Ninguém se feriu no incêndio que atingiu oito lojas da popular ‘rua das
noivas’, na Luz; comerciantes locavam área que pertence à Arquidiocese
10 de novembro de 2012 | OESP
Bruno Paes Manso
SÃO PAULO - Um incêndio destruiu na tarde deste sábado parte do Seminário
Episcopal da Luz, o mais importante de São Paulo no século 19.
Tombado
em 1982 pelo Condephaat, o prédio na Rua São Caetano - a popular “rua das
noivas” - hoje abriga lojas de vestido e artigos de casamento. O fogo começou no
estoque de uma delas e se alastrou. Oito foram danificadas.
Às 16h20,
comerciantes escutaram uma explosão. “Achei que fossem tiros”, disse Vladimir
Ribeiro, vendedor que trabalha há 27 anos na região. “Fiquei assustado e saí na
rua. Quando olhei para cima, vi fogo no 1.º andar, onde há estoques e
oficinas.”
O incêndio teria começado entre as lojas Via Sposa e Arte
Noivas. Como havia muito tecido e material inflamável, as chamas se alastraram
rapidamente, levando vendedores e lojistas ao desespero. A fumaça podia ser
vista de várias partes da cidade. Bombeiros mandaram 27 viaturas e 70 homens ao
local. Enquanto eles tentavam conter as chamas, muitas pessoas choravam na
calçada. “Ninguém se feriu, mas atendi pelo menos oito mulheres em crise
nervosa”, disse Betzaba da Costa, do Samu.
O fogo durou duas horas.
“Havia dificuldade de entrar no prédio. Como o teto era comum e tinha muito
tecido, o fogo se espalhou rápido”, disse o coronel Milton Viana, do Corpo de
Bombeiros. A maior preocupação era que o fogo atingisse a Igreja de São
Cristóvão, anexa às lojas.
Mesmo com ação efetiva dos bombeiros, os
prejuízos foram grandes. “Só em rendas, pedrarias e tecidos, perdi mais de R$ 1
milhão”, avaliou Mara Lúcia Valente, cuja a mãe é dona de seis lojas atingidas
pelo fogo.
Restauração
O antigo Seminário Episcopal da Luz,
atrás da Igreja de São Cristóvão, tinha acabado de passar pela primeira fase de
um projeto de restauro. Convênio de R$ 2,2 milhões entre a Arquidiocese de São
Paulo e a Casa Civil havia possibilitado recentemente o fim da recuperação da
fachada e da estrutura interna do imóvel.
Aguardava-se agora a liberação
de verba do Programa Monumenta, do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), para o início da segunda fase do projeto - destinada à fachada externa e
ao telhado do local.
Por meio de sua assessoria, o arcebispo
metropolitano de São Paulo, cardeal d. Odilo Pedro Scherer, lamentou o
“infortúnio” justo neste momento em que a primeira fase de recuperação havia
sido concluída. D. Odilo celebrava uma missa na zona norte da capital quando foi
informado do incêndio.
Segundo a Arquidiocese, todos os contratos com
locatários estavam regulares - por anos, “puxadinhos” irregulares ocuparam o
pátio interno do imóvel. A partir de hoje, os comerciantes devem acionar o
seguro contra incêndio, previsto no contrato, o que ajudará a avaliar o que foi
perdido do restauro. Segundo reportagem do Estado de março de 2011, a obra toda
estava orçada em R$ 7,9 milhões e tinha previsão de término para setembro
passado.
Imóvel foi construído em 1856
Construído
em 1856, o Seminário Episcopal era formado por três alas: capela, colégio e
prédio que abrigava aposentos de alunos internos e padres. Segundo Benedito Lima
de Toledo, professor de História de Arquitetura a USP, o que sobrou do complexo
é apenas a metade da construção original. Ainda está lá a antiga capela - hoje a
Igreja de São Cristóvão - , feita de paredes de taipa e sem retábulos (imagens).
“Ela deve ser uma das mais humildes igrejas de São Paulo.”
O local onde
funcionava o colégio foi ocupado por lojas de noivas. Era um prédio austero, sem
arquitetura muito elaborada, mas com grande importância histórica por
representar parte do que foi o seminário mais importante de São Paulo no século
19.
Para se ter uma ideia, quando o renomado astrônomo francês Frei Germano
Aneci chegou no Brasil, foi convidado por D. Pedro II para assumir a direção do
Observatório Astronômico do Rio. Ele recusou, veio para São Paulo e passou a dar
aulas do seminário. “Aneci trouxe na época um telescópio muito moderno, de 7,38
metros”, conta Toledo. “Na época, foi uma grande novidade para a
cidade.”
O local onde ficavam alunos que seguiriam vida religiosa, o
seminário de fato, foi demolido para abertura da Rua São Caetano. Mas o prédio
sempre esteve envolvido em reformas, lembra o professor. /COLABORARAM DENIZE
GUEDES E VALÉRIA FRANÇA