quinta-feira, 3 de junho de 2010

Mosteiro de São Bento, em Sorocaba, festeja 350 anos em 23/04/2010

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100423/not_imp541864,0.php

José Maria Tomazela, SOROCABA - O Estado de S.Paulo

O monge d. José Carlos Camorin Gatti, de 78 anos, é o guardião solitário de uma relíquia. Ele administra o Mosteiro de São Bento, em Sorocaba, que ontem completou 350 anos. O trabalho de restauração do edifício custará R$ 4 milhões. A obra, iniciada em 2003, revelou que grande parte da estrutura é original.

As paredes de taipa da Igreja de Sant"Anna, a primeira construção do mosteiro, são as mesmas erguidas com barro socado pelos escravos do bandeirante Baltazar Fernandes, seis anos antes da doação feita aos beneditinos, em abril de 1660. A clausura e outras instalações têm alguns anos a menos: foram construídas de taipa de pilão e de torrão, em 1667. "É tudo daquela época. O que havia de tijolo, era na verdade a taipa encamisada, protegida pelo material cerâmico", explica o monge.

O Mosteiro de Sorocaba é o único da congregação beneditina no Brasil que mantém a originalidade. "Outros mais antigos, como o de Salvador, Olinda (PE), e mesmo os de São Paulo e Rio, já não possuem os prédios originais", afirma o pesquisador Luiz Almeida Marins Filho.
O prédio atual de São Paulo é do século 20. O mosteiro de Olinda foi destruído por um incêndio durante a invasão holandesa em 1632 e a reconstrução levou décadas. "(O Mosteiro de Sorocaba) é um dos únicos no mundo que tem mais de três séculos com a presença ininterrupta dos monges", destaca Martins Filho. O mosteiro guarda preciosidades como o altar-mor esculpido com madeira, com lâminas de ouro aplicadas no retábulo, trazido de Portugal no século 18.

Homenagens.
Os Correios lançaram um selo dos 350 anos, reproduzindo quadro da artista Sonia Vubleski. E a Casa da Moeda lançou medalhas de bronze (R$250), prata (R$400) e ouro (R$20 mil), à venda no local.

Serviço
O MOSTEIRO FICA ABERTO À VISITAÇÃO DE SEGUNDA A SEXTA, DAS 6H30 ÀS 11 E DAS 13H30 ÀS 17 HORAS; AOS SÁBADOS, DAS 6H30 ÀS 11 H E DAS 17 ÀS 20 HORAS; E AOS DOMINGOS, DAS 8 ÀS 11 H. A MISSA É CELEBRADA NA HORA QUE ANTECEDE O FECHAMENTO

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ca'd'Oro, 1953-2009: fim de um símbolo: O primeiro hotel cinco estrelas de São Paulo fecha suas portas

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091221/not_imp485176,0.php

Símbolo do charme de um centro paulistano que não existe mais, o Grand Hotel Ca"d"Oro, primeiro cinco estrelas de São Paulo, fechou suas portas ontem, quando as chaves dos dois últimos quartos ocupados foram entregues em um check-out definitivo. "O importante é que encerramos de cabeça erguida, atendendo aos hóspedes sem o serviço perder qualidade", afirma o recepcionista Ricardo Noçais, de 64 anos, 43 deles a serviço do hotel.

Um dos últimos hóspedes, o empresário italiano Marco Crippa saiu no sábado. Ele, que visita a capital paulista quatro vezes por ano desde 1992, só ficava no Ca"d"Oro. "Tiraram minha casa de São Paulo", lamenta. Na noite de sexta, foi servido o último jantar do restaurante. Dos 120 lugares do salão, apenas 22 estiveram ocupados.

Ao menos oficialmente, o Ca"d"Oro será reaberto nos próximos anos. "Estamos procurando investidores para uma reforma", diz o proprietário Aurélio Guzzoni. "Iremos funcionar para a Copa de 2014." O otimismo não é compartilhado pelos funcionários, que já espalham seus currículos. "É complicado ser dispensado, mas faz parte da vida", conforma-se o auxiliar de garçom Ailton Oliveira.

ILUSTRES HÓSPEDES
Em suas décadas áureas, o hotel - e o restaurante contíguo - era refinado ponto de encontro de autoridades, intelectuais e artistas. O pintor Di Cavalcanti (1987-1976) chegou a morar ali durante alguns meses. O poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) e o escritor norte-americano Gore Vidal também eram figurinhas fáceis pelos corredores.

Entre os autógrafos orgulhosamente colecionados pela administração do hotel - conseguidos quando os ilustres ocupavam uma suíte ou uma mesa do restaurante -, estão nomes como o do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), do cientista norte-americano Linus Pauling (1901-1994), dos escritores Jorge Amado (1912-2001) e Rachel de Queiroz (1910-2003), do cantor Roberto Carlos, do apresentador de televisão e empresário Silvio Santos e do ex-jogador de futebol Pelé. Além de políticos, como o estadista francês François Mitterrand (1916-1996), o ex-governador paulista Mário Covas (1930-2001), o rei espanhol Juan Carlos I e os ex-presidentes brasileiros Ernesto Geisel (1907-1996) e Jânio Quadros (1917-1992).

Quando se submeteu a tratamento médico em São Paulo, o então presidente João Batista Figueiredo (1918-1999) chegou a despachar de uma suíte no Ca"d"Oro. Em 1991, o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007) ocupou um dos luxuosos quartos - que foi totalmente reformado para recebê-lo.

A história do empreendimento começou em Bérgamo, na Itália. Em um dos hotéis da família, Fabrizio Guzzoni (1920-2005) conheceu uma brasileira, com quem viria a se casar. Já em São Paulo, inaugurou o Ca"d"Oro - primeiro como restaurante, em 1953, na Rua Barão de Itapetininga. Três anos depois, na Rua Basílio da Gama, nascia o hotel. Poucos anos mais tarde, com 300 apartamentos, Guzzoni instalava seu negócio no endereço definitivo, na Rua Augusta.

Para se ter uma ideia de como o Ca"d"Oro prezava a elegância, até 1962 era proibida, em seu restaurante, a entrada de homens sem gravata. Havia até uma placa, oficializando a norma. Depois, a regra foi abrandada - era exigido apenas o paletó, embora dificilmente algum frequentador dispensasse a gravata. A administração mantinha paletós para emprestar a algum desavisado.

Outros Que Se Foram
Crowne Plaza (Rua Frei Caneca): fechado em 2008, foi vendido para o Ministério Público Federal
Hilton (Avenida Ipiranga): desocupado em 2005, o prédio abriga gabinetes do Tribunal de Justiça
Othon Classic (Rua Líbero Badaró): fechado em 2008, está vazio desde então

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Arquivo do Estado terá novo prédio

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091127/not_imp472907,0.php


Capacidade de armazenamento será ampliada em 9 vezes

Vitor Hugo Brandalise

Arquivo Público do Estado começou, no início do mês, uma reforma em sua sede para aumentar em nove vezes a capacidade de armazenamento do acervo histórico - documentos da administração pública desde o século 17. Hoje, são guardados no complexo da Avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte de São Paulo, cerca de 10 quilômetros lineares de documentos, 1,5 milhão de fotografias e 1,2 mil títulos de jornais e revistas. Conforme admite a coordenação do órgão, já não há espaço para mais nada.

Com a construção de um novo edifício, de 11 andares e 23 mil metros quadrados dentro do complexo, a capacidade do Arquivo subirá para 90 km de documentos em um único espaço. Com 23 km de documentos guardados - além dos 10 km armazenados na zona norte, há outros 13 km em depósitos na Mooca -, o Arquivo Público do Estado é o segundo maior do País, atrás apenas do Arquivo Nacional (que guarda 55 km lineares de documentos, divididos nos complexos do Rio e de Brasília).

No novo prédio do Arquivo paulista, haverá cinco andares com pé direito duplo, onde estarão armazenados processos que mostram todos os atos do Executivo na história do Estado. As obras, avaliadas em R$ 68 milhões, começaram no início do mês e devem ser finalizadas em dezembro de 2010.

A capacidade de atendimento com as reformas será quadruplicada - hoje, há espaço para 25 pessoas realizarem pesquisas simultaneamente; na nova área, até cem pesquisadores poderão trabalhar ao mesmo tempo, em espaços para pesquisas em grupo ou individuais. "O Arquivo é procurado hoje principalmente por pesquisadores de universidades, estudantes do ensino médio e por cidadãos interessados em obter cidadania de outros países, por exemplo, ou o histórico de alguma posse adquirida", explica o coordenador do Arquivo, Carlos Bacellar. "Será o primeiro prédio projetado especificamente para um arquivo de grande porte no País", diz.

Os ambientes do novo prédio do Arquivo serão climatizados, em temperatura média que variará entre 18°C e 20°C nos depósitos destinados a papel - hoje, não há ar condicionado no prédio e a climatização é feita somente com ventiladores. "No novo edifício, os depósitos serão construídos especialmente para o tipo de documento que se destinam a abrigar, com diferentes instalações para cartografia e iconografia", conta Bacellar.

Além disso, serão construídos novos laboratórios de preservação, restauração, microfilmagem e digitalização de documentos. "Já no próximo mês, vamos colocar na internet cerca de 29 mil páginas digitais de consulta para obtenção de cidadania. Mas, com novos laboratórios, documentos serão restaurados e digitalizados em volume muito maior", diz Bacellar.

No novo complexo, também haverá biblioteca para armazenar 45 mil volumes do acervo do Arquivo, auditório, espaço para exposições, livraria e café.

Entre o material procurado por pesquisadores para consulta no acervo do Arquivo Público do Estado estão as cerca de 1,1 milhão de fichas do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops), órgão destinado a controlar e reprimir movimentos contrários ao regime militar - e que fichou até o papa João Paulo II, quando ele esteve no Brasil em 1982 (está lá, sob o nome Segundo, João Paulo, conforme grafaram agentes do Dops). "Atrai pesquisadores e curiosos", conta Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo. "Cansei de ver gente vir até aqui para procurar sua própria ficha, para saber o que o regime apontava.

"Também há livros de registro que contam a história de todas as vilas da capitania de São Paulo entre 1765 e 1850, listadas domicílio a domicílio. "É um registro único no País.

"Numa tarde da semana passada, a aposentada Maria Lucia Ney, de 71 anos, esteve no Arquivo para "se informar sobre o mundo". "Gosto daqui, mas uma reforma cairá bem, para dar mais conforto a quem pesquisa e conservar melhor os documentos", conta. "Visitar o arquivo é uma boa maneira de mostrar aos jovens a importância de conhecer sua história. Dá até uma maior noção de cidadania e respeito ao que passou."

Periódicos do passado - incluindo toda a coleção fotográfica dos jornais Última Hora e Diários Associados, adquiridos em 2007 - também estão entre os itens procurados no Arquivo Público do Estado. As revistas e os jornais foram digitalizados e estão disponíveis na internet no site www.arquivoestado.sp.gov.br. Além disso, as fichas do Dops foram divididas em temas (por nome de sindicato, de entidade estudantil, de evento), digitalizadas e também estão na internet como parte do Projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional. Também estão disponíveis no site do órgão ou em www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br.

Para cidadãos interessados em conseguir cidadania estrangeira, em dezembro, o Arquivo vai colocar na internet cerca de 40 mil páginas de documentos dos núcleos coloniais do Estado, que ajudarão a comprovar a origem das famílias de imigrantes.

Arquivo Público do Estado de São Paulo - Rua Voluntários da Pátria, 596 (Estação Tietê do Metrô); de terça a sábado, das 9 às 17 horas;tel.: (11) 2221-4785;
www.arquivoestado.sp.gov.br

O fim do ''velho'' Largo da Batata

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473667,0.php
Com obras da Prefeitura e a valorização imobiliária, comerciantes que fizeram a história do bairro saem de cena
Por Rodrigo Brancatelli

São 15 horas e alguns poucos minutos de uma terça-feira nublada e a vida no Largo da Batata, que sempre andou um bocado apressada, parece marchar em câmera lenta. Ali no coração de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, o farmacêutico Leonardo Shima permanece impávido, atrás do balcão que existe desde 1955, esperando a clientela aparecer. Ele mantém o sorriso generoso no rosto, mesmo ao lembrar que uma megadrogaria abriu há poucas semanas na vizinhança - e parece que ela está cheia de gente comprando xampus, creme dental, barras de cereais, chicletes, suplementos alimentares e, pasmem, até remédios.
Seu Chico, um experiente marceneiro que já trabalhou até na França, também está sem muito serviço e mata o tempo vendo um filme do Stallone na televisão. Já Jesus Andrade, conhecido como Jesus Alfaiate, aproveita para consertar a inseparável máquina de costurar enquanto nenhuma "madame apressada" ou "empresário precisando fazer a barra da calça" aparece de repente pela porta. Ninguém surge pelos próximos 15 minutos, mas ele continua lá, esperançoso. Esse mesmo otimismo, no entanto, anda meio sumido da sorveteria Fiesta, há quase 30 anos vendendo o melhor sorvete de amora, milho-verde e de amendoim do Largo da Batata - apenas R$ 0,90 o picolé. As mesas de fórmica estão vazias, silenciosas, tristes. Parece até que a região está ficando um pouco menos doce.
As obras de revitalização e adequação do Largo da Batata, que devem transformar a área numa esplanada até o fim de 2010, ao custo de R$ 100 milhões, não estão mudando apenas as ruas do local. Estão também alterando a vida de personagens que fizeram a história do bairro, que ergueram do zero os negócios familiares há décadas, mas agora planejam ou até mesmo começam a deixar seus endereços por causa da valorização imobiliária. São sapateiros, marceneiros, vendedores de miudezas e alfaiates; comércios populares que não terão vez nesse "novo" e "rico" Largo da Batata.

"CAIU MUITO, NÉ?"
"O movimento caiu muito, né", diz Massao Miyashita, comerciante mais antigo do Largo da Batata, que começou vendendo artigos de armarinho, em 1949. Sua loja deve ganhar em breve uma placa de vende-se ou aluga-se. "Eu tentei continuar aqui porque gosto muito da área. Mas eu estou ficando velho, acho que está chegando a hora da aposentadoria."
Muitos moradores mais antigos e comerciantes já deixaram a região, e os que resistem parecem viver num misto de expectativa e receio. "Não é nada agradável ficar assim, sem saber como vai ser o futuro", diz Cleusa Polimeno, que cuida de uma tabacaria fundada pelo avô, em 1943. O largo que há tempos não tem mais batatas agora também está perdendo parte da personalidade: ao mesmo tempo em que a degradação desapareceu, estão sumindo a olhos vistos hábitos e práticas antigas. São profissões e ofícios que resistiram ao tempo, mas não à falta de clientes. "Simplesmente não sei fazer outra coisa a não ser consertar sapatos", resume Pedro Halgsik, de 75 anos, que trabalha há quase três décadas na região.


http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091129/not_imp473686,0.php
Valor dos imóveis triplicou no Largo
Na Prefeitura, há pedidos de 37 novos prédios para a região

Pelas ruas do Largo da Batata já há até um clima de saudosismo no ar. Um sentimento difícil de explicar em um único parágrafo, mas que movimenta uma poderosa teia de memórias, medos, apreensões, receios e muitas, mas muitas dúvidas.
"Ainda estamos sem saber como vai ser no futuro, né, ainda mais se subirem os aluguéis. Como essa nova farmácia que abriu aqui do lado. O perfil do largo está mudando, mas não dá para imaginar se vai ser bom ou ruim se continuarmos aqui", diz Leonardo Shima, que cuida da farmácia inaugurada pelo sogro, Yoshitomi Assakaua, há 54 anos.
"Eu nasci aqui no Largo da Batata e continuo aqui", completa o engenheiro Domingos Barone, cliente cativo de seu Shima. "Lembro até de vir aqui na farmácia para tomar injeção. Injeção mesmo, daquelas de vidro. Mas hoje estou quase vendendo a minha casa. Começaram oferecendo R$ 2 mil o metro quadrado, mas já me ligaram tentando comprar por R$ 4 mil, e alguns lugares já subiram para R$ 6 mil."
"Já fecharam várias lojinhas, o Bazar 13, o Albano, a Casa das Miudezas, a tabacaria", continua Leonardo Shima. "Acho que é inevitável o que vai acontecer..."
Acreditando no ganho potencial da área - que, reformada e com uma nova estação do Metrô, estará mais integrada com o restante da cidade -, construtoras estão em busca de terrenos para incorporação e os primeiros empreendimentos começam a aparecer. Esse boom imobiliário atinge um perímetro de cerca de 4 quilômetros quadrados, delimitado pela Marginal do Pinheiros, pelas Ruas Frederico Herman Júnior, Purpurina, Aspicuelta, Cristiano Viana e pela Alameda Gabriel Monteiro da Silva - na Prefeitura, há o pedido de 37 novos prédios para a região.
"Ofertas? Nossa, teve uma semana em que todo dia alguém ligava querendo comprar meu terreno", conta Regina Almeida, médica de 42 anos que mora num charmoso sobrado que pertenceu ao avô. "O problema é que compraram todas as casas vizinhas, não tenho o que fazer. É uma venda à força, sabe." Segundo dados da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), o valor do imóvel nessa área triplicou nos últimos cinco anos e deve continuar em escalada.
A exemplo do que já ocorreu em bairros como a Vila Olímpia, Pompeia, Perdizes e Tatuapé, só para ficar nos casos mais recentes, chegam as máquinas, os incorporadores, os prédios de alto padrão, as lojas de luxo, os estacionamentos caríssimos. Tudo isso obviamente causa um grande impacto na vida dos moradores mais tradicionais do bairro. "Meu amigo, a gente não tem mais espaço aqui, não", diz Luiz Quaresma Neto, de 52 anos, que mora no bairro e tem uma lanchonete no largo. "Estamos à venda. Não vai dar mais para pagar o aluguel aqui, e o meu público já está desaparecendo. Minha família está neste mesmo endereço há pelo menos três décadas, quando aqui era um reduto japonês. Meu avô contava que o largo cheirava a shoyu e missoshiru. Já meu pai viu isso aqui florescer, viu todo o movimento que chegou com os ônibus, com a imigração nordestina. Agora, eu vejo essa história sumir. Sempre fico pensando o que contarei para o meu filho, se vai ser um final feliz ou triste."

PREJUÍZO
Para o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), a obra no Largo da Batata pode melhorar o trânsito e a fluidez, mas vai invariavelmente render prejuízo à identidade do Município. "Isso já aconteceu em diversos bairros, e ainda vai acontecer com outros", diz."A unidade da vizinhança fica extremamente prejudicada, e valores são sacrificados em nome do crescimento de São Paulo. Mesmo com a degradação posterior, a riqueza da história de Pinheiros é única. Em Santana, por exemplo, foi a mesma coisa, a ocupação jesuíta foi esquecida e os endereços históricos foram destruídos. Quando capítulos como esses somem assim, há um empobrecimento histórico da nossa cidade."
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cidades lançam Rota Turística do Rio Tietê

OESP Caderno Cidades 17/09/2009

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090917/not_imp436312,0.php

Roteiro refaz andanças bandeirantes e destaca 9 municípios paulistas

José Maria Tomazela, SOROCABA

Cinco anos depois de ser criado pelo governo estadual, o Roteiro dos Bandeirantes, antiga rota usada pelos colonizadores paulistas tendo como eixo o Rio Tietê, está pronto para atrair turistas. As nove cidades que integram o roteiro definiram os atrativos e criaram a infraestrutura para receber os visitantes. "Agora é hora de colocar nosso produto no mercado", diz o secretário executivo do Consórcio do Médio Vale do Tietê para o Turismo, Pedro Macerani.

A diretoria que assumiu o consórcio na semana passada terá o desafio de convencer o turista, sobretudo o paulistano, de que vale a pena visitar todas as cidades do percurso. O roteiro refaz o caminho por onde passaram os desbravadores que partiram da Vila de São Paulo de Piratininga para andanças pelo então desconhecido território nacional, em busca de metais preciosos e riquezas. São cerca de 200 quilômetros, saindo de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, e passando pelas cidades de Pirapora do Bom Jesus, Araçariguama, São Roque, Cabreúva, Salto, Itu e Porto Feliz, até a chegada em Tietê.

De acordo com Macerani, todas as cidades criaram postos de informações turísticas e adotaram a sinalização urbana, além de designar uma comissão voltada para esse turismo. "Queremos agora que o governo do Estado faça a sinalização do roteiro nas rodovias de acesso e ajude a divulgar as atrações. Também estamos em contato com agências de turismo e vamos participar de feiras e eventos."

As cidades têm em comum o vínculo histórico-cultural com o movimento bandeirista, mas cada uma dispõe de atrativos próprios, capazes de agradar aos visitantes. São museus, fazendas históricas, trilhas e caminhos dignos de serem explorados, segundo Macerani. "A viagem é uma excelente oportunidade para o visitante se aprofundar na história do Brasil, pisando nas mesmas terras por onde passaram personagens como Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, e Fernão Dias Paes Leme, o caçador de esmeraldas." A Casa de Anhanguera é uma das atrações de Santana de Parnaíba, além da igreja e do casario colonial tombados pelo patrimônio histórico.

Exemplares da arquitetura oitocentista estão presentes também em Itu, famosa pelas igrejas e sobradões, Porto Feliz e Tietê. A cidade de São Roque, que passou a fazer parte do roteiro neste ano, tem o Sítio Santo Antonio, com a casa bandeirista, e as vinícolas. Araçariguama preserva uma mina de ouro que, no passado, despertou a cobiça dos colonizadores. Salto inaugurou o Memorial do Rio Tietê e tem parques geológicos.

EVENTOS

A região guarda uma grande diversidade gastronômica, de pratos típicos a doces caseiros e cachaça artesanal. Conta ainda com muitos eventos, como a Paixão de Cristo de Salto, o Corpus Christi de Santana de Parnaíba, a Festa do Bom Jesus de Pirapora, a de São Benedito de Tietê, a saída das Monções em Porto Feliz e as romarias. "Queremos que o roteiro não seja atração para um único dia, mas para vários fins de semana", afirma o prefeito de Tietê, José Carlos Melaré (PTB), novo presidente do consórcio.

Em busca da São Paulo esquecida

OESP 13/09/2009 Caderno Cidades

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090913/not_imp433960,0.php

A lente de câmera digital bem pequenininha que Douglas Nascimento sempre carrega no bolso já está treinada para traduzir o descaso em beleza. Todo santo sábado de madrugada, quando a cidade ainda acorda, o fotógrafo paulistano de 34 anos percorre os mais escondidos cantos de São Paulo em busca de ruínas, sujeira, abandono, degradação. São tijolos desgastados, reboco caindo, janelas quebradas. Esqueletos de concreto. Imóveis com janelas eternamente fechadas. Memórias simplesmente esquecidas. Ainda assim, Douglas e sua diminuta Lumix FV28 registram tudo, fotografam todos os detalhes, anotam os mais discretos contornos. E, no final das contas, dão sentido para algo em que ninguém mais repara.

Douglas é editor de um site chamado São Paulo Abandonada (www.saopauloabandonada.com.br), espécie de canal virtual de fiscalização que ele criou em janeiro para inventariar e preservar o que restou do patrimônio paulistano. São fotos de casas, fábricas e galpões abandonados, muitos dos quais correm o risco iminente de desabar ou de serem demolidos para dar lugar a mais um daqueles espigões residenciais com detalhes neocoloniais. Até agora, ele já visitou e fotografou 120 endereços - são capítulos importantes da história de São Paulo, casos flagrantes de patrimônio invisível, bens tombados imperceptíveis, que estão ali mas ninguém se dá conta.

"Sempre gostei de fotografar fachadas, casas, então comecei a montar um arquivo pessoal com essas imagens", conta ele. "Certo dia percebi que vários imóveis que havia registrado já não existiam mais. Um amigo meu me indicou um site de Portugal, o "Lisboa Abandonada" [www.lisboa-abandonada.com], e achei que era hora de fazer um aqui, até para evitar que outras casas desaparecessem. Agora tiro a foto do local, peço ajuda de uma amiga historiadora para levantar a memória do endereço, e ainda localizo num mapa para que qualquer pessoa encontre. Principalmente, para que a Prefeitura encontre e faça alguma coisa.

"No site é possível conhecer palacetes entregues à própria sorte na região central, antigos cinemas que viraram estacionamento, teatros fechados, hospitais esquecidos, edifícios que se transformaram em cortiços, casarões que já sumiram do mapa, vilas operárias centenárias que parecem cidades fantasmas. Há um óbvio fio condutor - mudam-se os endereços, os bairros e as zonas, mas fica evidente que a falta de uma política eficiente de preservação se repete por toda a cidade.

"Já vi de tudo por aí, na semana passada mesmo descobri uma casa bandeirista que já era dada como demolida", diz. "Tenho uma câmera profissional, mas prefiro usar uma digital bem pequena que carrego no bolso para onde for, e aí dá para fazer todos os flagras. Além disso, também sempre tenho um gravador à mão, porque vejo vários exemplos de patrimônio abandonado quando estou dirigindo, mas não tenho tempo de parar. Junto tudo isso, faço uns roteiros prévios, e vou no sábado às 5 horas percorrer e fotografar os lugares. É bom ser sábado de manhã, porque alguns endereços são na periferia, são perigosos, mas descobri que vagabundo e criminoso não acordam cedo.

"Nos últimos meses, com o sucesso do site e com a inclusão de um canal para denúncias anônimas, o trabalho de Douglas aumentou exponencialmente. "São quase mil visitas diárias, e às vezes tenho de desligar o celular porque não paro de receber novas denúncias", conta. "Acho que hoje está aumentando o interesse pelo patrimônio. O meu interesse por esse assunto surgiu por causa do fotógrafo Augusto de Azevedo, que foi um dos únicos a retratar a transformação da cidade no fim do século 19. Se não fossem as fotos dele, não saberíamos como era São Paulo. Até o túmulo dele no Cemitério da Consolação estava abandonado. Quero agora fazer o mesmo trabalho, quero que no futuro peguem minhas fotos e vejam um registro da São Paulo que acabou sendo demolida."

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Cidade ganha nova opção de cultura: vem aí o Museu de História de SP

http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=103000

Espaço será instalado na Casa das Retortas, próximo ao centro antigo


Vem aí mais um cartão postal para cidade (e o Estado): o recém-criado Museu de História de São Paulo, que começará a funcionar em março de 2010, na antiga Casa das Retortas, no Parque D. Pedro. Tudo que possa documentar o passado paulista estará lá: as primeiras construções de taipa erguidas num povoado insignificante, as transformações econômicas e sociais ocorridas ao longo dos séculos, as conquistas, a terra da fartura, habitada pelos índios tupiniquins e por eles chamada Campos de Piratininga. Tudo isso é história e o objetivo do novo museu será exatamente esse: oferecer ao visitante a oportunidade de um mergulho na história paulista.
A implantação do novo espaço ficará sob a responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Fundação Patrimônio Histórico da Energia e Saneamento, que cuidará do projeto de museologia e museografia da instituição cultural. A antiga Casa das Retortas – do final do século 19, com área de 20 mil metros quadrados e tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) – fica à mostra na ponta de uma rua não menos famosa, a do Gasômetro, entre as ruas Maria Domitila e da Figueira.

Vizinho ilustre – No passado, era utilizada para extração de gás destinado à iluminação pública antes de São Paulo dispor de energia elétrica. Retorta é o recipiente que recebia o carvão para produzir gás. Tem como vizinho o antigo Palácio das Indústrias, que já foi sede de vários órgãos públicos, entre eles a prefeitura paulistana e a Assembleia Legislativa. Mais para cima fica o Pátio do Colégio, onde aportou há mais de 500 anos o padre Anchieta, vindo de viagem difícil, do litoral até o planalto.
Todas as dificuldades enfrentadas estão registradas em carta histórica, que estará em exibição no novo museu. “Nossa intenção é que o museu tenha essa narrativa cronológica, desde a chegada do colonizador até os dias atuais, da subida à serra, mostrando a diversidade étnica, a riqueza natural do Estado, o espírito empreendedor, a expansão cafeeira, aspectos importantes para se entender a história de São Paulo”, ressalta o curador Roberto Pompeu de Toledo, jornalista e escritor, autor do livro A capital da solidão, uma história de São Paulo, das origens a 1900.
Segundo o curador, as ideias sobre o museu, acervo e exposições permanentes começam a aparecer, a sair do papel. Haverá recriações de construções, como, por exemplo, da Casa Bandeirista, vestuário utilizado pelos paulistas ao longo do tempo, assim como peças autênticas, de época, solicitadas aos diferentes outros equipamentos culturais já existentes para compor o acervo do museu. “Enfim, os paulistas terão um museu meio interativo, aliado ao tradicional, sempre de maneira abrangente e didática do começo ao fim”, enfatiza.

Parceiros – Para fazer tudo isso, Roberto Pompeu terá a companhia de dois outros nomes de peso: o também escritor e jornalista Jorge Caldeira, e o historiador Marco Antônio Villa, este com a incumbência de coordenar o Centro Paulista de Documentação (SPDOC), com documentos dos governos anteriores disponíveis para consulta pública. O novo centro de pesquisa histórica terá prédio próprio e atuará em parceria com o Arquivo Público do Estado. O objetivo, segundo Villa, é resgatar a memória política, cultural, econômica e social de São Paulo, com ênfase no registro da história local. O SPDOC é inspirado no Centro de Pesquisa e Documentação de História do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, criado em 1973, com a finalidade de produzir, organizar, pesquisar, publicar e divulgar documentos referentes à memória e à história do Brasil.
A memória oral, por exemplo, será registrada em entrevistas com personalidades de destaque na política de São Paulo, como o ex-governador Laudo Natel, já entrevistado. Plínio de Arruda Sampaio já falou sobre o governo Carvalho Pinto. “No momento, há pesquisadores, historiadores, enfim, muita gente envolvida com os futuros trabalhos, todo mundo está em campo”, adianta Villa. Devem integrar o conjunto, ainda, restaurante, lanchonete e livraria.

Mais cultura na região do Gasômetro
Comerciantes e empregados da região da Rua do Gasômetro comemoram a chegada do Museu de História de São Paulo. Valdeci Galvão, vendedor numa loja de madeiramento, há mais de 25 anos na Rua Maria Domitila, diz que aprendeu a conviver com o movimento que “vira e mexe” acontece por ali. “São gravações de propaganda de Ferrari, lançamentos de carros, fashion week. Sempre fiquei olhando de esguelha, sem nunca chegar perto. Neste museu, finalmente, poderei entrar e aprender um pouco mais, justo eu, que mal completei o ensino médio”.
Já o comerciante Nelson Kastropil, nascido no bairro paulistano do Belém, proprietário de uma loja de embalagens descartáveis, há 12 anos na região, esfrega as mãos de contente. “Quanto mais se fizer nesse sentido melhor, até para avivar um pouco nossa memória. Gostaria de ver em destaque nesse museu tudo o que diz respeito ao café, essa máquina propulsora que alavancou São Paulo e que tem muito a ver com a história de minha família, imigrantes iugoslavos”.

Maria das Graças Leocádio - Da Agência Imprensa Oficial