imóvel ainda estava nas mãos da mesma família que o ergueu e foi vendido diretamente de uma das herdeiras à incorporadora. O dono do Pão com Manteiga, Arnaldo Príncipe, já mudou o endereço do restaurante, que agora funciona em um sobrado na Alameda Campinas. Ele também se revoltou com a demolição. "Estão deixando a cidade mais feia", disse.

O restaurante ocupou o casarão no ano 2000, após mais de duas décadas de abandono. "Não tínhamos condições de comprar e a incorporadora joga pesado. É bravo. O que a gente faz com um País que não preserva sua história?"Nem ele nem sua esposa - que também é sócia do restaurante - quiseram ver a demolição. "Aquela região já está completamente saturada. Agora vai ficar ainda mais."

Histórico. A construtora Even virou alvo dos defensores do patrimônio histórico em junho de 2011, quando demoliu um dos seis únicos casarões que restavam na Avenida Paulista. Procurada, a empresa disse que "obteve as autorizações necessárias à execução do empreendimento comercial, aí incluída a demolição dos imóveis no local".

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Capela de São Miguel Arcanjo completa 390 anos

OESP Metrópole C8 18/07/2012

Por EDISON VEIGA

Igreja mais antiga de São Paulo, a Capela de São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista, na zona leste, completa nesta quarta-feira 390 anos. E tem muito para comemorar: depois das obras iniciadas em 2006, a construção de 1622 foi totalmente restaurada, ganhou museu e ainda viu a redescoberta de duas pinturas murais que estavam escondidas atrás de altares havia pelo menos 250 anos.

Para entender a história do local, é preciso voltar aos primeiros anos da cidade. Em 1560, índios guaianás se desentenderam com os colonos da então Vila de São Paulo de Piratininga. Comandados por Piquerobi, irmão do conhecido cacique Tibiriçá - aliado dos padres jesuítas -, eles caminharam 20 km ao leste e criaram uma nova aldeia, batizada de Ururaí.

Receosa de perder esses índios, a Companhia de Jesus delegou ao padre José de Anchieta a missão de reencontrá-los. Um percurso difícil à época, parte por terra, parte pelo Rio Tietê. Quando chegou ao local, o religioso tratou de renomear o povoado como São Miguel de Ururaí. Ali ergueu uma pequena capela, de bambu e sapé. Nascia o bairro de São Miguel Paulista.

A rudimentar construção religiosa deu lugar, décadas mais tarde, a uma nova igrejinha de taipa de pilão. É esta, de 1622, que vence o tempo e resiste até hoje - tombada por Iphan, Condephaat e Conpresp, respectivamente os órgãos federal, estadual e municipal de proteção ao patrimônio.

Restauro

A histórica capela passou por um longo processo de restauração, dividido em duas etapas. Na primeira fase, que durou de 2006 a 2009, a meta foi recuperar o edifício estruturalmente. "Havia problemas elétricos, hidráulicos e de infiltração de água", lembra o gestor do local, Alexandre Galvão. Foram investidos R$ 3 milhões, bancados pela iniciativa privada.

Paralelamente a esse trabalho, uma equipe de arqueólogos e historiadores se debruçou sobre fatos, documentos e registros para que, pela primeira vez, a história da capela fosse recuperada de forma oficial. "No Vaticano, descobrimos cartas de Anchieta a outros jesuítas que nos ajudaram a entender como o povoado nasceu e como a primeira igrejinha foi feita", conta Galvão. A carta mais antiga encontrada foi escrita em 12 de outubro de 1561.

Todo esse material fez com que os administradores do templo vislumbrassem a instalação de um museu. Nascia então a segunda fase do projeto, orçada em R$ 2,8 milhões e iniciada em 2009. "Passamos a recuperar as imagens esculturais", diz Galvão. "Quando restaurávamos os altares, descobrimos, escondidas atrás de dois deles, pinturas murais que estavam ocultas e ao mesmo tempo protegidas", relata o restaurador Julio Moraes. "Foi uma importante surpresa."

Essas pinturas estão sendo cuidadosamente restauradas. "O trabalho deve ser concluído em novembro", estima Moraes. Acredita-se que esses murais tenham sido pintados no século 17. E estavam cobertos pelos altares desde cerca de 1760.

Quem quiser conferir essas obras, entretanto, precisa se apressar. Concluído o processo de restauro, elas deverão ser novamente "escondidas" pelos altares, por determinação dos órgãos de proteção do patrimônio. Mas haverá reprodução fotográfica delas no museu, que está aberto desde 2010 e atrai cerca de 400 pessoas por mês. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Serviço: http://capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.br

domingo, 22 de abril de 2012

As paredes caem, uma a uma, em Pinheiros

Ignácio de Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo Caderno2 D10 20/4/2012

Quando cheguei a esta rua, João Moura, havia em frente do meu prédio uma vilazinha e nela uma fonte de água cristalina. Dizia-me seu Chico, com seus 80 anos, que a fonte existia desde que ele chegara, na altura dos anos 1930. E que muita gente ia buscar água fresca para encher talhas, potes e moringas.

Chico, meu vizinho, tinha um quintal que ia até quase a Rua Cristiano Viana. Nele coexistiam jabuticabeiras, bananeiras, pássaros, patos, galinhas. As jabuticabas, imensas, eram docíssimas.

Cada vez que o pé carregava e os galhos pretejavam de frutos, Chico me trazia uma vasilha cheia. Havia um tanto de interior, um tanto de bucolismo, outro de quietude, comunidade.

Chico se foi, mas sua casa, seu terreno ainda estão ali e cada um de nós prende a respiração, no temor de que vendam algum dia e tudo vá para o chão.

O galo garnizé que a vizinhança ouve habita esse terreno. Vez ou outra, acontece uma baladinha noturna, com violão e danças, há pessoas guardando a casa. Um citadino dia desses começou a espicaçar a galinha que tinha acabado de ter pintinhos.

Provocava e provocava a pobre ave que tentava proteger os filhotes e investia com o bico. Então, um dos convidados gritou:

- Pare com isso, por favor! Não perturbe! Não vê que a galinha ainda está amamentando?

Quando cheguei à rua, anos 90, do meu apartamento no 13.º andar minha vista alcançava o horizonte e eu podia ver as luzes do Morumbi, em noites de jogo. Ao fazer uma panorâmica, contemplava o verde por toda a parte.

Abaixo de mim podia contemplar os sobrados tão característicos de Pinheiros e Vila Madalena, cada um com seu quintal, suas árvores. Podia ver laranjeiras. Mangueiras e jabuticabeiras, flores.

Assim vinha sendo nossa vidinha com jeito provinciano, aqui em Pinheiros, dentro de São Paulo. Basta atravessar uma rua e estamos nos Jardins. Mas em geral ficamos no que chamamos o outro lado da Rebouças, o nosso.

Tão bom que as casas de decoração estão ocupando espaços, são várias e dá gosto olhar as vitrines. Uma delas, a do Teo, inclusive, reformou uma área imensa em frente da nova churrascaria Bovinu's, que, após quase um ano, abriu suas portas.

Nessa onda, na Rua Artur de Azevedo, a filha do Viana mudou o rumo dos negócios que eram do pai (materiais de construção) e agora o espaço se chama Vianarte, com objetos coloridos.

Jovens saem do cursinho e da faculdade (tudo aqui na rua) e lotam o bar do Pinguim e o novo boteco Leyseca na esquina da Artur de Azevedo. Há um tom alegre nos fins de tarde, ruidoso, agitado. Na CPL motoqueiros fazem point aos sábados.

Aqui temos nossos bares, nossos restaurantinhos, o Genova, o Buttina, o bistrô Vianna, o Wolf, nossos self-services, a padaria, o sapateiro, a quitanda, a farmácia, o supermercadinho, a acupuntura.

Os prédios existentes conviviam em harmonia com os sobrados, as lojas, com tudo, todos se ajeitando, se acomodando, amigavelmente. Uns prédios maiores, outros pequenos, de quatro, cinco andares.

Então, começaram a chegar. Ah, começaram! Em frente de casa subiram duas torres enormes, minha vista se foi, a fontezinha desapareceu no concreto. Sim, um dia reapareceu dentro da garagem de nosso prédio. Quem segura água?

A vilinha que havia desapareceu. Foi o primeiro aviso. O segundo foi na Rua Artur de Azevedo, quando um grupo de casinhas foi abaixo, entre elas a original videolocadora S'Different, um barzinho de happy hour e duas ou três residências.

As "bombas" caíam cada vez mais perto. Então, a notícia se espalhou: tudo viria abaixo na esquina da João Moura com a Teodoro Sampaio. Até a belíssima casa branca que ficava no alto de uma colina.

Histórica? Não sabíamos. Mas era linda, de uma São Paulo senhorial, elegante. Todos tremeram quando a proprietária, velhinha, morreu. Dali saiu seu funeral por determinação expressa. Ficamos todos na corda bamba.

Súbito, na calada da noite, porque eles não têm coragem, fazem na calada da noite, a casa desapareceu. Foi ao chão, como se tivesse passado um tsunami. A arte de demolir num instante tem seu auge em São Paulo.

A morte da casa branca da colina verde doeu em todos nós. Ali, dizem, vai ser um shopping. Na Artur, um grande complexo. A culpa é de quem, gente? Das construtoras? Não, elas querem construir. A culpa é de leis que cedem ante o poder do dinheiro sem medir consequências para a comunidade, o trânsito, a rede de águas e esgotos, e tudo que está implicado.

E as árvores do jardim? Vão para o chão? (Aliás, ali na esquina da Brasil com a Colômbia, a Kia não derrubou a imensa árvore, frondosa, para construir uma concessionária?) E como fazer, se ao lado da ex-casa branca da João Moura há um posto de gasolina? Terreno contaminado. Não existe um prazo de alguns anos para limpar tudo? Vão cumprir? Vão nada.

Junto da escola, outro edifício está subindo. Sobem, sobem, vão subir, e o bairro vai sendo desfigurado. Aliás, toda esta cidade foi, está sendo e será. Não existem planos diretores, nem políticos que se interessem por esta pobre São Paulo.

Assinei, vou participar, estou com o Movimento Contra a Verticalização. Não somos contra o progresso, somos contra as injúrias, a agressão à qualidade de nossas vidas, a entrega de tudo à especulação.

Vivi quase 20 anos nesta comunidade, faço parte dela, nos conhecemos todos, temos nossos hábitos e idiossincrasias, alegrias. Agora, temos medo, muito medo de que talvez tenhamos de procurar outro lugar para viver.

Eros Grau, que foi ministro do Supremo, é poeta, romancista, com expressiva bibliografia jurídica e membro da Academia Paulista de Letras, em seu mais recente livro, Paris, Quartier Saint-Germain, ao testemunhar a ação do "modernismo" que vem devastando edifícios, livrarias, pontos tradicionais em Paris, indaga:

"...E os seres humanos que davam vida a todas essas coisas? Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo? Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Eles não percebem - os sujeitos da transformação econômica - que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o quartier e o mundo?"