Rodrigo Brancatelli - O Estadao de S.Paulo - Metrópole 14/02/2009
Um casarão outrora luxuoso, amarelo e imponente no número 633 da Rua Haddock
Lobo acabou se transformando nas últimas semanas em símbolo da disputa entre o
mercado imobiliário e os defensores do patrimônio histórico de São Paulo. Para
dar lugar a um empreendimento, o imóvel estava sendo demolido às pressas -
anteontem à noite, diversos operários arrancavam o telhado e quebravam paredes.
Ontem de manhã, no entanto, depois de a Sociedade dos Amigos e Moradores de
Cerqueira César (Samorcc) e de a Associação Preserva São Paulo entrarem com ação
civil pública para proteger o local, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar
suspendendo por 30 dias a demolição do casarão.
Construído em 1918 para Horácio Sabino, loteador do bairro de Vila América
(hoje chamado de Jardins), o imóvel era um dos últimos neocoloniais ainda de pé
em toda a região da Avenida Paulista. A decisão de impedir temporariamente a
demolição não só abre uma disputa judicial entre moradores do entorno e a
construtora, como também pode colocar em xeque a atuação do Conselho de
Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo
(Conpresp), órgão ligado à Secretaria de Cultura que decide sobre os tombamentos
na capital.
VOTAÇÃO ESTRANHA
O tombamento do casarão, que havia sido solicitado pelo Departamento do
Patrimônio Histórico da Prefeitura (DPH), contou com o parecer favorável dos
técnicos da Prefeitura e do conselheiro relator do processo, arquiteto Dácio
Ottoni. Presidente do Conpresp, o arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre
destacou na reunião do órgão que "a excepcionalidade do imóvel se dá pelo fato
de ter sobrevivido ao processo de urbanização e transformações da cidade, bem
como por representar uma fase de transição da arquitetura paulistana, de
mudanças de parâmetros construtivos".
Mesmo assim, contrariando os pareceres técnicos, o tombamento foi rejeitado
no começo de fevereiro pelo Conpresp por 5 votos a 4 - com os votos contrários
dos representantes da Secretaria de Habitação, Elton Santa Fé Zacarias; da
Secretaria de Planejamento, Miguel Luiz Bucalem; da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB), seção São Paulo, Marcelo Manhães; da Câmara Municipal, Toninho
Paiva; e do Instituto de Arquitetos do Brasil-Departamento de São Paulo
(IAB-SP), Vasco de Mello. O Conpresp terá agora de prestar esclarecimentos à 1ª
Vara da Fazenda Pública da Justiça Estadual.
Mesmo que a demolição seja barrada definitivamente, muito pouco restou do
casarão. "Só tem umas paredes em pé, até o teto já foi tirado", diz a presidente
da Samorcc, Célia Marcondes. "Mas muita coisa ainda precisa ser explicada. Por
exemplo, por que o pedido do tombamento foi estranhamente derrotado e como os
proprietários conseguiram um alvará para a demolição apenas dois dias depois da
votação no Conpresp? Os moradores do bairro às vezes esperam dois ou três meses
para conseguir autorização da Prefeitura para demolir."
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